Acalme o seu coração

Há momentos da vida nos quais o rumo da nossa história precisa estar em nossas mãos. Sempre há tempo de levantar-se do chão e recomeçar o caminho. Não sobrevivemos muito à dor e à desilusão. Viver merece coragem. Aliás, viver é para os corajosos. Não vale a pena morar num vale de lágrimas, carregar no pensamento os tantos “porquês” sem respostas, estar mais preocupado com o passado, deixando de lado as possibilidades oferecidas pelo presente.

Somos um punhado de pó soprado pelo vento. Vamos sendo levados sem rumo, atravessamos oceanos, conhecemos novas paisagens, até que, um dia, somos lançados à terra e ali ficamos à espera de uma outra corrente de ar disposta a nos fazer voar novamente. E vamos vivendo nessa aventura até criarmos em nós a consciência de quem somos realmente.

Como numa imensa colcha de retalhos, somos costurados com os pedaços de histórias já vividas, alinhavados pelos sorrisos sinceros, olhares furtivos de pessoas distantes, abraços quentinhos, conversas sem sentido, sonhos antigos e tantos sofrimentos. Somos um pouco de tudo já experimentado por nós mesmos e um pouco de tudo quanto já nos ajudaram a experimentar. De repente, sem percebermos, vamos criando nossas narrativas, tecendo nossa vida, caminhando com os nossos próprios pés.

Sobreviver à dor e ao sofrimento é sempre desafiador. Faz-nos parar, por um longo tempo, de sonhar os sonhos ainda não realizados. Até as conquistas já feitas perde o sentido. Deixamos de lado a vida feliz que devemos viver e passamos a respirar pela via dos medicamentos, das terapias incompletas, e vamos perdendo a esperança que ainda teima em morar em nós.

Podemos pegar o exemplo do profeta Elias. Fugindo desesperadamente das ameaças de morte que estava recebendo, para salvar a sua própria vida, ele vai ao Monte Horebe, conhecido como o Monte de Deus. Cansado da caminhada, entra numa gruta e dorme. Ali, em meio à angústia do seu sofrimento e entregue ao cansaço físico, sente uma voz dizendo: “Saia da gruta, pois o Senhor irá passar”. Saiu e apareceu diante dele um vendaval impetuoso, depois um terremoto e, em seguida, um grande fogo. Mas o Senhor não estava ali.

Como é bom carregar conosco a certeza de que o Senhor ainda passa em nosso meio e continua agindo em nossa vida. O grande problema não está com Ele, mas com nós mesmo. Não nos colocamos a sua disposição. Agitamos demais o nosso coração. Mantemos nossa cabeça dura e nossa teimosia em pensar que sabemos tudo e não precisamos da Sua ajuda.

Devido à agitação rotineira, embalados pelas nossas próprias preocupações, tentamos buscar o Senhor em meio ao barulho. Estamos cada vez mais desacostumados ao silêncio, a olhar para nós mesmos com calma. Não conseguimos ouvir nossa voz, reconhecer nossa própria história e maldizemos, muitas vezes, os infortúnios presenteados pela vida. Pensamos que a inquietação, o tumulto e a murmuração possam diminuir os nossos sentimentos ruins. Acreditamos serem como anestésicos, dando-nos o torpor diário para não enfrentarmos os nossos inimigos alojados em nossos corações.

Quando Elias, talvez um pouco frustrado por não ter encontrado a Deus em meio às grandes manifestações naturais, aquietou-se, acalmou o seu coração e silenciou o seu pensamento, sentiu uma brisa mansa, e ali, no toque suave em seu rosto, encontrou o Senhor a quem tanto procurava.

Acalme o seu coração. Deixe de lado o barulho e apure o seus sentidos: Deus também quer se apresentar a você. Para isso, não precisa se converter em outra pessoa. Deixar de ser quem você realmente é. Basta encontrar os pedaços que compõem a sua história. Olhar para os momentos felizes e revivê-los, trazendo novamente a alegria e a gratidão por fazerem parte de quem você é. Mas não podemos esquecer: acalmar o coração é criar coragem e força para olhar para os momentos de dor, frustração e desespero vividos com intensidade nas situações onde o sofrimento se fez presente em nossa vida.

Um dia, vendo os discípulos dentro de um barco em meio a uma grande tempestade, e sabendo Jesus que eles poderiam morrer, disse: “Coragem, Sou Eu, não tenham medo”. Para enfrentar os nossos medos e revisitar as nossas fragilidades, é necessário também ouvir o Senhor. Para ser livre de todas as amarras trazidas do passado, não se deve desviar os olhos do Senhor. É ali, mesmo diante dos ventos contrários, que devemos acalmar o coração, encher-nos de coragem e recomeçar a vida.

Crer em Jesus nos ajuda a restabelecer o caminho perdido e continuar tecendo a nossa história com liberdade e significado. É estar sempre pronto a sentir a brisa suave tocando a nossa alma e nos restaurando diante da aflição. É saber parar na hora certa, antes que a vida nos pare.

Barulhos sempre irão existir ao nosso redor ou, quem sabe, dentro de nós. Ventos impetuosos, terremotos e incêndios também. Há muitas tempestades esperando pela passagem do nosso barco da vida. Mas, pode acreditar, existe um vento brando trazendo refrigério para a nossa alma e enchendo-nos de calmaria. Escute mais o seu coração. Dê mais atenção aos sinais apresentados por Deus. E não desvie nunca o olhar d’Ele. Afinal de contas: “É para a liberdade que Cristo nos libertou”.

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal