Aos que sofrem as dores do corpo

Tive dias intensos nessa última semana. É como se vivêssemos as alegrias da ressurreição de Jesus sem deixar de sofrer as tristezas do Calvário e da Cruz. Talvez compreendamos aqui o motivo da aparição do Senhor Ressuscitado aos seus discípulos, trazendo em seu corpo glorioso as marcas das chagas da sua paixão. Não há como ser feliz o tempo todo. A vida nos ensina a sermos fortes, corajosos e destemidos, mas não ensina quase nada como fazer com as nossas dores.

Trago comigo, como parte crucial da minha missão como padre, histórias de pessoas que carregam dores intensas provenientes de uma enfermidade em seus corpos. Desencadeiam em suas almas uma guerra silenciosa entre a vida e a morte. É uma luta descomunal entre o medo e a coragem, a alegria e a tristeza, a fé e a descrença.

A vida se apresenta como um imenso abismo quase intransponível. Descobre-se aqui uma sensação horrível de impotência e de solidão. As mãos não conseguem mais controlar o remo da vida e o barco vai à deriva, desorientado pelo vento constante das incertezas e de inúmeras perguntas sem respostas.

Estar ao lado de uma pessoa acometida de uma grave doença é um aprendizado constante. Tudo se torna secundário e apenas um desejo se transforma em prioridade: a cura dos seus males. O que dizer nessa hora? Como se portar diante do seu leito? Quais palavras deverão ser escolhidas para construir uma frase que acalante esse coração?

Nessas horas, basta ser presença, estar junto e olhar com carinho os olhos marejados de lágrimas. Ouvir com profundidade cada pedido de socorro feito nas entrelinhas da conversa. Entender o medo manifestado nas mãos inquietas e não deixar de encontrar a dignidade escondida no semblante entristecido e pálido.

Nesse momento, a vida se torna um bem máximo e paramos de brincar como crianças sem responsabilidades pelos seus atos. Amadurecemos macerados pela dor. Descobrimos que é preciso ter prioridades e viver é realmente um grande milagre. Passamos aqui a nos comportar como adultos e tudo vai ganhando um novo significado.

Não importa mais se alguém não gosta de mim, mas o importante é ter as pessoas amadas ao meu lado. Não importa se não fui entendido algumas vezes, mas valeu a pena ter conseguido realizar algo relevante na vida de alguém. Não importa mais quantas pessoas me desprezaram ao longo da vida, mas sim ter os meus filhos, cônjuge, netos, amigos deitados ao meu lado, em minha cama.

Apesar de sempre carregar uma dor constante, amar e ser amado é o verdadeiro remédio para o corpo e a alma. Vale a pena, nesse momento, perceber o bem realizado ao longo da vida e ver os seus frutos na nossa frente, sustentando e aliviando o nosso sofrimento.

Um remédio também importante nesse momento de aflição é a gratidão. Uma pessoa grata não nasce de uma hora para outra. É preciso construir-se ao longo da vida. Reconhecer que sozinho não vamos muito longe e é preciso da ajuda do outro. É encontrar, no miudinho da vida, a presença generosa de Deus, sempre protegendo, abençoando e suavizando os nossos passos.

A gratidão é o oposto da avareza e do orgulho. Não anda de mãos dadas com o egoísmo e também não flerta com a arrogância. Ela nasce de um desejo sincero de não caminhar sozinho e de um esforço grande de reconhecer o bem deixado por cada pessoa em sua vida.

A cruz pode ser grande e o caminho do Calvário longo e tortuoso, mas ainda sobra consciência suficiente para ser grato àqueles que, com panos nas mãos, enxugam o nosso rosto cansado. Não desprezamos os que tiram um tempinho para nos ajudar a carregar a cruz, aliviando assim o peso dos nossos dias. Olhamos com carinho para os que choram conosco e sofrem em seus corpos a nossa própria dor.

Estou com uma amiga muito querida internada num hospital distante daqui e como queria estar ao seu lado para ungi-la e rezar com ela. Mas, nesse momento, a distância me impede. Rezo de longe. Aqui perto de mim, tenho amigos também fazendo seus tratamentos e sofrendo com o medo e as dores da doença. Faço-me presente nas orações e, quando possível, pessoalmente.

Descubro com eles que a vida é um milagre de amor. Não há espaço para o mal quando se tem urgência em viver. Não se pode brincar com o tempo, pois ele passa muito rápido e não é prudente perdê-lo com futilidades e criancices. Nessa hora é preciso ser adulto e sério em suas escolhas.

Vive melhor os limites da vida quem aprendeu a cultivar o amor e a temer a Deus. Mas lembre-se: temer não é ter medo. Temer é respeitar a vontade de Deus. Venerar a Sua presença em nossa vida. Acatar os Seus desígnios e reverenciar-se diante da Sua imensa misericórdia.

É preciso levar a sério a vida dada por Deus e juntar-se aos que sofrem a dor dos males do corpo e buscam por uma mão amiga para apoiar e segurar a sua. Precisamos mais de mãos estendidas e menos de corações maldosos.

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal