Mais uma quarta-feira após o carnaval. Nas ruas ainda vemos os restos de brilho misturados com garrafas de bebidas jogadas por todo canto. Não há mais música, não temos mais danças, os gritos da madrugada silenciaram. A alegria dos foliões deu lugar a um dia normal de trabalho. Dizem: “O ano começa depois do carnaval”. Pois bem, seja bem-vindo o “Novo Ano”.
No noticiário encontramos muitas imagens bonitas dos desfiles e das pessoas se divertindo. Há também muita confusão e briga, mas isso faz parte da festa. Muito dinheiro foi gasto. Quanto custa mesmo umas horas de alegria? “Depende do tamanho do investimento”, diriam alguns. “Depende da coragem do dono da festa”, diriam outros. Mas, como tudo passa nesse mundo, o carnaval também passou e agora é a vez de lavar os abadás, guardar as fantasias, publicar as fotos nas redes, fazer um escalda-pés para aliviar as dores e ir à busca de outras alegrias no mundo. “Até o próximo ano. Foi bom festejar”, comentam os mais entusiasmados.
Entre uma notícia e outra sobre a folia carnavalesca, fala-se de um roubo de milhões no qual muita gente parece estar envolvida. Não se sabe ao certo como esse golpe foi arquitetado e nem quem está à frente de toda essa falcatrua, mas há uma pequena noção de que deve ter muita gente grande com os bolsos abarrotados de dinheiro alheio. Como fazer para o ser humano deixar de tirar vantagens sobre o mais desamparados? Também não sei.
Dá uma sensação ruim ver pessoas investidas em cargos públicos usando do seu poder para enriquecer ilicitamente. Ficamos impotentes diante de tal realidade. A quem recorrer? Em qual instância denunciar? O grande medo é nos acostumarmos com tudo isso e esse tipo de notícia não nos incomodar mais. Chegarmos ao erro de deixar anestesiar vagarosamente a consciência e não percebermos mais os atos imorais cometidos pelos outros, a ponto de nós mesmos começarmos a cometê-los. Até concluirmos tudo com uma frase: “Afinal, todo mundo faz, por que eu também não posso?”
E assim caminha a humanidade. Invertendo valores, atacando a família, ridicularizando a fé, elegendo como modelo ideal pessoas sem nada de bom a oferecer a não ser o seu próprio egoísmo e mesquinhez. Daí vem o ataque à fé, à Igreja, à família. Tudo o que dizem contra ao cristianismo vira moda e torna-se verdade para tantas pessoas que perderam a capacidade de refletir.
Por isso, é bom desenvolver a vontade de estudar. Pensar sobre a vida e sobre os rumos da humanidade. É bom incentivar a leitura de livros, de maneira especial dos nossos escritores brasileiros. É essencial saber interpretar textos, conhecer palavras, escrever frases. A inteligência humana também precisa de estímulos, caso contrário atrofia e perde a capacidade de pensar.
Mesma coisa acontece com a alma quando deixamos de buscar a Deus. Também embrutece e perde a capacidade de encontrar o verdadeiro amor existente dentro de cada ser humano. A busca pela espiritualidade deve fazer parte da vida, pois nos torna mais humanos e mais sagrados também.
Assim, após os dias de carnaval, devemos ter por meta retomar o caminho do amadurecimento humano. A Igreja nos pede um dia todo de jejum e abstinência de carne. Pede um pouco de silêncio e reflexão sobre os propósitos da Quaresma. É tempo de graça e de conversão, colocando a nossa frente a possibilidade de escolhas: o fogo e a água, o bem e o mal, a vida e a morte. “Estenda a sua mão e pegue o que você quiser”, diz-nos o livro de Eclesiástico.
Somos convidados, nesse tempo especial, a rezar mais, fazer mais caridade e a jejuar. Num mundo marcado pelo egoísmo e pela facilidade em realizar todos os desejos humanos, somos transportados a uma espiritualidade profunda de renovação e retomada de rumo. É deixar de lado o instinto e reativar a razão. É deixar de lado o passageiro e se agarrar ao eterno. É encontrar a fé que nos sustenta nos momentos mais tristes da nossa vida, pois ali, diante da Cruz de Cristo, encontramos as forças necessárias para suportá-los.
Com isso, precisamos agora, ao iniciarmos o “Novo Ano”, deixar de lado o brilho e nos cobrir de cinzas. “Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris”, disse Deus no livro de Gênesis, no mesmo instante do castigo dado a Adão. “Lembra-te, homem, que és pó e ao pó voltarás”. Essa recordação de Deus não é para nos encher de medo e muito menos para atrapalhar a nossa liberdade de fazer escolhas e sermos quem queremos ser.
Esse lembrete é para nos dar a certeza de que tudo é efêmero, passageiro e transitório. Nada nesse mundo dura tanto quanto o amor de Deus pela alma humana. Por isso, ao deixarmos cair as cinzas sobre a nossa cabeça, reconhecemos nossa miséria e acreditamos na misericórdia divina. Damos a possibilidade de fazer tudo diferente do que fizemos até então. É preciso ter a coragem de dizer como o salmista da missa de Cinzas: “Miserére, Dómine, quóniam peccávimus”. Tem piedade, Senhor, porque pecamos.
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
