Mudar também é preciso

Ele saiu sem dizer adeus e apenas o seu coração sabia que não voltaria mais. Sem alarde fez as malas. Sentiu a atmosfera ao seu redor e pousou o olhar demoradamente na paisagem. Viu novamente os detalhes da casa. Deixou tudo no lugar, organizado, limpo e partiu. Não deu tempo de chorar nem de se lamentar. A estrada era longa demais para ficar olhando para trás.

No coração, levava apenas a certeza de estar tomando o rumo certo e a sensação boa de poder recomeçar. Era como se a sua história estivesse sendo escrita naquele exato momento. Sentia cada decisão tomada, cada palavra ouvida, cada conversa feita.

A vida é feita de escolhas e responsabilidades. Até tentamos planejar o futuro, mas quem vai nos garantir se ele será mesmo como pensamos? Há muitas surpresas escondidas pelas curvas do caminho. Mesmo onde tudo é previsível, nada garante alcançarmos o final tão esperado.

Recomeçar é sempre um desafio, e essa decisão nunca vem sozinha. Está sempre acompanhada de medos e desafios. Abrem-se novos horizontes, descobrem-se paisagens ainda não vistas, realçam-se as cores até então desbotadas e sem graça, escrevem-se novas histórias. É como se sentir vivo novamente sem nunca ter morrido antes.

Mas, nessa escolha em seguir a vida com coragem e determinação, encontra-se um preço alto a ser pago. Ela vem travestida de saudades, incertezas, incompreensões e sobressaltos. “Será mesmo que foi feita a escolha certa?”. E esse fantasma da incerteza pode assombrar muitas noites mal dormidas e tirar o sorriso do rosto nos momentos nos quais a busca da felicidade deveria ser a única preocupação.

Com o passar do tempo, tudo vai se acomodando novamente. Vamos nos acostumando com novos rostos, as conversas vão se tornando naturais, as preocupações adquirem novas entonações, as responsabilidades vão surgindo e ocupando as horas. O ser humano carrega em si uma capacidade enorme de se adaptar por onde anda. E, quando isso não acontece, é preciso mudar de rumo e novamente voltar a sonhar.

Viver nesse mundo é realmente uma arte. Ainda mais quando se descobre a brevidade do tempo e a fragilidade da vida. É como transportar nas mãos um vaso delicado de porcelana. É preciso protegê-lo para não cair ou bater em alguma coisa e acabar quebrando. E esse trabalho cuidadoso é de cada um. Somos nós os responsáveis pela nossa própria vida. Por mais que dependamos de alguém, precisamos tomar nas mãos a nossa existência. Saber quem somos e porque estamos aqui. Ser dono do nosso próprio nariz e assumir as alegrias e tristezas pelo caminho.

Tem algo muito importante nisso tudo. É descobrir que não estamos sozinhos nessa jornada. Além de encontrarmos muitas pessoas carregando os mesmos anseios e tendo a coragem de fazer também um caminho sincero da busca de si mesmo, tudo se torna mais interessante quando abrimos o coração para a espiritualidade. É uma busca pessoal e divina. Descobrimos de maneira muito simples: Deus não está distante, e decidiu fazer a sua morada em nós.

É a imagem e semelhança, escrita com tanta sabedoria em Gênesis. É a busca incessante em transformar o nosso corpo, modelado do barro, em uma pessoa com capacidade de amar, pois se reconhece amada em primeiro lugar pelo próprio Deus. Isso é realmente fundamental para encher de coragem os nossos atos e seguir em frente.

Com o tempo, depois da mudança de rota, a vida vai tomando o seu curso normal e tudo vai se ajeitando novamente. O que foi construído com verdade e coração permanece sempre presente por onde pisarem os seus pés. Às vezes, chega uma mensagem de alguém, com quem há anos não se partilhava nada, perguntando: “Como anda a nova vida?”. É como se abrisse um portal ligando o passado ao presente e é justamente aí onde se faz uma avaliação das atitudes tomadas e da vida vivida até então.

“Eu não ando só”. É a certeza de quem tem a coragem de construir a sua própria história. É adquirir um respeito por todas as pessoas que cruzaram pelo nosso caminho e deixaram um pouco da sua vida em nossa vida. Ajudaram a moldar quem somos hoje. Bem ou mal, tiveram a sua participação e foram muito importantes na construção de quem nos tornamos.

Mas também temos a presença de Deus. Antes de nascermos Ele já nos chamava pelo nome. Esteve presente em todos os instantes da nossa vida e ficou ao nosso lado nos momentos mais dramáticos pelos quais passamos. É infinita a sua misericórdia e grandioso em seu amor. Mas decidiu fazer morada em nós. Arrumou um cantinho em nosso coração onde se instalou, carregando consigo algumas nuvens brancas, alguns anjos mensageiros. Apresentou-nos, com muito respeito, o seu Filho amado, sempre ao lado da sua Mãe generosa.

Como é bom viver a vida com essa certeza. O tempo pode andar rápido, as pessoas podem fazer parte de sua vida ou só passar por ela, as experiências podem enaltecer ou depreciar. Mas nada abala aquele que tem Deus no coração. É bom ser feliz e levar a vida com leveza, pois, assim, nada pode tirar os nossos sonhos e muito menos o nosso sono.

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal