Há um homem dormindo na rua

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal

 

 

Você já percebeu que, em alguns momentos da vida, sempre nos encontramos como numa encruzilhada? A vida vai se bifurcando, se dividindo em mil escolhas e nos obrigando a fazer opções para as quais nem sempre estamos preparados. Jesus já nos alertou sobre essas escolhas quando nos disse sobre os dois caminhos, o largo e o estreito: “Entrai pela porta estreita, pois larga é a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele”.

Mas, como é difícil fazer escolhas fundamentais, aquelas que mudam os rumos da nossa vida. Exige maturidade, paciência, orientações e experiências vividas que só o tempo é capaz de nos dar. Sabedoria, a palavra certa para resumir tudo isso, mas não se faz um sábio de uma hora para outra. É um longo caminho a ser percorrido e precisa de muita coragem para enfrentar as feras que se escondem dentro de nós. Também exige força para se lançar nas aventuras da vida e aprender a lidar com as suas próprias frustrações.

Uma vez ouvi um poema que me fez pensar muito na vida. Tentei achar o autor, mas dizem que é desconhecido. É muito interessante não ter um nome para legitimar esse texto, faz com que ele seja de todos os que vieram antes de nós e, passando pelo presente, será de todos os que virão no futuro. Dizia assim: “Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter… Calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas e minhas alegrias. Percorra os anos que eu percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderás julgar”.

Às vezes fico pensando o porquê de se pensar tanto na vida. Parece até engraçado ou, quem sabe, até filosófico ficar refletindo sobre as nossas ações, mas chega um momento em que o exercício da reflexão é necessário. A fé também precisa ser refletida, questionada, analisada, e, de repente, até confrontada. Faz parte do amadurecimento saudável de todos nós.

Estive, tempos atrás, na cidade do Rio de Janeiro, a pedido de um padre amigo, para celebrar uma missa, durante a novena do Senhor Bom Jesus. O fato de ir me deixou apreensivo devido a tantas notícias ruins que nos são apresentadas diariamente pelos telejornais. Mas, chegando lá, tudo passou. Tive uma boa acolhida, conheci pessoas legais, a missa foi bem rezada. Tudo foi muito bom, independentemente das tragédias que sempre ouvimos falar.

Uma parte da cidade é realmente maravilhosa e a natureza se derramou em beleza por ali. O povo é alegre, espontâneo, sorridente. Da janela da casa eu via a Igrejinha de Nossa Senhora da Penha, que, do alto do morro, tocava o céu, abençoando os que ali moravam, e eu também, forasteiro deslumbrado com a paisagem.

Fui dar uma volta pelos arredores da paróquia e, bem em frente à igreja, deparei-me com uma cena que sempre me choca: “um morador de rua, dormindo no chão, abraçado a um saco de lixo, onde devia estar guardando os seus pertences”. Fazia frio.

A posição fetal e as cores escuras das suas roupas confundiram os meus olhos. Parecia, à primeira vista, um amontoado de lixo. Depois, chegando mais perto, percebi que se tratava de uma pessoa. A comunidade paroquial estava fazendo campanha para arrecadar alimentos e há um trabalho de ajuda aos necessitados, mas, mesmo assim, experimento sempre uma sensação de impotência diante de uma cena como essa.

Penso mais uma vez na minha vida e em tudo o que eu tive até hoje. As oportunidades que me foram dadas, a estrutura familiar que sempre me proporcionou tudo o que sou, minhas escolhas e minha capacidade de sonhar. Fico imaginando o que aconteceu com aquela pessoa deitada na porta da igreja, segurando os seus pertences, e esperando, um dia após o outro, a boa vontade de alguém para ampará-lo. Por que ele chegou a esse ponto? Cadê a família? Para onde foram os amigos?

A vida realmente é um mistério. Por isso não podemos perder tempo com coisas que não valem a pena. Paremos de julgar os outros, de apontar os erros alheios, de nos orgulharmos com os bens materiais, com os bens intelectuais. Chega de dar opiniões sobre tudo e sobre todos sem nos importarmos com o que o outro realmente viveu e o porquê chegou aonde chegou.

Precisamos sair do nosso casulo, da redoma de vidro onde às vezes nos colocamos, achando que somos melhores e mais inteligentes, ou, pior ainda, que somos mais abençoados e merecedores das graças do céu. “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, já cantava Renato Russo, ou, para ser mais exato: “É preciso amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, nos ensinou Jesus. Isso é ter a humildade de calçar os sapatos do outro, antes de falar dele.

Uma vida mais simples, talvez seja o segredo do amor verdadeiro. Com menos necessidades, menos reclamações, menos orgulho. Uma vida onde o que realmente importa saltem aos olhos e não nos confunda na hora de fazermos nossas escolhas fundamentais. Uma vida simples que nos ajude a escolher o caminho da porta estreita e cheia de alegrias e significados.

Afinal, tudo passa tão rápido e ainda insistimos em nos achar melhores que os outros. Aquele homem ali, que se confundia com o lixo da rua, fez-me perceber o mundo de extremos em que vivemos. Uma vida mais simples é um caminho seguro, onde a beleza tem vez e a solidariedade, importância. Que nunca percamos a fé e a esperança em encontramos pelo caminho pessoas de corações fraternos amigos.