A dor voltou a visitá-la

Ela veio até mim, anos atrás, carregada de medo e tristeza. A doença apareceu em uma região do corpo de difícil tratamento. Os médicos estavam estudando o seu caso e já sabiam que o tratamento seria longo e doloroso. Estava muito abalada com toda essa novidade em sua vida. Não conseguia imaginar como poderia passar por isso e essa realidade havia fragilizado a sua fé.

Conversamos longamente e, a partir daí, comecei a acompanhar o seu calvário de internações, remédios caros, procedimentos dolorosos. Depois de muita assistência médica e dos longos meses de tratamento, foi curada. Não sentia mais dor, não tinha mais a doença e voltou à sua vida normal.

Mas, agora, a dor voltou a visitá-la. Muito tempo depois a doença retornou em outras áreas do corpo e vai precisar recomeçar tudo de novo. O medo também fez morada em seu coração, e veio acompanhado de tristeza, decepção e muitas dores. A família está ao seu lado dando apoio e toda a atenção. Enfrentarão muitas dificuldades, e sabem disso. Vão precisar de paciência, confiança nos médicos e muita fé em Deus. Mas eles possuem todos esses requisitos. Acreditam na cura, como aconteceu no tratamento anterior.

Ela me enviou uma mensagem pedindo orações, e fui até a sua casa para conversarmos e rezarmos juntos. Seu esposo, sempre muito atencioso e educado, homem de uma fé inabalável, recebeu-me na porta da casa e já foi me levando para o quarto, onde ela estava. Sentei-me ao seu lado e começamos a conversar. Era um misto de decepção por ter voltado o sofrimento e certeza da cura que virá. O medo estava presente, sentado ao lado da cama, mas a fé inundava todo o quarto, deixando o ambiente mais leve e repleto de esperança.

Conversamos sobre a vida, as dores acalmadas só com fortes medicamentos, a espera dos resultados dos exames já feitos e as opiniões dos especialistas sobre como irão proceder a partir de agora. Falamos também sobre fé, oração e a certeza em dias melhores. Há sempre uma solução quando acreditamos em Deus. Nada está perdido, pelo contrário, tudo tem um propósito. Deus é bom o tempo todo, mesmo em meio às dores e às aflições.

Na maioria das vezes não conseguimos entender os motivos que nos levam ao encontro do sofrimento. Até tentamos achar um culpado para justificar nossas dores, mas não encontramos. A vida é assim mesmo: cheia de surpresas boas e ruins. Há cruzes em nossos caminhos e precisamos sempre nos lembrar disso.

A fé se faz importante justamente nessas ocasiões. Acreditar em Deus vai muito além de fazer pedidos de bênçãos e proteção. A fé nos coloca no colo de Deus nos momentos mais difíceis da vida. Quando não há mais saída, Deus é a solução. Quando não há mais remédio, Deus é a cura. Quando a dor é muito grande, Deus é a calmaria. Quando a alma perde o brilho, Deus é o sustento de todo o nosso ser.

Depois de um longo tempo de conversa dei-me conta de que a família estava ali comigo ao lado da cama. O esposo, sempre muito presente e amoroso, a filha atenta a toda a conversa, e a mãe da minha amiga enferma, deixou a televisão ligada na sala, transmitindo a missa, e veio quietinha se juntar a nós, ficando em pé na porta do quarto, cumprindo assim a sua missão de rezar pela filha adoentada.

Após a oração, ofereceram-me um bolo com suco de uva. Conversamos mais um pouquinho e fui embora com a sensação de ter sentido Deus conosco ao redor daquela cama. Essa certeza me acompanha até agora. Quando tudo parece sem sentido, a fé nos leva a crer que sempre haverá uma solução, e a esperança sempre será uma boa companheira ao longo da vida.

Continuei minhas visitas na parte da manhã. Atendi confissões na parte da tarde e celebrei a missa à noite. Entre uma coisa e outra, muita chuva caiu do céu. Foi um dia abençoado e de muito trabalho. O meu coração, a todo momento, me levava de volta àquele quarto e me fazia rezar pela minha amiga e por sua família. “Vai dar certo. Vamos confiar”, repetia a frase dita pela manhã naquele quarto.

Antes de dormir, dei uma olhada nas mensagens que haviam chegado ao longo do dia, e, entre elas, uma me encheu de alegria. Era dela, falando sobre o nosso momento de oração em família. Dizia: “Padre, muito obrigada por ter vindo aqui hoje. Agradeço de coração. Estava precisando muito. Obrigado por ter abençoado os meus entes queridos que estão na luta comigo”.

Confesso minha emoção naquele momento. Há muitas pessoas sofrendo nesse mundo. Acreditar em Deus será sempre o melhor caminho para aliviar a dor e continuar a vida. Fui dormir com a certeza de que a visita fez muito bem àquela família, mas fez muito melhor a mim, pois, mais uma vez, Deus me deu provas do seu amor e da sua presença entre nós.

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal