Recebi, dias atrás, uma mensagem curta e profundamente triste: “Deborah descansou. Às 06h30”. Uma notícia como essa sempre me deixa por um tempo atordoado, tentando entender a dimensão da vida e o sentido da morte. Na cabeça passa um filme colorido e alegre, buscando eternizar os bons momentos em sua companhia. Era uma pessoa especial. Filha, irmã, esposa, mãe, avó, amiga fiel, ótima profissional. É inevitável pensarmos como foi embora tão cedo. Tinha ainda muito para viver.
Nosso último encontro foi há uns meses, quando estava no Maranhão e pude, com alegria e a seu convite, celebrar a missa de aniversário de sua mãe. Estava completando noventa e nove anos. Deborah me lembrou que também era o aniversário de Paloma, sua filha. Não era para eu esquecer. Foi a nossa despedida, mas não sabíamos. Bom, eu não sabia. Ela havia me dito que a família decidiu não esperar os cem anos. Era bom celebrar antes. Fico pensando se já previa a sua ausência no ano seguinte. E, afinal, por que esperar se podemos celebrar sempre a vida.
Depois de lida a pequena mensagem, fechei os olhos e senti o abraço longo e apertado dado na porta da igreja, antes de iniciarmos a missa. Sua família toda estava ali. Os amigos mais próximo também. “Reze por mim”, pediu-me baixinho. E eu rezei. Há anos estava passando por um tratamento contra uma doença terrível, e acabou, aos poucos, roubando-lhe a vida. Mas não conseguiu roubar-lhe os bons momentos com seu neto. Ainda viajou com a sua família. Buscou na espiritualidade forças para continuar lutando. Apesar da morte ter ceifado a sua vida, minha amiga foi embora como uma lutadora. Venceu o bom combate. Conseguiu amar e ser amada. Ficará viva em nossas memórias.
Cada pessoa possui uma estrada longa e sinuosa que deve ser percorrida solitariamente. Não é possível pedir para outro fazer esse percurso. Ele é nosso e de mais ninguém. Às vezes é preciso caminhar lentamente, admirando a paisagem, desviando das pedras que vão aparecendo e, com coragem, enfrentando os perigos. Outras vezes é necessário andar depressa. Sem medo de se cansar e arriscando-se diante das dificuldades.
O tempo sempre vai a nossa frente e precisamos correr atrás dele. Destemido, ele não espera por ninguém. Nós sim, precisamos nos aliar ao tempo para poder compreender a sua dinâmica. Pedir licença para acompanhá-lo e aceitar as suas regras. Assim, tudo vai passando como num movimento natural. Faz parte da nossa existência.
Mesmo distante, quis me unir à família e aos amigos nas orações. Não pude estar presente em seu velório, mas vivi o luto daqui mesmo. Silenciei a alma, vesti-me de tristeza, não sorri durante todo o dia. Mas conservei no coração a esperança da ressurreição. Minha fé me leva a crer na vida após a morte. Aliás, para mim, a morte não existe. É apenas uma porta para a imortalidade. O Paraíso é o lugar seguro para onde quero ir e quero encontrar todos os que já se foram antes de mim.
Lembrei-me da missa presidida por mim para o seu filho Pedro, quando completou quinze anos. Tempos depois, celebrei o casamento desse menino que já havia crescido e se tornado adulto. Reunimo-nos todos numa igreja histórica da rua do Egito, em São Luís. E agora, meses atrás, a missa da sua mãe, onde a mensagem final foi feita espontaneamente por essa minha amiga. Foi muito emocionante. Ficará sempre em mim.
Houve ainda uma viagem para um retiro espiritual em Aparecida e Campos do Jordão. Uma turma de amigos e pertencíamos a um grupo chamado “Caminho do Meio”. Rezávamos, estudávamos a Palavra de Deus e buscávamos na arte e na beleza os rastros do Divino nesse mundo. Foram dez anos trilhando esse movimento em busca de uma espiritualidade cristã equilibrada. Esse tempo transformou os nossos corações e nos fez pessoas melhores.
Queria ter dado o último abraço, não consegui. Queria ter falado, olhando nos seus olhos: “Apesar da dor e do sofrimento, você venceu!”. Mas não deu tempo, não consegui. Queria ter ouvido mais uma vez as suas histórias, mas não foi possível. Quantas pessoas já nos deixaram e as levamos no coração ao longo da vida? Não sei responder. Só sei que, quanto mais o tempo passa, mais o coração vai se povoando de gente querida habitando em nossas memórias, nunca mais sendo esquecidas.
O conforto para esses momentos difíceis vem da fé e dos bons momentos partilhados. Domingo passado, no evangelho da missa, Jesus disse: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. Querida Deborah, descanse em paz. Você viveu bravamente a sua vida e conseguiu marcar as nossas existências. Viverá para sempre no coração da sua família. Estará sempre nas conversas dos seus amigos e, agora no Céu, mais perto de Jesus, peça a Ele por nós para sabermos também viver intensamente e buscarmos sempre a felicidade nesse mundo. Um dia, estaremos todos juntos e nunca mais haverá choro e ranger de dentes.
Requiescat in pace!
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
