“Posso te dar um abraço?”, disse-me, de maneira um tanto tímida, na fila da bênção da vigília em preparação a Pentecostes. Confesso não ter entendido direito o pedido feito por ele. Coloquei a mão no seu ombro, sorri e dei-lhe a bênção. Talvez por não esperar aquele pedido, não consegui perceber a profundidade daquele momento. Não tinha essa intimidade com ele e não imaginava que iria me pedir um abraço.
Quando terminou a bênção, aos poucos, as pessoas começaram a ir embora para suas casas. Ele veio até mim e disse: “Padre, não sei o que aconteceu, mas quando o senhor entrou na igreja para o momento final da adoração, eu senti em meu coração uma vontade de ter dar um abraço e agradecer. E não sei nem o porquê”. Percebi o seu desconcerto, afinal, sempre nos cumprimentávamos quando chegava com sua família para a missa ou quando nos encontrávamos pelas ruas, mas um abraço nunca tínhamos dado.
Eu o abracei e disse a ele que provavelmente tinha recebido uma graça, era uma forma de Deus colocar em seu coração o agradecimento pela bênção alcançada. Despedimo-nos e foi embora com a sua família. Eu fiquei um pouco mais ali terminando de arrumar algumas coisas e já pensando nas missas do dia seguinte.
Ao chegar em casa, sentado na capela diante do Santíssimo, refletindo sobre o acontecido, entendi aquele abraço inesperado. A bênção recebida não foi só para ele, também foi para mim. Com certeza ele teve uma graça alcançada naquela vigília, mas o abraço e o agradecimento foram dados a mim. Veio a minha mente que o próprio Deus havia colocado em seu coração esse gesto de gratidão para ser entregue a mim por uma única razão: também eu fui portador de uma graça naquela vigília.
Como Deus é bom. Depois de um dia intenso e repleto de atividades, Ele sabendo-me internamente muito cansado, resolveu me agradecer e me abraçar. Aquele homem, sem saber, foi o portador do abraço de Deus para mim.
Senti-me tão feliz que minha mente se aquietou, meu cansaço desapareceu e tive mais uma vez a certeza da presença de Deus em mim. Ele já se expressou de diversas maneiras em minha vida. Ao perceber a sua manifestação, fico extremamente agradecido por fazer parte das minhas escolhas e caminhar comigo pelas estradas desse mundo.
Mas, hoje, esse carinho de Deus veio de maneira declarada e tão carinhosa que encheu meu coração de alegria. As experiências de Deus em nossa vida não se podem comprar com dinheiro e muito menos trocar com favores. Elas são gratuitas e espontâneas. Chegam sem se programar e tocam profundamente a nossa alma.
Outro dia, uma senhora me disse assim: “Padre, reze pelo irmão. Sofre com uma doença. Está muito magrinho e com dores intensas”. E a cada dia tenho encontrado mais e mais pessoas sofrendo as dores do corpo e, algumas vezes, as dores da alma. É um sofrimento grande e, apesar de sempre terem alguém do lado auxiliando e cuidando, acabam sentindo uma solidão profunda, como se tivessem sido abandonados por Deus.
Aí está a importância de sermos nós também os portadores da bênção de Deus para essas pessoas. Uma visita rápida e cheia de vida e alegria faz as dores amenizarem e o sorriso aparecer de forma fácil. Uma bênção sincera e simples consegue realizar grandes milagres para quem a recebe. Um abraço, dado com o desejo profundo de gratidão, torna-se remédio para o cansaço e as dúvidas do coração.
Carrego comigo as marcas de muitas pessoas que moldaram a minha vida e deixaram um pouco de si. Assim como eu também devo ter deixado um pouco de mim em muita gente pelo caminho. Carrego saudades de quem me fez bem e me ajudou a construir quem sou hoje. Mas, também aprendi que tudo passa. Até as pessoas mais difíceis e intolerantes. Tudo passa mesmo, graças a Deus.
E agora, bem nas festas de Pentecostes, tenho mais uma história para guardar em minhas memórias: a do abraço de gratidão dado por Deus através de um senhor incrédulo com sua atitude de querer me agradecer e abraçar.
Nossa vida é como um imenso mosaico. Vai se formando através de pequenos pedacinhos de histórias e de tantas pessoas, fatos, lugares, ensinamentos, experiências. Juntos, essas pecinhas vão se desenhando e formando uma obra de arte. Algumas não se encaixam e ficam pelo caminho. Outras, vamos carregando para sempre e se tornam essenciais em nossas vidas.
Gostaria de dizer ao senhor, portador daquele abraço, muito obrigado pela grandeza daquele momento vivido no final da vigília. Fomos instrumentos de Deus um para o outro e recebemos, os dois, a graça da gratidão contida naquele simples gesto. Assim, sem medo, possamos ser guiados pelo Espírito Santo que habita no mais profundo do nosso ser.
Hoje, continuo o meu caminho até onde Deus assim o permitir. Mas, com o coração mais leve, carrego comigo um abraço dado por Deus. Se esperava uma resposta sobre estar no caminho certo, ela chegou. E agora, de coração aberto digo ao Senhor: Obrigado, por tudo e para sempre. Obrigado!
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
