O menino na janela

Era bem de madrugada. Levantei e sem nenhuma pretensão abri a janela, tentando achar o sono que havia fugido pelo vão da porta do quarto. O céu escuro estava salpicado de estrelas penduradas no firmamento, com cinco pontas cada uma, iluminadas com um brilho prateado. Alguém fixou essas estrelas lá, pensei, como criança encantada com os mistérios da natureza. Depois de adultos, até nos contam como tudo realmente é. Dizem: o brilho das estrelas não é atual, está há anos-luz de distância e, talvez, nem existam mais, só deixaram um rastro luminoso no céu.

Mas acho muito mais interessante pensar que elas estão penduradas e não estão sozinhas. São acompanhadas pela lua, ora radiante e iluminada, ora minguada e minguante. Juntas, possuem o papel de enfeitar a escuridão, traçar caminhos aos marinheiros perdidos nos oceanos e distrair pessoas à procura do sono fugitivo.

Recordei-me de um teste psicológico feito há muito tempo, onde se analisava um papel com um menino olhando o mundo através de uma janela. Pelo menos foi assim a minha interpretação daquele desenho. Ao vê-lo, fez-me viajar através do pensamento e ir para lugares onde nunca havia pisado.

Para minha análise, deram-me um papel e uma caneta onde escrevi sobre a liberdade, os sonhos que nunca envelhecem, a vida e suas possibilidades. O psicólogo não me disse muita coisa sobre o teste e continuei a minha vida, sonhando, como um menino olhando pela janela.

O poeta um dia falou: “viver é melhor que sonhar”. Hoje, depois de tantos anos após aquele teste, nessa madrugada, olhando as estrelas através da janela, reconheço que sonhar é muito bom. É necessário ter sonhos para alçar voos e alcançar metas, mas viver intensamente é muito melhor.

Eu vivi muitos sonhos através da janela do tempo. Realizei muitos desejos, conheci muitos lugares, conversei com muitas pessoas. Trago hoje, em mim, histórias e paisagens por onde andei. Continuo sendo aquele menino, mas, agora, homem feito, sou muito mais responsável pelos meus atos e muito mais seletivo em meus sonhos pendurados no firmamento da minha existência.

O mundo visto através de meus olhos não é mais o mesmo de tempos atrás. Foi-se modificando, como terra arada e preparada para o plantio. A cada tempo, novas sementes, novas plantas e nova colheita. Há também momentos de seca. Tempos de espera onde a chuva demora a cair.

Viver também é adquirir novos sonhos. Não parar e sempre traçar caminhos nunca antes pensados. Fazer novos amigos, observar paisagens, ler um novo autor, escrever pensamentos modernos, atualizar ideias.

Há aqueles que preferem ficar parados na estação. Olhando, de tempo em tempo, o trem passando carregado de passageiros. Prefiro estar dentro do trem, olhando as estações a passar.

Não é fácil assumir a direção da sua existência. Aventurar-se pelos caminhos da vida é sempre muito trabalhoso. É preciso levar poucas bagagens, desinstalar-se, cortar vínculos, desenlaçar-se. É difícil, mas necessário.

“Navegar é preciso”. Frase atribuída ao general romano Pompeu. E como não concordar com ele? É preciso ir além dos sonhos, dos desejos, dos sentimentos. É necessário colocar em prática a vida. “Dar a cara a tapa”, como diz o ditado popular.

Para isso não é permitido medo. Não se para diante das dificuldades. É sempre um dever ultrapassar os limites estabelecidos. Só assim seremos verdadeiros. Sem máscaras e sem temores, trazendo nas mãos as dores e as alegrias colhidas na vida. Não se pode perder tempo em encontrar culpas e culpados. Somos apenas quem podemos ser.

Realizar os sonhos também passa pela simplicidade dos gestos e a capacidade de decisão. Há pessoas que ficam revirando na cama, com os olhos abertos na escuridão tentando dormir. Prefiro abrir a janela e olhar as estrelas. Quem sabe elas me inspiram e me fazem novamente adormecer num sono profundo e restaurador.

Pompeu, completando a frase, disse “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Talvez para encorajar os marinheiros a enfrentarem as tempestades daqueles que se dispõem a navegar. Acredito que, com muito respeito ao grande general, viver também é preciso. A vida é um dom precioso e único. Não se deve desperdiçar nem um segundo. Os pés sempre devem tocar o chão, mesmo que o coração esteja nas nuvens.

Há uma relação profunda entre os sonhos e a vida. Precisam caminhar juntos. É como ter a certeza de possuir corpo e alma, razão e fé, paz e guerra, tudo ao mesmo tempo. Sentir-se parte de um imenso plano de amor e assumir o seu papel como pessoa neste mundo. Ser, e isso basta.

O céu mudou de tom. Não está mais escuro como antes. As estrelas estão se retirando para, quem sabe, retornarem mais tarde. Eu vou voltar para a cama. Ainda tenho algum tempo e, agradecido pela companhia do brilho dos astros, encontrei o sono profundamente adormecido entre os meus travesseiros.

Não vou reclamar com ele. Devagar, deito-me ao seu lado e espero adormecer para, quem sabe, ainda ter tempo de sonhar com um menino na janela.

 

 

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal