Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
A morte é como um ladrão que chega sem avisar. Leva tudo o que pode e quando descobrimos já é tarde. Essa foi a sensação que tive dias desses em que, no meio de uma reunião, recebi a notícia do falecimento da esposa de uma pessoa muito querida de nossa paróquia. Era para ele estar conosco na reunião, mas decidiu ficar em casa com a esposa que não estava se sentindo muito bem. Decisão acertada. Pôde estar com ela nos seus últimos momentos e guardará para sempre no coração esses instantes de eternidade.
No meio da reunião, discretamente, mostraram-me a notícia que havia chegado através da mensagem do celular: “A Sirlei, esposa do Geraldo, acabou de falecer”. Confesso que fiquei sem chão. Quando se recebe uma notícia como essa é como ter a sensação de cair num buraco sem fundo. Demorou um pouco para organizar as ideias. Decidi continuar a reunião que já estava chegando ao fim e só quando fizemos a oração final informei ao grupo que alguma coisa estava acontecendo na casa do Geraldo. Seria bom apurarmos as notícias.
Aos poucos foram confirmando e, para o espanto e a tristeza de todos, era verdade. A morte não avisou que viria. Foi chegando de mansinho e, de maneira sorrateira e cruel, deu o seu golpe final. Mesmo sabendo dessa única certeza, a de que um dia iremos morrer, essa realidade sempre nos assusta muito. Principalmente quando chega para alguém cheio de planos, que havia acabado de se aposentar e com muitos sonhos para colocar em prática.
Saí da reunião e fui me encontrar com a família. Abraçamo-nos e ficamos em silêncio. Apenas o choro era permitido sair livremente. Ainda não inventaram palavras que se possam usar num momento como esse. Dizer o quê? Explicar o quê? Entender o quê?
Nada se fala. Apenas dar-se as mãos e, nesse gesto profundo, tornar-se um com aquele que sofre. Ficar ao lado. Chorar junto. Há momentos na vida em que basta ser presença.
Mais uma vez, diante desse fato, vem à mente a reflexão sobre a fragilidade da vida. Sempre é bom retomar esse tema e pensar sobre o sentido da existência. Afinal, se vamos morrer um dia, para que se preocupar tanto com a vida?
“Viver é melhor que sonhar”, diz o poeta. E aí está o princípio de tudo. Ao trazermos para nós a importância de existir, acabamos enveredando por pensamentos além desse mundo. Tocamos o céu e todo o projeto de Deus para cada um de nós.
É preciso levar a sério a vida. Parar de brincar com a saúde. Aproveitar cada etapa e rever sempre as nossas escolhas. Nunca é tarde para mudar de rumo e refazer a rota. Afinal, a vida é única e cada um é responsável pelos seus próprios atos. É preciso ter a coragem para enfrentar nossos próprios olhos diante de um espelho e descobrir quem realmente somos.
Não há outro caminho senão o do enfrentamento. Assumir os nossos atos, reconciliar com os nossos erros, resolver nossos traumas. Não se faz uma vida equilibrada sem esse momento de saber quem somos e para onde queremos ir. Com essa atitude, até o fato da finitude da vida não se torna mais um peso e, como São Francisco, temos a capacidade de olhar para a morte e chamá-la de irmã. Isso é libertador. Mesmo assim ela continuará nos assustando. Pois chega sem avisar e, na maioria das vezes, sem nos preparar para esse momento.
Ao descobrir a beleza em viver, a dor e o sofrimento continuarão a fazer parte dos nossos dias, mas não serão um peso tão grande. Eles também ganham outro sentido. Ajudam a amadurecer a alma e nos tornar mais solidários com todos os que também passam por dificuldades.
É certo que, ao longo da vida, encontramos pessoas que não aprendem com o sofrimento e nem aceitam a morte como amiga. Mas é nítido que, com essa atitude, elas não vão encontrar a felicidade. Irão viver buscando culpados para os seus problemas, forçando aceitação onde não tem, reclamando de tudo e todos. Não percebem que a maioria das suas dores é fruto de suas próprias escolhas e do seu jeito de conduzir a vida.
Não amam e não se sentem amadas. Esse sentimento de não-amor gera um grande desconforto. Dividem a vida entre meus amigos e meus inimigos, quem gosta de mim e quem não gosta de mim e, na maioria das vezes, acabam descobrindo que estão cada vez mais sozinhas. Não conseguem enxergar as pessoas boas que estão ao seu lado e todos passam a ser uma ameaça. Ofendem gratuitamente e cobram um amor que não conseguem oferecer a ninguém.
É por isso que a vida, tão frágil e tão breve, deve ser bem vivida. Aproveitada em cada dia. A alegria e a bondade devem ser oferecidas por cada um e não querer só receber. São Francisco já disse: “É dando que se recebe”. Quer amizade? Seja amigo. Quer respeito? Respeite. Quer amor? Ame.
No dia seguinte à notícia da morte da esposa do nosso amigo, no velório, fizemos a celebração das exéquias. Rezamos por sua alma e pela família enlutada. Falou-se de esperança, gratidão, amor de Deus por nós e solidariedade. Um amigo, como homenagem, entoou um canto antigo da nossa igreja que dizia sobre a fé em Deus, principalmente num momento de dor e de luto como o que estávamos vivendo. “É impossível não crer em Ti. É impossível não Te encontrar. É impossível não fazer de Ti meu ideal”. Choramos juntos e saímos fortalecidos com a certeza de que não estamos sozinhos. Deus sempre faz caminho ao nosso lado.
