Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
Apenas silêncio. Não há muito que dizer quando, diante dos nossos olhos, se estampa uma maldade. Ficamos mudos. As palavras não conseguem traduzir o sentimento. O medo toma conta do corpo e, no ritmo das batidas do coração, bombeia com o sangue o pavor e a indignação. Vem logo à mente várias perguntas sem respostas imediatas: Por que isso aconteceu? Como é possível alguém cometer essa barbárie? E agora, como consolar os que choram?
Foi assim que fiquei diante de um acontecimento dias atrás. Nunca havia imaginado que um dia veria algo tão assustador. Uma morte cruenta e sem piedade. Não havia tempo de procurar culpados ou respostas às perguntas que não paravam de surgir. Restava agora consolar os que sofriam. Abraçar os que choravam. Dar a triste notícia aos que eram da família.
Uma certeza apenas surgiu na minha mente: “Não há tempo para explicações e muito menos para certezas. Nesse momento, apenas a fé pode ser a luz em meio às trevas”. E assim fui me revestindo de forças e coragem para levar essa luz que tem o poder de consolar os corações dilacerados pela dor.
O sofrimento está sempre à espreita das almas mais desavisadas. E quando ele chega, carregado pela violência, torna-se mais forte e faz um estrago enorme no meio das pessoas. Mesmo sabendo que o mal existe, quando ele se concretiza bem na nossa frente, ficamos perplexos. Não dá para acreditar. Aparece com um golpe certeiro, acaba tirando o nosso chão e turvando a nossa razão.
Não fui sozinho avisar a mãe e o pai da vítima. Estava acompanhado por um amigo que também crê e possui uma fé madura. Não combinamos muita coisa. Apenas deixamos que Deus falasse do seu jeito, no seu tempo, com as suas palavras. E assim, fomos construindo um diálogo até chegar à triste notícia. Quanta dor cabe no coração de uma mãe? Qual é o limite do seu sofrimento?
Recordei-me do castigo que Eva recebeu no Paraíso, depois de ter desviado os olhos de Deus para fitar apenas os olhos da serpente. “Na dor darás à luz filhos”, foi a sua sentença. E eu pude ouvir os gritos de dor de uma mãe que recebeu a trágica notícia do falecimento do seu filho. Eu estava ali. Eu dei a notícia e como consequência guardo comigo o grito de desespero daquela mulher.
O que fazer depois de tudo? Tentar juntar os cacos deixados pelo chão e refazer o caminho. A vida continua. A dor deve se acomodar no interior do coração e, como um hóspede eterno, será preciso aprender a conviver com ela. Nada muda o que aconteceu. Não se pode voltar atrás. Não se deve carregar culpas, achando que deveria ter feito alguma coisa antes de tudo acontecer. Não conseguimos retornar no tempo e mudar os acontecimentos. Agora é tentar continuar.
Acredito que carregamos uma culpa de todas as tragédias que acontecem na humanidade. Tento olhar para a Cruz e encontrar, também ali, uma ressonância de duas forças que se encontram: o mal que mora no coração humano em contrapartida ao amor que mora no coração de Deus.
Quando vamos aprender que longe de Deus não tem sentido a nossa existência? Quando vamos ter a coragem de tirar o nosso coração de pedra e deixar Deus colocar no lugar um coração de carne, como diz o profeta Ezequiel? É possível abandonar o que não é bom para se ocupar apenas do que seja bom. Jesus nos ensinou sobre o amor, mostrou-nos sobre a partilha do pão, alegrou-nos com o vinho nascido da água. É festa que Ele nos oferece. É banquete. É vida em plenitude. Por que insistimos em resistir a todo esse projeto para continuarmos imersos à dor e ao sofrimento?
Enquanto aquela mãe sofria, pensei na Mãe de Jesus aos pés da Cruz. Ninguém a preparou para a notícia sobre o seu Filho. Ela mesma presenciou tudo. Não se permitiu expressar a sua dor naquele momento, pois o Filho estava ali, olhando para ela. Teve, talvez, o único alento em meio a tanta maldade e sofrimento: o olhar doce e terno de sua Mãe.
Pensando sob esse olhar materno da Mãe de Jesus, e, em meio ao choro, ao desespero e ao sofrimento daquela mãe que, na minha frente, não conseguia ficar parada, pois a agonia era tanta que ela precisava andar, levantar os braços e externar com palavras e gritos toda a sua aflição, rezei em silêncio pedindo a Nossa Senhora das Dores que pegasse no colo aquela mulher desesperada.
“Mãe dolorosa, que também sentiu em seu coração o sofrimento em ter um filho morto em seus braços, interceda junto a Jesus por todas as mulheres que sentem o peso do suplício de ter que passar por esse sofrimento. Que a subida ao Calvário não seja tão pesada e que tenham a certeza, mesmo cegas de dor, de não estarem sozinhas. Cuida dessa mãe que chora a saudade do seu filho e de todas as mães cujo amor pelo fruto dos seus ventres transformou-se em aflição e tristeza. Amém”.
