Um dia, fui pregar um retiro num convento franciscano, numa área rural repleta de pássaros e árvores. Da janela do meu quarto, sempre ao cair da tarde, centenas de cigarras começavam uma verdadeira sinfonia de cantos vindos do bosque. Adormecia com esse coral da natureza dando, com um zumbido monótono, a oportunidade de pensar na vida e nos momentos felizes proporcionados por Deus.
Entre os pensamentos aleatórios antes do sono chegar, lembrei-me daquela fábula infantil sobre a “Cigarra e a Formiga”. A formiga, concentrada e trabalhando muito enquanto a cigarra cantava alegre, aproveitando a vida. Mas, um dia, chegou o inverno e a formiga tinha um estoque de comida, fruto do seu duro trabalho, enquanto a cigarra passava fome, pois não se preparou como deveria. Engraçado como a vida é assim também. Uma sucessão de pequenas escolhas diárias desenhando o nosso futuro e determinando o nosso destino.
Quando adolescente, na escola, escrevi uma redação com o título: “O trabalho dignifica o homem, mas o homem não pode só trabalhar”. Naquela etapa da minha vida, carregava uma “multidão” de sonhos dentro de mim. Tudo muito fácil e rápido, acreditava. Mas logo percebi: viver era muito mais complicado do que eu podia imaginar.
Hoje, relembrando o som do canto das cigarras, passa pelo meu coração a minha vida e a minha missão. Sinto uma grande alegria em perceber como é importante encontrar pessoas sonhando como eu sonhava. É tão bom conversar com jovens inquietos, buscando o sentido para a sua vida, e encontrando em Deus uma possibilidade grande de colocarem toda a sua força, todo o seu trabalho, todos os seus sonhos, na construção de uma causa nobre.
Sinto-me renovado quando encontro traços de histórias muito parecidas com a minha. Há uma troca de experiências e me coloco como um irmão mais velho neste caminho. Sou o mais velho, mas sinto o mesmo brilho nos olhos ao falarmos do amor de Deus por nós.
Hoje, durante a missa, no final do dia, a primeira leitura era da carta de São Paulo à comunidade de Coríntios, muito conhecida de todos nós: Hino à Caridade. Dizia assim: “Seu eu falasse todas as línguas da terra, mas se o amor não tivesse, seria um bronze que ecoa; um címbalo que soa”.
Minhas palavras, durante a reflexão, foram de coisas tão óbvias, mas tão distantes da realidade de hoje. É preciso saber: nada vale a pena se não tivermos o Amor como centro de nossas vidas. É o mesmo que dizer: não adianta buscar uma realização humana plena sem possuir Deus no coração. São João, na sua primeira carta, já definiu: “Deus é amor”. Portanto este é o segredo de uma vida equilibrada.
Este texto nos leva a meditar sobre a soberba humana em achar que podemos comprar toda a felicidade do mundo com dinheiro e com poder. Não podemos. São Paulo nos diz sobre a possiblidade de até ter fé, e isto é fundamental para acreditar em Deus. Podemos até ter esperança, e já sabemos: é a última que morre. Mas, conclui: de nada adiante se não tivermos amor.
Nestes últimos dias, alguma coisa da minha juventude, que estava apagada pelo tempo e pela idade, voltou a pulsar. Senti renovar o desejo em construir a civilização do amor, como sonhava há alguns anos.
Ajudar as pessoas a curar as feridas da alma, sonhar com o fim das guerras e acreditar num mundo sem corrupção é voltar a acreditar no ser humano, sem medo e sem preconceito. Acho que estou tendo novamente o sonho de poder viver num mundo justo e bom, e essa utopia está me fazendo bem.
Carrego comigo a beleza e a responsabilidade da vida que levo. Com o passar do tempo, descobri que toda a mudança começa primeiro em nós mesmos. Pois carregamos uma tensão constante entre o ideal a ser alcançado e o real existente a nossa frente. Isso sempre atrapalha a durabilidade dos sonhos, pois desistimos com muita facilidade.
Mas, quem disse que desistir é a regra? Nunca. Não devemos cair nessa armadilha e encontrar o desânimo. A vida, às vezes, pode até não colaborar, mas é preciso resistir e enfrentar os ventos fortes, suportar a dor, engolir o grito. Precisamos, acima de tudo, acreditar no Amor e lutar por ele.
Todos sabem como é difícil manter-se vivo e com esperança no mundo de hoje. Por isso, é importante acreditar numa causa superior, não abdicar dos sonhos e estar em paz conosco mesmos.
E sabe como podemos compreender se está valendo a pena? Quando encontramos pelo caminho, anos depois de ter iniciado essa jornada, jovens que estão buscando o mesmo ideal que um dia decidimos buscar. Dá uma sensação de não estar só.
Já está tarde e a hora se faz adiantada. Amanhã, bem cedo, o sol voltará a brilhar com toda a intensidade. Preciso dormir. Lá fora, as cigarras continuam cantando e as formigas trabalhando, cumprindo a missão em deixarem o mundo mais belo. Já nos dizia Rubens Alves: “Só veem as belezas do mundo aqueles que têm belezas dentro de si”.
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
