A beleza tirou férias

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal

 

Um dia, minha alma se cansou das aventuras da vida. Não encontrava mais sentido em, a todo o momento, precisar me expor, tornar-me conhecido, desnudar o meu interior, apresentar minhas raízes. Tinha de fazer um esforço enorme para me acostumar com tudo aquilo já conhecido, mas isso não fazia mais parte de mim. Era um peso sorrir. Um dilema olhar para mim e saber que não precisava me preocupar com o futuro. Tudo estava escrito. Bastava estudar a cartilha, entender o processo, cumprir as ordens.

As cores foram se tornando pálidas e sem graça. A natureza não mais me impressionava. A beleza tirou férias e jamais voltou. Tudo se desengraçou. Perdeu a graça o canto dos pássaros, o canto da missa, o canto da sala com seu abajur amarelado. Eu não estava mais ali, mas meu corpo sim. Minha presença era percebida, mas eu não me via.

Ocupando o espaço vazio deixado pela beleza, alojou-se em mim o mau humor, a impaciência e, de maneira mais preocupante, a desesperança. Não havia sentido tudo aquilo. Esforçava-me para encontrar identificação com as falas diárias, mas elas não falavam dos meus sonhos. Percebi, com muita tristeza, que não havia construído vínculos com aquela vida. Era boa, claro. Era o sonho de muitos, com certeza sim. Mas, naquele momento eu pensava se realmente era para mim. O problema não estava ali, estava em mim.

A angústia invadiu a minha alma e o desejo de me aventurar pelo mundo não existia mais. E para entender bem todo o sentimento daqueles dias, faço minhas as palavras de uma canção de Monica Salmaso: “Com o tempo foi dando uma coisa em meu peito / Um aperto difícil da gente explicar / Saudade não sei bem de quê / Tristeza não sei bem por quê / Vontade até sem querer de chorar”.

Nesse momento precisei de ajuda. Recorri-me à capela. No meu lugar de rezar todos os dias, ajoelhei-me e orei. O Senhor me ajudou, nunca me abandonou. Mas não ouvia a sua voz. Tinha a sensação de falar sozinho e até minha voz não tinha eco. Ninguém ouvia, nem eu, pensava. Pedi ajuda à psicóloga e ela me ajudou. Ouviu o meu padecer. Chorou comigo. Deu-me atenção e disse: “Você precisa buscar coragem e resolver isso sozinho”. Agradeci, entrei no carro e fui embora, não acreditando no conselho dado por ela.

Não desisti. Fui falar com uma monja de clausura. Era uma mulher de espiritualidade profunda e olhar sereno. Ouviu o meu lamento. Chorou comigo. Deu-me um leve sorriso e disse: “Deus é Deus. Você não está trocando Deus por nada, apenas fazendo caminho com Ele por outras realidades”. Agradeci, enchi-me de coragem, coloquei minhas coisas no carro e fui embora daquele lugar. Ela tinha razão.

Meus tormentos não eram sobre fé, eram sobre pertença. Não havia vínculo. Não havia beleza. Não encontrava um futuro. Precisei engolir as aflições da alma e desinstalar-me. Levar na mala só o essencial. Guardar na memória só o que fazia sentido. Era preciso voltar para o lugar de onde saí. Saudar velhos amigos. Olhar como a vida foi generosa com alguns e cruel com outros. Aceitar o mundo como ele é, com as minhas raízes, o meu espaço, a minha história. Ali não havia necessidade de me apresentar a todo o instante. Já era conhecido e, se não fosse, bastavam poucas palavras para saber quem eu era.

Minha alma voltou a se encantar pelas coisas. A beleza voltou da sua longa viagem e se alojou em meus olhos. A vida foi recomeçando, e tudo ganhando cores. A comida tem mais sabores, algumas até com o sabor da infância. A água parece mais pura e refresca até a alma. Comecei a ver e a ouvir novamente o canto dos pássaros, o canto da missa, o canto da sala, agora com um aparelho de som antigo tocando canções para adormecerem as crianças e despertarem os homens.

Mas o que fazer com a história vivida até então? Para onde foram as pessoas que conviviam comigo? As vozes que ouvia? Os sorrisos e os choros? Confesso: tudo isso, no início, povoava os meus sonhos e atormentava a minha paz. Mas, com o tempo foi se alojando no fundo da memória, onde a vida vai acomodando as boas experiências e tirando a força daquilo que não deu certo. Tudo isso deixou os meus pés mais firmes no chão, fiquei mais dono de quem sou, da minha realidade, com o coração pulsando pelo Céu, perto das nuvens. Vi, com a própria experiência, valer a pena fazer as pazes comigo mesmo, e é sim permitido recomeçar. A vida é curta e os anos passam rápido. Não há muito tempo a perder.

E assim tudo vai passando rápido, como a água escorrendo pelos dedos da mão. Agora, trago comigo a certeza de que sou mais eu e Deus. E isso basta.