Deixei o meu barco na praia

O vento foi chegando de mansinho. Começou movimentando algumas folhas nas copas das árvores. Ninguém percebeu. A vida continuava no mesmo ritmo. Homens trabalhando na horta. Mulheres carregando legumes para a cozinha. O cachorro correndo atrás de um passarinho, como duas crianças brincando despreocupadamente. Eu olhava do alto da minha janela aquela paisagem já familiar. Estou no alto de uma serra. Aqui o verão não dita as normas. Apenas obedece.

Cheguei no meio da tarde. Abri o meu quarto e desfiz a pequena mala. Algumas roupas, alguns livros, alguns remédios que me acompanham, equilibrando minha saúde e ajudando a viver bem os meus dias. Vim para um retiro. É bom parar um pouco os afazeres diários e concentrar-se apenas na oração, na Palavra e no silêncio.

O silêncio, às vezes, incomoda. Somos acostumados a falar e a ouvir. Um barulho ensurdecedor quase sempre aparece quando não há palavras para se ouvir. Ele vem de dentro. Grita, esbraveja, tenta subornar a boca para ver se escapa dessa quietude feita prisão. Mas, aos poucos, se acalma. Acostuma-se a calar e não incomoda mais.

É meu aniversário de ordenação sacerdotal. Sou padre há muitos anos. E aqui estou debruçado na janela, olhando o céu carregado de nuvens e pensando na vida. “Deus realmente é muito bom”, veio a minha mente e meu coração sossegou. Como pôde me trazer a este lugar nessa data tão importante para mim? Será um presente? Um modo de agradecer pelo meu sim? Ou uma oportunidade dada para rever minhas escolhas e revisitar tantas pessoas que ficaram pelos caminhos percorridos por mim.

Olhei o céu e agradeci. Temos um Deus infinitamente generoso. Chama, acolhe, capacita, cura as feridas, acalanta a alma, aplaina os caminhos. Agradecendo, lembrei-me de todas as pessoas importantes para o meu processo vocacional. Alguns já completaram sua missão nesse mundo. Outros continuam a caminhada, vivendo cada dia sem se darem conta de que o tempo está passando rápido.

O vento, antes discreto e tímido, avançou com toda a sua força. Junto dele as nuvens do céu resolveram pisar na terra e caíram de uma vez, molhando tudo a sua frente. Fechei a janela, apaguei a luz e deitei. Não para dormir. Apenas para ouvir a chuva, o vento e o silêncio já instalado em mim.

“Segue-me. Eu te farei pescador de Homens”. É a celebre frase de Jesus a Pedro, quando o encontrou nas areias diante do mar da Galileia. É desconcertante receber um chamado assim. Todo chamado vocacional nos desinstala. Tira o nosso chão e, no caso de Pedro, tirou-lhe as redes, os peixes, a família e o levou para outros mares. Apesar dos medos e receios, há também uma sensação de liberdade em dizer sim e seguir o Senhor. Não dá para explicar a emoção em deixar o barco na praia e ir embora.

Enquanto a chuva caía impetuosa, eu fui refazendo o meu caminho desses anos todos. Lugares, cheiros, canções, danças, celebrações, conversas, lágrimas, risos. Quantas orientações recebidas e quantos ensinamentos compartilhados lapidaram o meu ser. Como sou grato a esses homens e mulheres colocados na minha frente como mestres do saber e da espiritualidade. Alguns oficialmente designados a serem meus formadores, outros sem designação oficial, exerceram com maestria a missão de me ensinar.

Um dia, anos depois desse chamado e dessa decisão de largar o barco e as redes, Pedro resolveu voltar para sua antiga vida. Olhou para os poucos ao seu redor. Pensou nas coisas vistas, ouvidas e vividas. Ficou envergonhado por saber que seu Mestre havia morrido na cruz. Mais envergonhado ainda por não ter conseguido defendê-lo e por tê-lo negado três vezes. Chorou escondido e até tentou manter o posto. Mas não conseguiu. Olhou para seus companheiros e disse: “Vou pescar!”.

A ideia de voltar à antiga vida é sempre tentadora. É muito mais confortável ficar na praia, pescando, consertando as redes, vivendo uma vida simples e tranquila. Retornar significa ficar entre os seus, fazendo o costumeiro, sem precisar se explicar o tempo todo. Voltar é muito mais prazeroso que seguir adiante.

Pedro esqueceu-se de que o Mestre o havia amado de maneira sem igual. Esqueceu-se de ter dito a Jesus: “Para onde irei, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna”. Uma vez encontrado o verdadeiro sentido da vida, como deixar de lado? Apesar de ter tentado, não conseguiu pescar nada a noite toda. Seu barco estava sem rumo, sua rede estava vazia e seu coração desapontado.

A chuva foi se acalmando, eu fechei os olhos e vi o Senhor na praia, com o peixe e o pão assando. O olhar do Mestre se direcionava ao seu discípulo dentro do barco, com as mãos cansadas de lançar a rede. “Tens algum peixe para comer?”, perguntou-lhe Jesus. Pedro lançou-se ao mar, nadando até a praia. Sentou-se e comeu o pão e o peixe providenciado pelo Senhor. Depois disso, voltou a abandonar o barco e seguiu novamente o seu caminho de pescador de Homens.

Levantei, tomei um banho e fui para a capela. Meu retiro estava começando e Pedro me acompanhou durante todos esses dias. Nesses anos todos, meu barco também ficou esquecido na praia. O meu desejo apenas é de continuar pelas estradas da vida, cumprindo a missão dada por Ele e portando um coração sensível para perceber sua presença ao meu lado.

 

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal