Quando tudo parece dar errado

Sentei-me na cadeira de alpendre, em frente ao sacrário, e não disse nada. Depois de um tempo em silêncio, meu pensamento refez todas as conversas tidas ao longo do dia. Não julguei, não busquei soluções para os problemas apresentados, esvaziei-me de todo o sentimento de impotência e apresentei-as ao Senhor. Há momentos na vida em que não temos outro caminho se não recorrermos à fé em Deus.

A vida vai fazendo o seu próprio percurso. Vamos apenas organizando o possível e fazendo planos para um futuro totalmente incerto. Os pensamentos e as verdades de outrora, na maioria das vezes, precisam de ajustes e não é fácil deixar de lado os caminhos percorridos para iniciar uma nova rota.

Depois de um tempo em silêncio, apresentei ao Senhor uma amiga hospitalizada com dores terríveis na cabeça. Há quase cinco anos tenho acompanhado a sua via sacra. Num tratamento intenso contra uma doença que persiste em não deixá-la em paz, voltou à internação com o coração aflito. Sempre lhe aparecem pensamentos intrusos e a maioria deles não são bons. Há sempre a preocupação de alguma coisa  terrível acontecer.

Falamo-nos por telefone, outro dia. Já estava no hospital e me ligou pedindo ajuda. Tentei acalmar o seu coração. Trazer novamente a esperança e a força nesse recomeço de tratamento. “No dia seguinte os médicos irão trazer os resultados dos exames com o diagnóstico certo para o seu problema”, disse a ela. E foi assim que aconteceu. Dia de Nossa Senhora Aparecida, eles desvendaram o seu caso e iniciaram o tratamento.

Falamo-nos novamente hoje, por vídeo-chamada. Diferente de dias atrás, ela estava muito confiante. As dores diminuíram e sente já os resultados positivos do tratamento. Conversamos sobre a família, Deus, amizade e a força necessária para não desistir. É preciso estar sempre pronto para recomeçar. Apesar do novo caminho ser sofrido, é necessário enfrentar o medo e dar os passos firmes. Tudo passa nessa vida, até as dores.

Também trouxe diante do Sacrário um senhorzinho franzino e debilitado que visitei na UTI do hospital. Não estava lá para vê-lo. A visita foi para outro senhor também internado e necessitado de uma bênção. Mas a assistente social me reconheceu no corredor do hospital e pediu-me uma bênção também para esse idoso. “Não tem família e há anos mora num asilo. Ele não está falando e talvez entenda alguma coisa”, disse-me quase sussurrando.

Depois da primeira unção, ela me conduziu até o leito desse homem. Magro, olhos abertos e fundos, respiração lenta. Não possuía nenhum movimento além de respirar. Alguns aparelhos ligados ao seu corpo davam a noção de como estavam seus órgãos vitais e o estado não era bom. Coloquei a estola, peguei o óleo do sacramento nas mãos e iniciei a oração, falando bem perto do seu ouvido. Não sei se me escutou, mas acredito na misericórdia de Deus e tenho certeza de que recebeu a bênção com alegria em seu coração.

Como a vida às vezes é imprevisível. Não conseguimos imaginar por onde pisarão os nossos passos. Por isso precisamos estar preparados para as pedras que aparecerão pelo caminho. Nem sempre será fácil. Mas é preciso cultivar o amor dentro de nós. Ele sempre tornará as cruzes mais leves. Amar é reconhecer a vitória mesmo antes da batalha. É acreditar em dias melhores, mesmo passando por tempestades. É encontrar sentido na vida, mesmo quando os sonhos vão embora.

Além disso, a fé em Deus nos leva a construir uma base sólida para nos dar suporte nesses momentos difíceis. Faz de nós pessoas corajosas e prontas a enfrentar qualquer batalha. Torna-nos verdadeiros guerreiros revestidos de luz e de gratidão.

Uma amiga, com uma idade já avançada e algumas doenças pelo corpo, do nada, caiu no banheiro da sua casa. Quebrou o quadril e está acamada. Uma pena vê-la assim. Dói muito o lugar da quebradura e não consegue se mexer muito. Precisa ficar na mesma posição o dia inteiro.

Fui visitá-la e conversamos longamente. “Como estou dando trabalho”, confidenciou-me com os olhos cheios de lágrimas. Sempre disposta e dada aos trabalhos domésticos, não imaginava ficar assim dependente de outra pessoa até para as necessidades básicas. Está sofrendo duas vezes: pelas dores do corpo e por sentir ser um peso para a família.

Disse a ela que não está sendo um peso. Essa situação faz parte da vida e muitas pessoas passam pela mesma circunstância. Afinal, tem uma família que a ama e amigos que a visitam. Está sendo cuidada, medicada, alimentada. É possuidora de uma fé inabalável. Reza o dia todo e, apesar do medo a rondar seu coração, tem certeza de retornar a sua vida de antes.

Nesse mundo há muitas pessoas prepotentes acreditando nunca passar por dificuldades. Vivem a vida sem pensar no amanhã. Sem construir relações saudáveis, sem gerar amigos, sem buscar uma espiritualidade edificante. Vive uma vida de superficialidade e de futilidades. Perdem a oportunidade de alicerçar os seus dias em buscas e conquistas onde tudo realmente valem a pena.

É preciso buscar a Deus enquanto há tempo, pois tudo passa muito rápido. A doença chega, a solidão machuca, a utilidade que tínhamos antes se acaba. E como fazer depois de tudo isso? Feliz aquele cujo Senhor é o centro de sua vida. E, quando tudo parece dar errado, é Ele a tomar o comando da nossa história e fazer morada em nosso coração, trazendo novamente a calmaria e paz de que tanto precisamos.

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal