Carrego comigo as marcas da minha história. Memórias antigas convivem juntas com as construídas nesse momento. Não se estranham e nem se contradizem. Apenas se acomodam para ressignificar o passado e dar sentido ao presente. Sou a construção de tudo já vivido em minha vida e carrego comigo a possibilidade de me tornar a ser tudo quanto desejar.
De maneira livre e sincera não devo me tornar o que esperam de mim. Sou aquilo que sou e isso me basta. Apenas eu mesmo. Passou a época de querer me moldar aos anseios das pessoas ao meu redor. Não preciso deixar de ser eu mesmo para me tornar aceito ou para ser aprovado. Devo ser apenas eu mesmo, sem frustações, sem máscaras, sem medos.
Um dia, Moisés, no alto do Monte Sinai, enquanto apascentava as ovelhas do seu sogro, olhou incrédulo para um arbusto em chamas sem se consumir. Algo extraordinário estava se desenhando bem na sua frente. Encheu-se de coragem e resolveu ver de perto aquele acontecimento.
Na maioria das vezes, em nossa vida, o extraordinário ocorre nos momentos mais corriqueiros do nosso dia. Onde nada pode sair na normalidade, aí o Sagrado se manifesta. Não se deve esperar a presença de Deus longe do cotidiano da vida. Assim, não se busca o Menino Jesus deitado em berços de ouro nos palácios, mas numa manjedoura entre pastores e animais. Não se pode ouvir a Deus nos barulhos do mundo, mas no silêncio de uma capela, onde o Santíssimo Sacramento está escondido no sacrário.
É no habitual que a vida vai se desenhando e onde tudo pode acontecer, inclusive a manifestação de Deus em nós. O milagre da água transformada em vinho aconteceu em meio a uma festa de casamento. A multiplicação dos pães se deu pelas mãos generosas de um menino oferecendo o seu pouco alimento. O diálogo mais profundo de Jesus se deu à beira de um poço e com uma mulher de poucas palavras, desconfiada e sem disposição para abrir a sua vida a um estranho.
O grande milagre da ressurreição aconteceu no silêncio de uma madrugada e o seu primeiro anúncio não foi “Vimos o Senhor ressuscitado”, mas sim o espanto da ausência de um corpo e um túmulo vazio.
O Ressuscitado não apareceu primeiro às multidões, mas à Maria Madalena que, sem perceber, conversou com o Mestre no meio daquele jardim. Apareceu ainda aos discípulos de Emaús. Eles o chamaram de forasteiro, pois não sabiam quem era o homem ao lado deles caminhando e conversando.
A sua aparição aos discípulos ocorreu numa pequena sala, onde as portas e as janelas estavam trancadas. Naquele lugar, o clima de medo e decepção reinava nos corações daqueles homens, e Ele, de maneira simples e direta, ofereceu-lhes a paz.
É justamente nos momentos mais pacatos da nossa existência que Deus se manifesta com todo o seu esplendor. Mas corremos o risco de não percebermos a sua presença justamente por não termos os olhos atentos, os ouvidos aguçados e o coração batendo no mesmo ritmo do Senhor. Esperamos, talvez, vendavais, terremotos, fogaréu, e o Senhor chega numa brisa suave e mansa e passa desapercebido.
“Moisés, não te aproximes daqui; tires as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é uma terra santa”, e disse mais: “Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó”. Moisés cobriu o rosto, pois temia o Senhor e não podia olhar em seus olhos.
Ainda hoje é preciso temer o Senhor. Sentir a Sua presença no coração, presenciar o Seu amor em nossa vida, ouvir com atenção a Sua voz, e ter a certeza da nossa pequenez para, assim, nos colocarmos em nosso lugar. Sem excesso, sem rebuliço, sem barulho. A atitude de Moisés em cobrir a cabeça ensina a cada um de nós como devemos nos portar diante do Altíssimo.
Moisés, num momento de ousadia, perguntou a Deus qual era o seu nome. “Eu Sou”, respondeu o Todo-Poderoso. Ele é aquilo que é e nada mais. Não se pode dar a Ele características e funções que não lhe pertencem. Basta amá-Lo, adorá-Lo, conhecê-Lo.
Quase nunca pensamos nisso, mas, quando vamos à missa num domingo, temos a possibilidade de encontrar o mais extraordinário momento da nossa semana. Sem estardalhaço, sem shows, sem fogos de artifício, sem luzes mirabolantes, é possível presenciar a manifestação silenciosa de Deus bem diante dos nossos olhos. O pão passa a ser Corpo e o vinho passa a ser Sangue. Não cobrimos o rosto como fez Moisés, mas, de joelhos no chão, dizemos atônitos como Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”.
“Eu Sou” está bem ali na nossa frente. E eu, pequeno demais para compreender tamanho mistério, apresento-me diante do Senhor com toda a minha simplicidade e deixo-me ser inundado pela Sua graça. E, naquele momento, diante do grande mistério, não sou mais eu e minha história naquele lugar, mas é o próprio Deus habitando em mim. E o extraordinário torna-se ordinário em mim. E isto já basta para me tornar eterno.
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
