Estava chovendo forte quando entrei naquela estrada de terra que dava para a sede da fazenda onde aconteceria o retiro com mais três pessoas. Elas já haviam chegado, trazendo malas, bíblia, caderno de anotações e muita curiosidade. Conhecia aquele grupo só de vista e recebi a missão de prepará-los espiritualmente antes de serem ordenados diáconos permanentes na semana seguinte.
A casa estava toda arrumada. Prepararam uma capela com o Santíssimo, mesa para a missa e sala de palestras. Na cozinha, duas mulheres responsáveis pela alimentação traziam no rosto um sorriso e palavras de incentivo. Durante as refeições percebi que elas, discretamente, iam à capela para rezar. O padre que nos acolheu estava realmente atento a tudo o que precisávamos e preparou tudo com tanto carinho e disposição que fez da nossa estadia um lugar propício para viver esses dias de reflexão e de oração.
É muito importante fazer uma parada como essa antes de tomar grandes decisões na vida. É o momento para ouvir a voz de Deus e dar segurança na decisão tomada. Para esses três homens que vieram para o retiro comigo, essa parada era o que estava faltando para darem o “sim” da ordenação diaconal, pois tudo já está preparado. As famílias estão felizes, as roupas prontas, o coral ensaiado e tiveram oito anos de formação. Agora, é preciso acalmar o coração e entregar-se nas mãos de Deus.
A casa onde estamos é ampla e fica no meio de uma grande fazenda com vários animais. Vêm nos visitar sapos, cavalos, vacas, cachorros, pássaros entoando diversas cantigas, e, ontem, apareceu um gato. Uma longa estrada se avista da janela. E esta chamou-me muita atenção desde o princípio. Um caminho que se perde de vista e leva para lugares que meus olhos ainda não alcançaram.
A vida é assim. Há um ano eu não imaginava que estaria aqui com esse grupo e nem nesse lugar. Mas confesso que é muito bom colocar-se à disposição das novas oportunidades que vão se apresentando. Sentir o vento no rosto e a certeza de que podemos oferecer mais do que pensamos ser possível oferecer.
Abrimos a Palavra de Deus no livro de Gênesis, e conversamos sobre a queda do ser humano. No meio do Jardim do Éden apareceu uma serpente astuta e diabólica. Trouxe confusão com a mulher, num diálogo cheio de segundas intenções. Ela, a serpente, que estava preocupada em desfazer a paz que reinava ali, conseguiu realizar o seu objetivo. Ficou feliz ao ver que a humanidade ali representada deixou de ouvir a voz do alto e passou a ouvir a voz que vinha do pó da terra. Ela, que rastejava sob o solo pedregoso e espinhento, acabou vencendo, com sua perspicácia, o próprio Criador, que havia plantado tudo ali e que modelara o homem e a mulher da argila da terra, soprando sobre eles o seu hálito e dando-lhes a vida.
É triste saber que ainda hoje existe esse movimento de confusão e de afastamento de Deus. Atualmente, a serpente, astuta como é, está travestida de diversas roupagens mundanas, mas também pode se apresentar com uma roupagem religiosa e espiritual, e é preciso muito cuidado para não desviar o olhar e nem os ouvidos d’Aquele que realmente pode nos orientar.
Naquele dia, ecoou-se no meio do jardim um grito: “Onde estás!”. Era Deus que, ao descer para tomar a brisa do dia e conversar com o homem e a mulher que criara, não os encontrou no lugar de costume, entre as flores e as árvores com frutos. Esse grito ecoa ainda nos dias de hoje. Deus ainda nos procura quando nos escondemos do seu amor e nos envergonhamos de nossas escolhas supérfluas e equivocadas.
Mas podemos ser sinceros: “é impossível nos escondermos de Deus”. Justo Ele que sonda os nossos pensamentos e conhece o nosso coração? Como ficar longe d’Aquele que nos ama e faz de tudo para nos ver bem e realizados? Que sentido tem mesmo uma vida afastada dos caminhos do Senhor? Ainda mais sabendo que nesse mundo tudo passa, inclusive nós?
A vida, para quem acredita, sempre ganha um sentido especial quando permanecemos próximos do amor de Deus. As cruzes tonam-se mais brandas e o sofrimento menos dolorido. Ainda encontramos muitas pessoas carregando um peso grande demais por não saberem que Jesus pediu para aproximar-se Dele, que tem o coração manso e humilde e aliviará o peso do nosso fardo.
Daqui a pouco esse retiro espiritual terminará e voltaremos para as nossas casas. Os candidatos ao Diaconado serão ordenados, viverão a experiência de servir o altar, o povo e a Igreja com mais força e buscarão configurar-se ao Cristo servidor.
“Eis que venho, ó Pai, para fazer a vossa vontade!”, disse Jesus. É sobre isso mesmo que estamos refletindo no meio de tantos textos e caminhos possíveis de entendimento. Estamos, nós também, querendo fazer a vontade do Pai.
Reveja você também a sua vida e coloque-se em retiro para ouvir o que Deus tem a falar para você. Vale a pena esconder-se por uns dias para voltar seguro e feliz para as atividades da vida. É sempre bom estar perto do Senhor!
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
