Uma vez ouvi alguém dizendo assim: é no miudinho da vida que as coisas mais importantes acontecem. Sempre ficamos esperando algo grandioso para nos sentirmos realizados ou valorizados. Mas aprendi, com o passar do tempo, justamente o contrário: a vida se tece no silêncio do cotidiano, sem holofotes e sem publicidade, apenas tendo a certeza de realizar nossas tarefas com simplicidade e responsabilidade. Ser livre é não possuir a preocupação de ser notado ou exaltado.
No mundo tão preocupado com a aparência e com a ganância de ter e poder, a ponto de passar por cima de tudo e de todos, encontramos na Palavra de Deus orientações sábias para não entrarmos nesse egoísmo doentio presenciado a todo momento. A paz verdadeira acontece no desejo profundo de encontrar a Deus dentro de si mesmo. É ali, bem no fundo do nosso ser, a sua morada mais sagrada.
Paulo escreveu em uma de suas cartas: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Não vos inquieteis com nada, mas apresentai a Deus todas as vossas necessidades”. Na Bíblia, há sempre uma orientação profunda esperando por nós. Basta estar atento e ter os ouvidos abertos para decodificar toda a verdade contida nesses textos sagrados.
A alegria que muitas vezes procuramos tem o seu efeito passageiro. Satisfaz por um tempo, alimentando o nosso ego, mas logo acaba deixando no lugar um rastro de tristeza e decepção. E assim nasce a necessidade de ir novamente à busca de outras formas de alegrias, entrando num ciclo de realizações e frustrações que nunca se acaba.
A alegria, dentro dessa dinâmica humana, vem travestida de trabalho exagerado, tirando o nosso tempo para a família, para a oração, para o descanso. Não nos deixa um pouco mais à mesa das refeições conversando com a família. Não percebemos os filhos crescendo. Não aproveitamos a saúde e a juventude para fazer a viagem dos sonhos, ou, quem sabe, para realizar um projeto voluntário trazendo mais satisfação pessoal ao invés de um bocado de dinheiro.
A alegria pode estar também disfarçada do poder. É bom ter pessoas ao nosso redor fazendo elogios, enaltecendo nossas qualidades, admirando os nossos feitos. Mas como tudo passa numa rapidez estonteante, logo aparecerá outro mais inteligente, mais jovem, mais talentoso e acabamos perdendo todos os nossos admiradores e ficamos sós. Nosso castelo de areia se desmorona junto com os nossos títulos e condecorações. Aí a vida perde o seu brilho e não há mais motivos para sorrir.
A alegria pode vir ainda carregada de dinheiro. Num mundo onde tudo tem o seu preço, até algumas consciências, a ilusão em poder ter o que se quer é muito grande. Aqui nascem os atos de corrupção. Milhões roubados, pessoas vendidas, a moral jogada na lata do lixo e, o pior de tudo, vamos nos acostumando com essas notícias e a consciência não detecta mais o erro assombroso dessas atitudes. O brilho falso comprado a custo de vidas humanas acaba gerando a falsa alegria de ser esperto e se dar bem em tudo.
Mas existe uma alegria verdadeira. Jesus chamou essa alegria de “bem-aventurança”. Disse Ele: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os promotores da paz, porque serão chamados filhos de Deus”.
Assim, nessa mesma lógica do Senhor, bem-aventurados são os que se aventuram no caminho seguro para encontrar a verdadeira alegria. Quer educação? Seja educado. Quer respeito? Respeite. Quer ter amigos? Seja amigo. Quer misericórdia? Seja misericordioso. Quer ajuda quando precisar? Ajude quem esteja precisando. Quer paz? Faça a paz acontecer ao seu redor. Esse é o caminho seguro a nossa frente, pronto para ser percorrido. Encontramos esse princípio popularizado na oração de São Francisco de Assis: “É morrendo que se vive para a vida eterna”.
Às vezes, é melhor calar a discutir. É melhor rezar a praguejar. É melhor dormir em paz a possuir uma consciência atormentada e perder o sono. Você sabe qual é o segredo de ter uma vida em paz e uma alegria perene? É o de não se inquietar com nada e apresentar ao Senhor todas as suas preocupações. É confiar em Deus e deixar a direção nas mãos d’Ele. É acreditar que o mal pode até se aproximar, mas não terá domínio sobre nós.
A chave para uma vida feliz é a de não maldizer os infortúnios quando eles chegam, mas aceitá-los como parte da existência. Nem tudo são flores, já nos alertaram tantas vezes. E é assim mesmo. Precisamos deixar de lado nosso jeito infantil de olhar a vida e os nossos problemas, pois isso nos faz sofrer ainda mais, e assumir a vida adulta com coragem e determinação.
Só quem tem fé e conhece profundamente a Palavra entenderá tudo isso e encontrará paz e alegria ainda nesse mundo.
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
