Lá fora a chuva está indecisa. É como se não quisesse se derramar das nuvens. Já soprou o vento, levantando todas as folhas secas caídas pelo chão, as cortinas da sala avoaçaram e senti uma brisa boa amainando o calor cruel. Escuto os trovões imponentes assombrando a todos, e tento me acalmar ouvindo as canções melodiosas de Mônica Salmaso. Mas a chuva mansa, prazerosa, benfazeja, refrescante, não chega.
Eu era criança quando vi pela primeira vez minha avó Maria bebendo, num dia quente como o de hoje, água de quinino com gelo. Experimentei e achei os adultos realmente esquisitos. Como podem tomar algo tão amargo e tão gelado a ponto de doer a garganta. “Deve ser coisa dos mais velhos”, pensei. A vida para mim ainda era doce e suave e não havia lugar para amarguras e preocupações. Desconhecia o verbo entristecer e, confesso, não sentia a menor falta por não saber conjugá-lo.
Tive uma infância normal, como todas as crianças nascidas na década de setenta. Sempre levo um susto quando penso nisto. Susto de alegria misturado com espanto por ter nascido numa época sem jogos eletrônicos e poucos psicólogos infantis. Com certeza, em algum lugar do mundo, já existia tudo isso. Mas no meu mundo não. Era uma infância cheia de coisas de crianças e não tinha outra preocupação a não ser fazer criancices.
Trago comigo algumas coisas deste tempo, como por exemplo, uma cicatriz na perna esquerda onde, todas as vezes que olho para ela, recordo-me da missão recebida em ir comprar uma gilete na venda da esquina. Fui todo feliz com a lâmina velha na mão, correndo pela rua e, de repente, senti um dorzinha um pouco sem graça, parei de correr, olhei para baixo e um filete de sangue já escorria pela perna. Meu coração quase saiu pela boca e pensei em pânico: “Como vou explicar isso em casa?”. Lembro-me desse dia e acho graça de mim mesmo. Apesar de estar sangrando comprei a lâmina nova, entreguei para minha mãe e, só depois, recebi os cuidados no ferimento. Hoje, sobrou uma cicatriz quase imperceptível, mas carregada de recordações.
Sempre imaginava ter a família mais feliz do mundo e a casa mais bonita da cidade. Hoje, vejo o quanto isso era verdadeiro. Observando o passado com os olhos de agora, sei que minha família era pequena e simples e a casa não era a mais bonita, mas era a minha casa. Tinha chão vermelho, encerado com cera de lata e passado escovão várias vezes com a bucha de aço, deixando tudo brilhante. Um belo dia compraram uma enceradeira elétrica e o escovão de ferro foi aposentado.
Anos depois, derrubamos aquela casa velha e construímos outra no lugar, maior e mais moderna, agora sim, mais bonita. Mas, aquela antiga, continua hoje nos meus sonhos com seus cheiros, cores, chão vermelho e flores.
Não quero ficar comparando minha infância com a infância das crianças de hoje. Seria muito injusto fazer esta análise por que os tempos eram outros e é preciso olhar para frente e aceitar as mudanças. Mas, permitam-me dizer: é preciso ter um olhar mais atento e resgatar alguns valores importantes há muito tempo esquecidos.
Recordo-me de uma cena da vida de Jesus ao ver uma multidão faminta ao seu redor e pedir ajuda ao seu discípulo Filipe. Ele, assustado com aquele pedido, olhou a multidão, pegou a bolsa de dinheiro viu que não daria para comprar muita coisa e deu a sentença: “Não podemos fazer nada”.
André, o outro discípulo, no mesmo instante e sem ninguém pedir, trouxe, segurando pelas mãos, uma pequena criança com um bornal contendo cinco pães e dois peixinhos. O próprio André, ao perceber sua atitude, caiu em si, olhou para essa situação e disse: “Mas o que é isso diante de tanta gente, não é mesmo Senhor?”.
Você já sabe como aconteceu no final dessa história. A criança estava com o segredo para a resolução daquele problema. O pouco de comida daquele bornal foi entregue a Jesus. Ele aceitou a oferta, elevou os olhos e fez uma prece em ação de graças. Depois disso, todos comeram até ficarem saciados e recolheram as sobras. Afinal, os alimentos trazidos pelas mãos daquela criança, não podiam se perder.
Posso estar enganado, mas a solução para muitos problemas de hoje continuam com essa mesma lógica. É preciso valorizar a simplicidade, acreditar na partilha de cada um, parar de esperar pelo outro e começar a agir. Ensinar as crianças a terem valores, virtudes e muita fé em Deus. Construiremos assim um futuro melhor.
Parei um pouco de escrever e fui olhar pela janela como estava o tempo. O vento tinha acalmado e havia surgido no céu um raio de sol, iluminando tudo. Pelo visto a chuva não virá mesmo.
Que a humanidade possa aprender mais com a simplicidade de uma criança. Afinal de contas, Gonzaguinha, em tempos passados, já cantava: “eu fico com a pureza da resposta das crianças, é a vida, e é bonita, é bonita”. Onde houver amor aos pequenos sempre haverá esperança nos corações.
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
