Há um momento do ano repleto de esperança. Para ser sincero, nem sabemos direito como isso vai acontecendo e nem como termina. Mas vão se acendendo pequenas luzes nas casas, nas praças, nas esquinas das cidades. Tiramos as caixas dos guarda-roupas, limpamos as poeiras e, ao abri-las, deixamos escapar as memórias afetivas da infância, e, muitas vezes, de tantas pessoas queridas que já se foram.
Alguns enfeites foram comprados recentemente, mas outros viajam pelo tempo. Fazem parte dos acervos das avós, das mães e nos enchem de alegrias e saudades. Aos poucos tudo vai tomando formas e cores. Árvore montada, presépio pronto, luzes piscando e o coração, numa cadência de sentimentos, é novamente embalado pela esperança em dias melhores.
Para os mais atentos, esse tempo não se faz só de luzes e cores, presentes e ceias. Faz-se principalmente de preces e celebrações. É na realidade um tempo litúrgico chamado de Advento, isso é, a espera daquele que se aproxima. Está chegando e carrega consigo todo um projeto de dias melhores. Por isso o sentido dos enfeites, dos corações mais serenos, dos encontros de famílias, das trocas de presentes, dos amigos secretos e revelados sempre com risos e abraços.
É descobrir essa carga de alegria podendo ser convertida em expectativas e possibilidades em um mundo melhor. E tudo isso é proporcionado por um bebê pequenino, sem berço, sem casa, sem presentes. Percebemos o milagre do amor acontecendo da sua melhor maneira. É justamente na simplicidade que se encontra o sentido mais perfeito na existência humana. E foi ali, numa gruta servida de abrigo aos animais, o palco do espetáculo mais extraordinário assistido pela humanidade. Afinal, a perspectiva e o desejo de ver o sofrimento se acabar e dar lugar à verdadeira felicidade sempre estiveram nas mentes e nos corações das pessoas de boa vontade. Por isso, os primeiros a chegar para reverenciarem essa cena divina foram os pastores de ovelhas da região. Homens rudes, trabalhadores incansáveis, sem muito estudo, mas sabedores das maravilhas realizadas por Deus nesse mundo.
Nesse tempo em preparação para o Natal do Senhor, somos convidados à conversão, à mudança de rumo, a refazer nossas escolhas e retomar o caminho certo. É um tempo de espera carregado de esperança. O sentido de tudo não está nos presentes ganhados e muito menos nos pratos típicos das ceias de natal. A esperança ultrapassa as modalidades materiais e atinge o seu grau máximo, só alcançado através da fé.
Deus chorou naquela noite repleta de estrelas em Belém. Não chorou de tristeza. Suas lágrimas não foram de arrependimento por ter pensado na criação da humanidade. Suas lágrimas foram de fome. Fome de paz, tão distante dos corações das pessoas. Fome de justiça, tão desacreditada no mundo de hoje. Fome de fraternidade unindo os irmãos dispersos pelo mundo. Mas, naquela noite, o seu choro se resumiu à fome de leite, querendo apenas acalanto e alimento de sua Mãe.
Assim, séculos e séculos depois, aqui estamos resgatando memórias, enfeitando casas e cidades e desejando a todos paz e prosperidade entre os povos. Talvez precisemos recordar que esse anseio de um mundo melhor só acontecerá de maneira concreta quando acolhermos novamente um casal com o seu bebê prestes a nascer.
Muitas pessoas até se preocupam em preparar bem essa noite de Natal. A casa está linda, a mesa cheia, os convidados felizes, mas a Família de Nazaré continua do lado de fora, não sendo recebida para participar da festa que, por ironia, fizeram por causa dela.
Comemoram, mas não rezam. Celebram, mas não vão à Missa do Galo. Compram presentes, mas não dão o coração. Comem de tudo, menos do Pão vivo descido do Céu. Preparam todo o ambiente com luzes e cores, mas a alma continua cinza e sem graça.
Isaías, o grande profeta do Antigo Testamento, descreve em uma profecia bíblica que, no futuro, haverá sim uma paz em todo o mundo. Mas, para isso, é preciso que as nações troquem as armas de guerra por instrumentos de trabalho agrícola. Espadas deverão ser transformadas em arados. Lanças deverão ser foices. Encontramos aí o verdadeiro sentido do nascimento do Menino Deus. A paz duradoura tão desejada nessa época só acontecerá quando nos esforçarmos na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
Deus sempre cumpre a sua parte. Quanto a nós, todos os anos tiramos os enfeites das caixas, compramos comidas e bebidas, trocamos presentes e continuamos ignorando o grande mistério da encarnação do Senhor descido do Céu para se tornar gente como nós.
Mas ainda há tempo. Acorramos para o Senhor que vem. Apressemos os passos para chegarmos junto com os pastores de Belém. Peguemos o Menino no colo. Entreguemos a Ele o nosso coração e o anseio de fazer parte desse grande projeto de amor. Celebremos a sua chegada indo às igrejas com cantos de glória, velas, presépios e flores. Participemos da eucaristia e, só assim, valerá a pena dizer a todos: “O Menino Jesus irá nascer em minha casa, junto a minha família. Venham celebrar conosco. Vamos comer e beber. Vamos nos alegrar. Afinal as trevas foram iluminadas por um bebê vindo do Céu. A esperança voltou a brilhar nesse mundo!”.
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
