Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
Ela sentou-se ao meu lado e perguntou: “Quantos anos estou fazendo mesmo?”. Respondi pela terceira vez: “Noventa e cinco, vó”. Colocou a mão no queixo, cruzou as pernas e olhou para o horizonte, como quem procura entender como havia chegado tão longe. “Eu já passei a minha mãe”, falou incrédula e voltou a mergulhar em suas memórias. Fiquei ali com ela, sentado sob a sombra da árvore, envolvidos pelo ventinho frio daquela manhã.
Gostaria de ler os seus pensamentos para saber o que se passa na cabeça de alguém dessa idade. Como se convive com tantas memórias e com tantas pessoas que já não estão mais aqui. Talvez seja um esforço muito grande sair do passado e colocar os pés no presente. Minha mãe diz que, às vezes, minha avó fala sozinha o dia inteiro. Conversa com ela mesma. Talvez recordando antigos diálogos, atualizando momentos já vividos, ou, quem sabe, terminando conversas incompletas através do tempo.
É preciso muita sabedoria para poder fechar alguns ciclos da vida. A aceitação da sua história, e de como a vida foi se desenhando através dos anos, é um bom antídoto para cultivar a sanidade e, nos momentos mais difíceis, aceitar com resignação as limitações que vão surgindo com o tempo.
Ela relutou muito para vir morar na casa da minha mãe. Tentou continuar na sua casa até onde pôde, cuidando das suas flores, aguando a sua horta, fazendo a sua comida. Ficava a tarde sentada no alpendre da casa que dava para a rua e, ali naquele lugar, aconteciam os encontros e as conversas com os vizinhos e com as pessoas que passavam. Mesmos as mais apressadas, paravam um tempinho para conversar com ela.
Morava sozinha há muitos anos. Ficara viúva ainda muito nova e criou com bravura as duas filhas. Também cuidou dos pais idosos até falecerem. A partir daí a solidão era a sua companheira, apesar de todas as pessoas que diariamente passavam diante do seu alpendre. Em nenhum momento a ouvi maldizendo a vida. Já presenciei conversas profundas sobre as dificuldades que enfrentou. Mas reclamar de Deus? Jamais. Em tempo algum a vi responsabilizar os outros pelas suas dificuldades.
A vida lhe ensinou a ser forte. Mulher valente, destemida e corajosa. Não podia demonstrar fraqueza pois tinha muito a fazer. Com o tempo, essa braveza foi se acalmando, dando lugar a uma mansidão e até a um bom humor. Resignou-se. O tempo, imbatível como sempre, encarregou-se em amansá-la e tirou dela toda a força de trabalho, colocando no lugar uma rotina mais amena e simples.
Já não acorda antes do sol, como fez na maior parte da sua vida. Muitas vezes, agora, precisa ser acordada, caso contrário, passa a manhã toda na cama. Já não planta mais flores, é o tempo apenas de admirá-las, tecendo elogios pelas cores e beleza quando as vê no jardim. “Essa orquídea está linda. Trouxe lá de casa”, disse-me outro dia, talvez relembrando do jardim florido e tão bem cuidado da sua antiga casa.
Já não faz mais as deliciosas comidas que antes enchia a casa de cheiros e sabores, como deve ter as casas de vó. Agora, quando para provocá-la pedimos que faça alguma coisa para comer, ela prontamente diz: “Peça para sua mãe”. E minha mãe faz, só para ela também comer e, assim, poder vivenciar no presente os sabores do passado.
Depois de um longo período de silêncio, cheguei pertinho dela e falei: “Vó, aguenta mais um pouco. Logo vamos comemorar os seus cem anos, e vai ser uma grande festa”. Ele me olhou com um pequeno sorriso no canto da boca e balançando a cabeça disse: “Tá bom que vou viver tudo isso. Já está na hora de ir embora também”.
Rimos juntos e começamos a conversar sobre a comemoração que teríamos naquela noite com bolo e convidados.
Não sei dizer se chegará aos cem anos, mas tenho certeza de que até agora os seus dias foram muito bem vividos. Não teve facilidade na vida. Estudou o suficiente para escrever o seu nome e ler o necessário. Não sabe sobre as novas tecnologias e, na televisão, assiste à missa diariamente. Esquece de alguma informação importante mas não se esquece de quem ela realmente é e nem da criação que recebeu dos seus pais. Tem um senso de honestidade muito apurado e carrega consigo a educação de uma quase centenária.
Num mundo tão complexo como vivemos hoje, tê-la por perto é um bálsamo. Faz-me conectar com o meu passado, atualiza o meu presente e singra rotas nos mares da vida, rumo ao futuro.
A noite foi de festa. Bolo, doces, comidas, música, fotografias tiradas para eternizar esse momento. No final, visivelmente cansada, mas feliz, ainda teve tempo de sentar-se no sofá da sala e dar carinho ao bisneto que já estava quase dormindo. A diferença entre eles é de exatamente noventa e três anos. Duas vidas que se cruzam. Duas histórias marcadas por esse momento de eternidade.
Fui me despedir dela. Ainda me deu uma bronca pois disse para eu dormir ali e não pegar estrada nessa hora da noite. Expliquei os meus motivos, agradeci a festa e saí. Ao passar pela janela olhei para dentro e ainda deu para ver aquela cena. Mais uma vez agradeci a Deus pela vida da minha avó e fui embora, pensando quantas vezes ela também me ajudou a dormir, sem eu saber que aquele gesto era um pouco de Céu na Terra.
