Em questão de segundos a vida se transforma num caos. Nessa hora, percebemos não possuir o real controle de tudo. É muito instável viver. Manter a saúde, cumprir a agenda, viver mais um ano, esse é o verdadeiro milagre.
Busquei minha mãe na casa dela. Havíamos combinado de irmos ao médico amigo que está cuidando de nós com muita atenção. No carro, alguns vinhos de presente de Natal embrulhados para darmos a ele e sua equipe. Também estávamos levando um queijo para minha tia, passaríamos rapidamente na casa dela. Depois de tudo, eu iria fazer a celebração das exéquias no velório de uma pessoa muito querida da minha paróquia. Tudo programado.
Uma descida, uma lombada, uma curva sobre a ponte e uma batida violenta. Segundos que viraram eternidade. Sons desconexos, fumaça, palavras soltas, uma reação instintiva de sair daquele carro retorcido pela pancada e salvar nossas vidas.
Olhei para minha mãe e ela começou a ter um ataque de pânico. Tentei abrir a porta, não consegui. Tentei abrir a porta do lado dela e também estava emperrada. Com um esforço sobre–humano, abri um pouco a porta do meu lado, saí e incentivei a minha mãe a sair por ali. Pânico. A fumaça entrava dentro do carro e, apesar do acidente, mantinha o rádio ligado em uma canção antiga de Chico Buarque.
Conseguimos sair, mas nossas mentes estavam ainda nos instantes da batida. O que fazer? Para quem ligar? Seria tudo isso um pesadelo? Será que acordaríamos a qualquer momento?
Aos poucos a consciência foi se estabelecendo, algumas ligações foram acontecendo e os carros da estrada começaram a parar. Uma família, desconhecida por nós, aproximou-se e tentou nos acalmar. A senhora, muito gentil, abraçou minha mãe, arrumou uma garrafinha de água e ficou o tempo todo ao lado dela. O marido tentou avaliar o estrago dos veículos, e o filho foi ver como estava o motorista do outro carro, andando de um lado para o outro com o nariz sangrando.
Tentei chamar a polícia. Não consegui. Liguei para minha irmã e pedi para vir nos socorrer. Ela já providenciou ambulância e veio rapidamente. De repente, antes da polícia e do socorro chegarem, alguém passou, filmou o acidente e já enviou para um site de notícias. Não parou para ajudar, não quis saber quem era, não ofereceu socorro para levar ao hospital. Filmou, jogou na internet e ficou feliz por fazer esse desfavor, preocupando a todos que nos conheciam e espalhando desinformação desnecessariamente.
Fomos colocados na ambulância. Minha mãe na maca, eu sentado ao lado. Aí pude perceber alguns machucados em meus braços. Uma queimadura, não sei até agora de onde veio, um corte não muito profundo e um arranhão no joelho. No hospital tivemos o atendimento protocolar. Muitos exames, injeções doloridas para aliviar a dor e paciência. Todos os médicos e funcionários muito atenciosos, fazendo os seus trabalhos com dedicação.
Enquanto isso a notícia se espalhou. O vídeo viralizou e o celular não parava de tocar. À noitinha voltamos para casa de carona com minha irmã. O carro foi guinchado, os vinhos se quebraram com o impacto, o queijo da minha tia voltou para casa da minha mãe, com certeza carregando alguns pedacinhos do vidro estilhaçado.
Medicados e refeitos do susto, tentamos refazer os últimos minutos antes do acidente. A vida ainda estava tranquila e tudo saindo como planejado. Buscamos uma explicação para o motorista do outro carro ter invadido a nossa pista e batido de frente. Levantamos várias hipóteses, mas só ele mesmo pode dizer o que aconteceu para ter feito aquela manobra.
Agora é refazer o futuro próximo. Perdemos a consulta e os vinhos. Não entregamos o queijo e deixamos minha tia esperando no portão até cansar e ligar, pedindo o porquê não passamos lá. Não pude fazer a bênção no velório dessa pessoa tão querida, e isso me deixou muito triste. Não voltei para casa. Dormi na casa da minha família. Todos juntos e salvos, graças a Deus.
Restaram agora apenas algumas manchas roxas no corpo, dores do impacto violento e alguns curativos. Acalmei a todos que se preocuparam com a notícia veiculada na internet e refiz o agendamento de alguns compromissos.
A vida realmente é cheia de surpresas. Eu e minha mãe tínhamos que passar por isso. Não há outra explicação. Saímos dessa com a convicção de não reclamarmos mais da vida e sempre agradecer o instante vivido.
Há esperança na humanidade, tenho certeza disso. Mas ainda falta de alguns um pouco mais de fraternidade e respeito. Como nos ensina São Paulo: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”. Nessa experiência assustadora, encontrei muitos corações solidários e preocupados. Sou muito grato a todos.
Sou grato também a Deus, pois, na hora do caos, minha mãe me disse depois que só ouviu o meu grito: “Minha Nossa Senhora”. Ela estava lá nos protegendo, tenho certeza. E, antes que eu ligasse para alguém pedindo socorro, Ela já havia pedido ao Seu Filho o nosso amparo e que nos livrasse de todo o mal.
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
