As mudanças sociais advindas da economia de plataformas (platform economy) imprimem uma lógica disfarçada de empreendedorismo, quando quem define a liberdade não é o ser humano, mas um algoritmo.
Desde as origens da Doutrina Social com a Rerum Novarum (1891), afirma o Papa Leão XIV na Encíclica Magnifica Humanitas (2026), a Igreja tem se preocupado com a proteção e a dignidade do trabalho, especialmente no que diz respeito à defesa contra qualquer tipo de exploração.
Numa pesquisa de mestrado na Universidade de São Paulo (Brasil), o estudante assumiu, em 2024, um trabalho de entregador por aplicativo, permanecendo seis meses nessa função. Constatou a insegurança no trabalho e a desumanidade das decisões do aplicativo. No estudo, o pesquisador decidiu conduzir sua bicicleta pelas ruas da maior metrópole da América Latina, São Paulo, seguindo todas as normas de trânsito vigentes. Essa atitude fazia com que o aplicativo aplicasse “castigos”, como bloqueá-lo por algum tempo, entre outras punições, pois o ciclista pesquisador, seguindo as regras, não conseguia entregar as encomendas no prazo determinado.
Parece claro que um algoritmo que dita as normas de tempo, embora dando liberdade de escolha para o ciclista aceitar ou não a corrida, escraviza silenciosamente pelo cálculo do tempo, forçando o entregador a driblar regras de trânsito, se necessário, para chegar no prazo calculado pela máquina, sob penas que podem cancelá-lo ou bani-lo. Embora com a falsa impressão de liberdade, a maioria dos trabalhadores não percebe que o algoritmo os domina, como afirma o mestrando em sua dissertação.
Ao formular a ideia de Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han afirma que, em nome de uma falsa liberdade, passamos a ser exploradores de nós mesmos. O filósofo sul-coreano sustenta que migramos da Sociedade da Disciplina, ideia do francês Foucault, para a Sociedade do Desempenho, na qual o sujeito se explora sozinho e chama isso de liberdade, não havendo mais quem o vigie, pois a ideia de empreendedorismo valida sua autoexploração.
A Igreja não chegou tarde a esse diagnóstico, Leão XIV, retomando o fio condutor que vai da Rerum Novarum até os nossos dias, reconhece na Magnifica Humanitas que a questão não é simplesmente tecnológica, mas antropológica. O problema não é o algoritmo em si, mas a antropologia implícita que ele carrega: a de que o ser humano é fundamentalmente um recurso a ser otimizado, uma variável a ser ajustada para que o sistema funcione com mais eficiência e resultado.
Há uma proximidade surpreendente entre o operário das manufaturas de 1891 e o entregador de aplicativo de 2024. O que mudou não foi a lógica da exploração, mas a sua forma. Em 1891, o explorador tinha rosto, endereço, nome de fábrica. Hoje, ele tem interface, e uma interface não se negocia, não se interpela, não se envergonha. Não é possível olhar nos olhos de um algoritmo e exigir dignidade. Essa invisibilidade do poder é, como Leão XIV aponta, uma das características mais inquietantes das novas formas de trabalho mediadas por plataformas digitais.
O Papa identifica na Magnifica Humanitas que a inteligência artificial, quando colocada a serviço de uma lógica exclusivamente voltada para o resultado, tende a reduzir a pessoa humana à sua capacidade de desempenho mensurável. Não se trata de uma condenação da tecnologia, mas de um alerta sobre a ideologia que pode habitá-la. Nenhuma ferramenta é neutra: ela foi desenhada com um propósito, e o propósito dos algoritmos de plataformas de entrega é maximizar o volume de pedidos no menor tempo possível. O entregador é um simples meio, a encomenda é o fim. Essa inversão é precisamente o que a tradição da Igreja, na Doutrina Social, chama de coisificação da pessoa.
O que o mestrando da USP descobriu pedalando pelas ruas de São Paulo não foi apenas uma irregularidade trabalhista, mas a materialização de algo que Han descreve no plano filosófico e que Leão XIV denuncia no plano moral: a liberdade como armadilha. O entregador é livre para aceitar ou recusar a corrida, mas, se recusar corridas demais, o algoritmo o penaliza. É livre para obedecer ao semáforo, mas, se obedecer ao semáforo, o algoritmo também o penaliza. A liberdade existe apenas dentro dos parâmetros que tornam o sistema lucrativo, fora desses parâmetros, há punição. Não existe um superior que grita: existe uma notificação silenciosa informando que a taxa de aprovação caiu.
É aqui que Foucault, Han e o Papa Leão XIV convergem com uma nitidez incômoda. Foucault mostrou como o poder disciplinar fabrica corpos úteis e dóceis. Han mostrou que o capitalismo de plataforma dispensa a docilidade externa e produz algo mais eficiente: a autoexploração voluntária. E Leão XIV, a partir de uma tradição católica que precede ambos, insiste que nenhum sistema econômico tem o direito de tratar a pessoa humana como instrumento, independentemente de ela ter assinado um contrato concordando com isso.
Esse é o detalhe que o discurso do empreendedorismo prefere não explicitar: o entregador assinou os termos de uso, concordou, ninguém o obrigou. E é exatamente essa concordância que legitima tudo o que vem depois. Han chamaria isso de servidão voluntária com estética de liberdade. A Magnifica Humanitas chamaria de uma estrutura que priva o trabalhador das condições mínimas para exercer sua dignidade, independentemente do nome dado ao vínculo contratual.
Quando quem define a liberdade não é o ser humano, mas o algoritmo, o que temos não é empreendedorismo. É a disciplina de Foucault sem o guarda, o cansaço de Han sem o remorso, o “jugo quase servil” da Rerum Novarum sem o patrão visível para confrontar.
Padre Marcio Tadeu de Camargo – Sacerdote na Diocese de Votuporanga(SP)
Pároco, Professor, Pós-graduado em Bioética pela Cátedra da UNESCO
e Apresentador na Rede Vida.
