Sobre as asas do Senhor

A lua brilhava de maneira radiante no céu. Nem muito no alto e nem muito no baixo. Estava à altura dos olhos para poder enxergá-la sem muito esforço. Era madruga. A hora do sono aprisionar o corpo e deixar a alma solta, envolta aos sonhos e livre dos limites impostos pela vida. Sem saber ao certo se já estava acordado, tomei um banho, peguei a mala e fui ao encontro de um pequeno grupo que, assim como eu, sob a lua reinante no firmamento, tinha um objeto: passar uns dias de reflexão no alto de uma montanha, tendo apenas Deus e a natureza por testemunhas.

A viagem foi longa e cansativa, como devem ser os caminhos que nos ajudam a encontrar um sentido importante para a vida. “A alegria precisa ser construída”, iríamos ouvir nesses dias. E é verdade. Ela não cai do céu como a chuva benfazeja da primavera. A alegria passa pela madrugada, bem diante da nossa casa. Se nos distrairmos nos sonhos nunca a encontraremos. É preciso esforço, coragem e foco para se construir uma vida feliz.

Assim como o tempo se faz lento, mas tudo passa, a viagem demorada nos levou ao nosso pequeno paraíso. “Pequeno”, modo de dizer, pois a natureza era exuberante, mas o grupo de pessoas era bem reduzido e isso nos ajudou a viver com mais intensidade essa experiência. “É um retiro”, foi-nos dito através de mensagens e orientações. Mas eu diria com certeza: foi muito mais do que um retiro espiritual. Foi um encontro com o Sagrado hospedado em cada um de nós, um divisor de águas, um toque de Deus em nosso coração humano.

Pude ouvir nesses dias sobre um processo natural de secagem em nós. É como uma árvore. Nasce de uma pequena semente, cresce no silêncio, vive na maioria das vezes sem ser notada e, de repente, seca. Assim é a vida. Vamos secando aos poucos e não há outro caminho a ser feito. Por isso, é preciso preservar quem somos e nos resguardar de todas as investidas contra a nossa identidade mais profunda. E essa é uma batalha pessoal. Não espere alguém assumir essa tarefa por você.

É importante saber quem somos e para onde queremos ir. Por mais influências recebidas de tantas pessoas e situações passadas pela nossa história de vida, somos quem podemos ser. Há um núcleo intacto dentro de nós preservando o nosso “eu”. O cuidado dessa identidade é o esforço mais honesto feito por nós mesmos. É salvaguardar a nossa existência de tantos ataques do mundo. É encontrar Deus fazendo morada em nós. É olhar profundamente para os nossos próprios olhos no espelho e nos reconhecer. Saber quem somos é uma dádiva divina.

Sem percebermos, fomos mergulhados numa reflexão filosófica sobre a “Liberdade”. O fio condutor daqueles dias foi: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. É uma frase do evangelho de João. O caminho da liberdade começa livrando-se do passado como um peso doentio. Não há como repará-lo. É preciso olhar para ele, aceitá-lo e seguir em frente. Abandonar os rancores para não se transformar neles e amar sempre.

“Deus não errou com nenhum de nós”. Não se enganou ao nos fazer. Pelo contrário. Somos amados e queridos por Ele, e só seremos realmente livres quando nos amarmos profundamente, pois somos importantes, a natureza humana é nobre e precisamos ser quem somos, sem máscaras e sem erros.

Há uma tarefa urgente para nós no mundo de hoje: “buscar a felicidade e procurar não fazer esse caminho sozinho”. É preciso encontrar pessoas querendo caminhar com você. Sonhar os mesmos sonhos, viver as mesmas desilusões, compartilhar a fé em Deus e, sem medo, encontrar a liberdade, para assim fazer o bem a todos.

É bom também, dentro de toda essa reflexão, lembrar-se da finitude nesse mundo. Tudo seca. É preciso se preparar para a etapa da inutilidade, quando deixarmos de fazer para os outros e começarmos a ser para nós. E como fazer se não aprendemos a nos amar? Como viver a última etapa da vida se não conquistarmos a nossa própria liberdade?

Justamente nesse momento será preciso deixar a preocupação em ser útil e passar a querer significar mais. É aqui que encontramos o verdadeiro valor em não ter nada para dar, e, mesmo assim, poder significar algo para alguém. Isso é amor.

Viver pode se tornar insuportável se não buscarmos nossa verdadeira identidade. Uma fé madura nos ajuda a trilhar por essas veredas. Assim, nunca ficaremos sós nessa missão. De nada vale tanto esforço em ser alguém se não podermos colocar o nosso coração em tudo que fizermos.

Foram dias intensos de frio, mas terminamos essa caminhada espiritual com a alma aquecida. Um momento profundo com o Senhor também fez parte dessa busca pela liberdade. O ápice aconteceu de maneira singela e serena. Fomos introduzidos em uma capela onde o Santíssimo Sacramento estava exposto. Ali nossa alma foi derramada e pudemos voar bem alto sobre as asas do Altíssimo.

Até então havíamos refletido sobre a busca da liberdade. Mas, naquele momento, a Liberdade nos tocou de maneira avassaladora. Fomos colocados no colo do Senhor e nos sentimos amados por Ele que nos conhece desde o ventre materno.

Descemos a montanha, voltamos para casa. Mas nunca mais sairão da minha memória aqueles dias em que ficamos escondidos sob o olhar amoroso de Deus e, com alegria, revigoramos nossas forças.

 

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal