Em minha vida, desde muito cedo, a leitura sempre fez parte do meu cotidiano. Lia muito e gostava de imaginar as cenas, ouvir os sons, sentir as emoções que os livros apresentavam. Lembro-me de alguns autores que li na minha infância e adolescência e ainda hoje trago vivos os enredos e as personagens daquelas histórias. Gostava de pensar nos detalhes das histórias que lia, a ponto de fazer parte daquela trama e me sentir um expectador presencial daquela cena. Era como se eu estivesse ali, ajudando as personagens a descrever aquele momento, com riqueza de detalhes e com as fantasias próprias de uma criança cheia de ânimo.
Quando fui apresentado às histórias da vida de Jesus, fiquei encantando com os pormenores e me colocava no meio daquela multidão, atento a tudo e admirador do Mestre. Desde cedo a Palavra de Deus fez parte das leituras que ocupavam os meus dias. Mas percebia que ali havia uma lógica diferente das outras leituras, precisava prestar mais atenção, não podia tirar conclusões precipitadas e já sabia, mesmo sem entender bem, que tinha uma mensagem subliminar que exigia de mim uma sintonia mais profunda com aquele tipo de linguagem.
Com o tempo fui aprendendo a ler além das palavras. Busquei o que realmente aqueles textos queriam dizer, procurei entender o porquê haviam sido escritos e o que poderiam acrescentar à minha vida. A Palavra de Deus tornou-se viva, como realmente ela é. Fala de coisas que o coração humano anseia e numa linguagem que a alma entende. Por isso precisa de muito cuidado e muito respeito. Mal interpretada pode fazer um estrago e, se for lida apenas pelas letras, não conseguirá transmitir todos os ensinamentos, pois estes são discretos aos olhos desatentos mas muito claros aos corações mais abertos às coisas eternas.
Um dos textos que sempre me chamou a atenção está no evangelho de Lucas. Narra a história do filho de uma viúva da cidade de Naim. Vou contar para você, com o meu jeito de olhar para este texto. Usando minha criatividade de menino, mostrarei como os meus olhos viram essa cena e como me emocionei com os olhos cheios de compaixão de Jesus de Nazaré:
Fazia pouco que a aurora havia dado os primeiros raios de sol daquele dia. Naim, uma pequena cidade da Galileia, acordava com os gritos de dor de uma mãe viúva, prestes a sepultar o seu único filho. Ele era a sua esperança de viver em paz, era o alento da sua viuvez, era o sentido da sua vida. Ela era dele e ele era dela. O que fazer com aquela dor? Os vizinhos vieram ajudá-la a sepultar o filho. Não conseguiam mensurar o tamanho do sofrimento. Naquele caixão não estava só um jovem sem vida, estava também, esperando para ser sepultada junto, a mãe desconsolada. Existe dor maior que esta?
A luz daquele dia aos poucos ia se firmando, mas a claridade não conseguia iluminar aquele coração de mãe. Chegaram os amigos, os vizinhos, os curiosos e iniciaram o cortejo. O caixão ia à frente sendo carregado pelos homens, muitas vezes acostumados à dureza da vida, e, ao lado, caminhando sem vida, uma mãe que, passo a passo, ia derramando suas lágrimas e tentando buscar forças onde não existia. Era a própria miséria humana caminhando rumo ao cemitério daquela pequena cidade.
A luz daquela manhã ficou mais forte, mas ainda destoava da escuridão que fluía daquele cortejo fúnebre. De repente, algo aconteceu. Junto às portas da cidade vinha outro grupo: um homem, seus discípulos e muitas pessoas que estavam seguindo aquele Galileu. Era um cortejo diferente, não falavam muito, mas se entendiam com os olhos, e, apesar das dores que cada um trazia em seus corações, já não sentiam o cansaço da caminhada e nem a fraqueza de seus corpos.
O improvável aconteceu. Os cortejos se encontraram, e, do nada, o silêncio aconchegante dos que seguiam o Mestre foi invadido por um único grito de dor daquela mãe.
Quando Jesus viu aquela mulher, encheu-se de grande compaixão. Sentiu em seu próprio corpo as dores daquela mãe. A partir daquele momento já não havia apenas um grito, um choro, uma dor, mas sim dois gritos, dois choros, duas dores. Os olhos de compaixão fizeram com que o Senhor se aproximasse e se unisse a ela. “Não chores!”, disse Jesus e voltando-se para o morto deu uma ordem: “Levanta-te”.
A Misericórdia de Deus abraça todos os homens e as mulheres da Terra. O Senhor conhece nossas dificuldades e sente conosco o peso da vida. Mas nos quer de pé, não nos quer sofrendo. Adianta-se em nos socorrer e, quando pensamos que tudo está perdido, sentimos que nossa dor está sendo amenizada, partilhada, carregada pelo próprio Jesus de Nazaré.
Assim também acontece nos dias de hoje. É preciso buscar o Senhor, conhecer sua Palavra, estudar seu Evangelho e colocar em prática os seus ensinamentos. Ensinar a nossos filhos e netos que não há outro Caminho, nem outra Verdade e nem outra Vida senão junto de Jesus, o Senhor.
Um dia, quando a miséria humana se fizer presente em nossas vidas, quando a vida não pulsar mais dentro de nós, quando a esperança der lugar ao pranto, saberemos que é enorme a possibilidade de vermos chegar ao nosso encontro o próprio Cristo.
Não sabemos como terminou aquele dia, na pequena cidade de Naim. Mas podemos imaginar que, quando a noite chegou, ao menos em uma das casas, uma mãe velou, sob a luz da lâmpada de óleo, o sono tranquilo do seu único filho. “Deus veio visitar o seu povo”, pensava ela. E nas outras casas, sem sono, ainda sob o efeito dos acontecimentos daquela manhã, toda a cidade agradecia a Deus dizendo: “Um grande profeta surgiu entre nós”.
É uma bela história de dois mil anos. Os olhos de compaixão do nosso Deus cruzaram com os olhos desesperados de uma pobre viúva, mãe de um único filho, que estava levando o seu corpo para a sepultura. Sempre há vida nova quando Jesus nos encontra pelo caminho, até em tempos difíceis como estes de hoje. Não percamos a esperança.
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
