Tornar-te aquilo que és

Sua alma foi inteiramente derramada na minha frente. Encheu-se de coragem e contou-me tudo com detalhes, num único fôlego, sem respirar, sem se cansar, sem se preocupar com os segredos guardados há tanto tempo. Simplesmente decidiu mostrar-se por inteira e assim o fez. Buscou no passado as justificativas para tantas atitudes vividas no presente e se libertou do peso carregado ao longo dos anos.

Quando terminou, ela mesma olhou para a sua história. Ouviu de sua boca cada palavra, reviveu em sua mente cada momento, e se surpreendeu com a coragem adquirida naquele instante. Não acreditava na capacidade de se autoanalisar. Afinal, o medo instalado em seu coração era muito grande e aprendeu a respeitá-lo a ponto de não conseguir enfrentá-lo.

Mas, um dia, depois de termos tido uma conversa sincera, resolveu trazer de volta a coragem escondida e olhou para si mesma com confiança e determinação. Recordou-se de cada momento marcante, de cada pessoa importante de sua vida, das atitudes não tomadas e, no final de tudo, teve a certeza de que a vida é única e sua história foi construída com sofrimento, mas também com bênçãos de Deus.

A coragem em saber de onde viemos, revisitar a nossa história e olharmos para a pessoa que nos tornamos, é muito libertadora. É como abrir a mala carregada ao longo dos anos e ir tirando as roupas velhas, os traumas vividos no passado e sem nenhum sentido hoje, os apegos desnecessários carregados sem critérios e sem necessidade. A vida fica mais leve depois de revisitar tudo isso e mais fácil de carregar. Sobra mais tempo para viver.

Todos nós temos a capacidade de ressignificar a nossa vida e continuar o nosso caminho. Chega a ser necessário adquirir essa coragem de olhar bem no fundo dos nossos próprios olhos e perguntar: No que você se transformou? Está feliz com as escolhas feitas? Ainda dá tempo de recomeçar?

São perguntas que exigem respostas claras, porém profundas. Somos hoje a soma de tudo vivido ao longo da nossa história. E, muitas vezes, falta-nos coragem, ou quem sabe, oportunidades para enfrentarmos os nossos medos e nos responsabilizarmos pelos erros cometidos nas escolhas realizadas. Para esse exercício de autoanálise é preciso maturidade e responsabilidade.

Maturidade para assumir o próprio caminho percorrido até agora. Sem buscar culpados pelas suas dores e muito menos se fazendo de vítima para justificar os problemas não enfrentados no presente. Responsabilidade para agarrar a vida com as próprias mãos e tornar-se protagonista da sua própria história. Pode até encontrar culpados pela falta de afeto na infância ou por situações vividas com sofrimento e indignação. Mas o grande culpado agora será você mesmo, se não assumir o comando dos seus passos e se tornar a pessoa que você precisa ser.

O apóstolo Paulo, em uma de suas cartas, diz: “Trabalhamos com esforço e cansaço, de dia e de noite, para não sermos pesados a ninguém”. Como é libertadora essa frase. Há trabalhos e há cansaços em nossas vidas. Não temos como nos livrar disso. Mas não há motivo para incriminar o mundo inteiro ou jogar a culpa das nossas mazelas nas pessoas que fizeram parte da nossa vida. É necessário reconciliar-nos com nós mesmos e com todos.

O perdão é fundamental para poder olhar o passado com dignidade e paz. É preciso curar as feridas abertas. Estancar o sangue. Limpar a sujeira deixada pelo tempo. E, na maioria das vezes, esse trabalho dói muito. Por isso a coragem, a maturidade, a responsabilidade e, aqui acrescento outro elemento fundamental, a fé.

“Para não sermos pesados a ninguém”, disse Paulo. Para ninguém e principalmente para nós mesmos. Não precisamos carregar o peso do passado se temos o presente todo para nos livrar de tantas dores. A leveza da vida começa com a leveza da alma. É de dentro para fora que a cura acontece. E ela pode vir através de uma boa confissão, de um conselho bem dado, de uma direção espiritual, de uma vontade pessoal. Há muitos caminhos a nos levarem para a reconstrução da pessoa que precisamos nos tornar.

Se olharmos com atenção para a Sagrada Escritura, encontraremos Moisés no alto do Monte Sinai, perguntando a Deus qual é o seu nome. A resposta, repleta de significados profundos, veio de maneira surpreendente: “Eu Sou Aquele que É”, respondeu.

Se somos também nós a imagem e a semelhança de Deus, precisamos urgentemente saber quem somos. E, acredite, a resposta já está em nós. Talvez escondida debaixo de tanta tristeza, raiva e incompreensão, mas ela já está em nós. É preciso coragem para buscar a liberdade de ser quem você é. Só assim é possível alcançar a felicidade como pensou Aristóteles, ou buscar a perfeita alegria como falou São Francisco ao Frei Leão.

No sermão das Bem-Aventuranças, Jesus também traçou um caminho para a felicidade. “Bem-aventurados os misericordiosos, por que eles alcançarão misericórdia”. Ser misericordioso é sentir no seu próprio coração, com ternura e respeito, a miséria do outro. É preciso muito esforço pessoal para deixar a ternura entrar em nosso próprio coração. Só assim conseguiremos lidar com as nossas próprias misérias.

Sempre haverá tempo para nos encontrarmos. Mas não precisamos deixar para a última hora da vida. Quanto antes começarmos, mais felizes seremos. Afinal de contas, o Céu pode começar aqui na Terra, de maneira especial, no lugar onde pisam os nossos pés.

 

 

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal