Reflexões no alto da montanha

A estrada estava muito tranquila e quase todo o trajeto foi de calmaria. Tudo seria perfeito se não fosse por um pequeno trecho em obras, onde a lentidão se transformou num teste de paciência. O dia estava bonito, a parada para o café foi prazerosa. A companhia de outro padre nessa viagem fez a conversa fluir e as reflexões sobre a vida e a fé acontecerem de maneira despretensiosa e interessante.

O caminho longo e cheio de paisagens bonitas de se ver levou-nos ao topo de uma montanha, em meio à natureza e à oração. Já é um lugar bem conhecido para mim. Nos últimos anos, é para lá que vou com todos os padres e o bispo da minha diocese. Às vezes é para o retiro anual, outras vezes, como agora, é para participarmos da formação permanente. É sempre bom estar com os padres, refletir sobre um tema da nossa vida ou da nossa missão. Rezamos, estudamos, conversamos sobre todos os assuntos possíveis e imagináveis, fazemos as refeições e assim o dia vai passando lentamente.

Juntos com nossas malas também chegaram o frio e a chuva. Vieram acompanhados por um vento impetuoso, carregado de barulhos e assobios pelas frestas das janelas. Fui dormir com trovões e relâmpagos iluminando a noite escura e acordei com a chuva batendo na janela, trazendo uma sensação boa de serenidade e paz.

Não pude deixar de me recordar do salmo cantado em todas as missas do domingo passado: “A minh’alma tem sede de vós, como a terra sedenta, ó meu Deus!”. E era bem assim que eu me sentia, como a terra sedenta, recebendo a chuva benfazeja e ficando pronto para voltar a florescer e dar frutos.

Às vezes, o cansaço impera em nossos dias. Não é um cansaço de desânimo e muito menos por carregar pesados fardos. O cansaço é da missão cumprida, da agenda executada com sucesso, do dever realizado. Apenas o cansaço natural de quem trabalha e sabe da responsabilidade daquilo que faz. Não precisa nem de uma noite bem dormida para sanar esse esgotamento. Basta uma boa música na hora certa, um café com pão de queijo quentinho ou uma conversa animada.

Já tive muitos cansaços deixados na cadeira posicionada bem em frente à pequena capela da casa paroquial. Ali me sentava quebrado e, aos poucos, ia me refazendo, até terminar inteiro novamente. Levantava-me e ia para cama com a sensação de ter descansado num paraíso.

Quantas vezes a oração terminou em sono e acordava assustado, por um momento achando que havia adormecido sem ter cumprido todos os deveres do dia. Mas, quando o susto passava, estava eu ali, diante d’Aquele que nunca dorme velando o meu sono.

Colocaram-me em um quarto onde nunca havia me hospedado. Precisava percorrer um longo corredor onde as luzes iam se acendendo conforme os meus passos avançavam. Entrei, desarrumei a mala, colocando a roupa no lugar, organizando os livros para leitura, ligando o computador e experimentando o chuveiro para ver se esquentava. No final, tudo ficou bem simples e acolhedor.

Finalmente, resolvi abrir a janela. Algumas imensas araucárias balançavam seus galhos, dando-me boas-vindas. Poucos pássaros passavam numa dança cheia de improvisos, e o céu, já com ares de não muita graça, carregado de intenções chuvosas e frias.

O cansaço transformou-se em gratidão. Como posso merecer tanta gentileza de Deus em minha vida? Não sei explicar. Tenho a certeza de receber muito mais do que ofereço. Realmente dou o testemunho de haver vida em abundância por onde tenho passado nos últimos anos. Tenho encontrado muitos corações generosos e isso me deixa feliz.

As horas por aqui estão mergulhadas em palavras e pensamentos sobre o sentido da vida. O pregador, um bispo experiente e sábio, tem-nos levado, com suas palavras, a lugares difíceis da nossa existência, não para trazer sofrimento, mas para curar feridas, refazer caminhos, encontrar soluções para muitos problemas nossos mesmos. Às vezes, carregamos muitas dificuldades em encontrar um caminho para se viver bem, e, na maioria delas, somos nós os causadores de tantos obstáculos.

O pregador nos recordou que a maturidade se faz com a experiência de vida e com o desejo em se tornar cada vez melhor. Sem o esforço pessoal, como iremos nos tornar pessoas inteiras e equilibradas? Na missa de domingo, antes do salmo sobre a alma e terra sedenta de chuva, o profeta Jeremias disse na primeira leitura: “Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir”. Temos aqui dois grandes movimentos que nos ajudam a compreender a vida.

O primeiro está em Deus. É Ele a adiantar-se na sedução, no amor, no cuidado, na misericórdia. O segundo está em nós mesmos. É preciso disposição para deixar-se seduzir pelo Senhor. É estar pronto para dar o consentimento ao amor de Deus em nós. Colocar-se sob as asas do Altíssimo e simplesmente dormir em segurança.

Agora, lá fora, chove muito e faz frio.  E eu, aqui, no alto da montanha, numa casa de acolhida para retiros, fico a pensar sobre a vida. Trago em meu coração o conselho de Paulo, o apóstolo, da missa também de domingo passado. “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos”. Peço a Deus sempre ter disposição para transformar aquilo que precisa ser transformado em mim.

Vou dormir, preciso aproveitar a chuva caindo para embalar meu sono e regar minha alma de sonhos e de luz. Afinal, também trago minhas inquietudes e tenho sede de Deus. Somos seres únicos e trazemos a poeira do universo em nosso corpo.

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal