E Deus se fez ventania

Bem cedinho, abri a janela do meu quarto para sentir o friozinho da manhã e contemplar os primeiro raios de sol surgindo no horizonte. Estava pregando já o terceiro dia de um retiro em preparação à ordenação diaconal de três seminaristas. A casa onde estávamos tinha completado cem anos de história. Nas paredes centenárias descansavam quadros antigos dos moradores de outrora que deram vida e cor para aquele lugar tão especial.

Cada móvel conservado cuidadosamente lembrava o passado de sofisticação e beleza conseguido através de muito trabalho nas plantações de café. O cheiro do piso de madeira dava mais ainda a sensação de estarmos em outra época. Era possível, quando fechava os olhos e apurava os ouvidos, perceber sons antigos de tantas histórias já contadas dentro daquele casarão. Estávamos num lugar propício para refletir sobre a vida e escutar Deus falando.

Éramos quatro homens com um único objetivo: conversar naqueles dias sobre o chamado vocacional recebido no passado, atualizar nossas vidas com os enredos apresentados pelo presente e, de maneira equilibrada e respeitosa, traçar o futuro. E fizemos isso com maestria. Como é bom encontrar jovens interessados em viver a vida com sensatez e seriedade, sem perder a alegria e a coragem própria da juventude.

Esse dia estava mais friozinho. Os pássaros estavam alvoroçados e o silêncio, mesmo com os passarinhos, não se quebrava, mas ditava o tom intenso daquele lugar. Aproveitávamos para descansar do corre-corre da vida moderna à qual estamos inseridos. Tínhamos nossas refeições sempre preparadas com muito cuidado e carinho por algumas pessoas já escolhidas para essa função. Rezávamos nos momentos de reflexões, partilhas, celebrações da missa, orações das horas e nos desertos individuais onde cada um escolhia um lugar para ficar a sós com Deus.

Naquela noite, havia preparado uma reflexão mais intimista. No final de toda a programação, com a noite já adiantada, fomos até o jardim. Na mão trazia uma cumbuca de barro e o lema de ordenação de cada um deles. Quando sentamos em círculo sobre a grama verde, ao lado da piscina de água fria e tendo os altos coqueiros como testemunha, um vendaval impetuoso nos envolveu. Era forte e frio, acompanhado de um barulho nos obrigando a falar mais alto.

O mais interessante é que não arredamos o pé daquele lugar. E, um por um, foram falando de si, das suas escolhas na vida e do momento profundo que estavam vivendo. Mesmo com tudo ao redor ventanejando, permanecemos, tranquilos e confiantes de estarmos no lugar certo, fazendo a reflexão certa.

A vida, em muitos momentos, também se apresenta dessa forma. Há uma tempestade ao nosso redor, mas nada nos abala, pois sabemos em quem colocamos a nossa confiança e por onde estão caminhando nossos passos. Mesmo sem ver, já admiramos a calmaria certa depois de tudo. Trazemos no peito uma fé inabalável sustentando o nosso ser e nos fazendo atravessar o mar revolto a pé enxuto.

Como Deus é bom. Ninguém ali ousou comentar sobre a revolta da natureza, mas sabíamos o que ela representava para cada um e, ter a certeza de quem éramos, deixava cada um mais fortalecido. Trazer com clareza as escolhas feitas na vida, reconciliar-se com o passado e acreditar em Deus e no seu amor por nós, faz toda a diferença nos momentos difíceis, pois nos enche de coragem sem tirar a serenidade da qual precisávamos ter nesse momento da vida.

Quando terminamos nossa meditação, vimos o vento se amainando. Os coqueiros parando de se agitar e a lua, discretamente, foi nos dando o ar da graça entre as nuvens. Deus estava ali em nosso momento de oração e partilha no final daquela noite. Presenteou-nos com uma natureza exuberante e quase selvagem para, depois de tudo, mostrar-nos que não estamos sozinhos, afinal Ele nunca nos abandonou.

Fui para cama com a certeza de que a vida realmente é extraordinária. Fazer o caminho na presença de Deus é garantir a felicidade plena ainda neste mundo. E, mesmo com tudo ao redor fora de ordem, no coração, habitará uma paz que o mundo não pode oferecer. É a paz de espírito desejada por muitos, mas nunca encontrada. É o verdadeiro sentido da vida. Não basta só respirar para estar vivo, é preciso sentir o coração pulsando, o ar abrindo os pulmões e carregar sempre a certeza de que haverá depois de uma noite escura um novo amanhecer.

Estar com aqueles seminaristas, quase consagrados diáconos da Igreja, fez-me recordar a minha caminhada vocacional. Viajei, através do pensamento, até a minha preparação para ordenação e recordei-me com muita saudade do meu lema diaconal: “Senhor, é vossa face que eu procuro”, inspirado no salmo vinte e sete. Posso dizer, com toda a certeza, nesses dias passados naquele casarão, rodeado de pássaros e de história, encontrei a face de Deus no rosto daqueles três jovens e pude renovar a minha consagração.

O vendaval passou, mas aquele momento de oração em meio ao vento soprará para sempre em mim. Deus se apresenta de muitas formas, mas naquela noite Ele se fez ventania e nos levou para a tranquilidade do seu Coração.

 

 

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal