Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
Há situações na vida que só se resolvem pela fé. Procuramos os melhores médicos, os melhores psicólogos, os melhores padres e descobrimos que precisamos dar o melhor de nós mesmos para conseguirmos resolver os problemas da vida. Não adianta procurar longe a resolução das nossas dores. Elas são nossas. Só nós sabemos ao certo o que sentimos e onde realmente dói. O fruto nunca cai longe da árvore. Um olhar apurado e sincero para a nossa vida ajuda muito a descobrir muitas coisas que sentimos e passamos.
Uma das características próprias de quem tem fé é confiar verdadeiramente no poder de Deus em sua vida. É saber que nunca estaremos sós, mesmo que tudo ao redor comece a desmoronar. É ficar em pé, mesmo que as pernas fraquejem e a cabeça pese. É acreditar que conseguimos ir além dos nossos limites, pois a nossa força de vontade consegue nos levar para muito mais longe do que realmente conseguimos, já que a graça de Deus faz de nós seres extraordinários, onde o amor e a paz são combustíveis nessa jornada rumo à vitória.
A fé nos enche de esperança, e São Paulo já escreveu em uma carta à comunidade de Roma que: “A esperança não nos decepciona”. É por isso que me espanto com o tempo que perdemos com situações e preocupações que não nos levam a nada. Estamos enaltecendo o que é supérfluo e dando importância demais a situações efêmeras e desinteressantes.
Há, pelo menos para mim, certa preocupação com o afastamento das jovens gerações a uma educação mais clássica, profunda, tendo acesso à literatura clássica, conhecimentos gerais e com a possibilidade de aprender ética, moral, estética, civilidade. Não estamos sabendo dar o que recebemos. Afinal, há bem pouco tempo nós tínhamos acesso a boas escolas, e nas famílias ainda se falava de honestidade e respeito.
A religião cristã ainda é um lugar onde se pode formar, de maneira íntegra e completa, um ser humano. Sei que existem outras culturas e outros modos de se viver neste mundo, mas falo daquilo que vivo e acredito, respeitando de maneira integral outros caminhos seguros e sinceros de formação humana. Mas, pelo menos para mim, penso que não precisamos buscar muito longe a solução para os problemas dos tempos pós-modernos.
É preciso retomar a esperança em Deus e na humanidade. Confiar mais e se tornar mais confiante para os outros. Rezar como criança que se aconchega no colo do pai e apenas dorme, sem tantas preocupações, pois sabe que está segura ali. Hoje, até para rezar temos que determinar o milagre, orientar a Deus o que precisa fazer e apressar o resultado, afinal temos mais coisas para fazer.
Como acalmar o coração diante do mundo acelerado em que vivemos? Também não tenho uma resposta pronta para esse problema. Mas, voltemos os olhos para a Igreja Católica e aprendamos novamente com os monges. Meditação, disciplina, trabalho, descanso e a busca pelo que é belo.
O silêncio é um tesouro perdido pelas fibras óticas do mundo. Está sufocado pelas redes sociais cheias de “verdades” que não duram um dia, pois sempre são substituídas por outras “verdades” mais interessantes. E como é fácil cair nessas armadilhas. Parece até que não sabemos nada da vida e que o mundo começou agora, cheio de novidades e certezas bobas. Um mundo vulgar e fugaz onde não há espaço para o eterno e o sagrado.
Talvez, por isso, seja tão difícil fazer as pessoas entenderem que a busca pela felicidade passa pelo conhecimento profundo da alma humana. E quando tocamos de maneira intensa a humanidade, encontramos excepcionalmente Deus.
Não há como tratar as dores humanas sem levar em conta a esperança que a fé nos traz. Tenho acompanhado muita gente que sofre. Faz parte da minha missão, e também da missão de muita gente no mundo hoje. São os profissionais da saúde, professores, psicólogos, cuidadores de idosos e tantas outras pessoas que administram diariamente o tempo entre o seu próprio sofrimento e o sofrimento dos outros.
Uma dessas pessoas está num tratamento de saúde muito intenso. Internada há algumas semanas. Foi para uma cirurgia e até agora ainda estão investigando o seu caso e qual tratamento será melhor. No coração dessa pessoa há dor, medo, insegurança, impotência. Mas existe algo diferente ali, há fé. E esse último detalhe é que faz dela uma pessoa forte e vencedora, independente do resultado final.
É muito difícil se deparar com sua vida e saber que não está mais no controle das próprias escolhas. Fica refém dos exames, da equipe médica, do plano de saúde, da boa vontade das pessoas. Mas há uma liberdade que só Deus dá. Liberdade em saber que é amada, de saber que nunca estará sozinha e vai vencer essa batalha.
Para chegar a esse nível de espiritualidade, é preciso começar agora a cultivar os valores da vida cristã. Precisa silenciar mais e falar menos. Selecionar o que realmente importa na vida e não perder tempo com o que é supérfluo. É preciso saber quem são as pessoas importantes em sua vida. Quem estará ao seu lado nesse momento da vida e quem não estará. Valorizar quem te ama e retribuir ainda mais o amor que recebe.
Numa das missas que celebrei dias desses, o Salmo 56 chamou-me muito a atenção. É interessante como a Palavra de Deus fala de maneira profunda a cada etapa da nossa vida. Já tinha rezado esse Salmo inúmeras vezes, mas agora tocou meu coração com mais força: “Meu coração está pronto, meu Deus, está pronto o meu coração! Vou cantar e tocar para vós: desperta, minha alma, desperta! Despertem a harpa e a lira, eu irei acordar a aurora!”.
Quero que meu coração fique pronto. Quero cantar para Deus a minha vida. Quero, assim como o salmista, acordar a aurora. Venha também comigo buscar em Deus a esperança que nunca nos decepciona.
