Há muito tempo tenho me colocado à disposição para ouvir as histórias reais de pessoas simples e que, na maioria das vezes, carregam dores e sofrimentos do passado. A vida não ameniza o peso para elas, ao contrário, deixa ainda mais injusta e mais cruel. Nesse momento em que vemos o aparecimento das subcelebridades, o carnaval fora de época, os artistas ostentando a vida rica e vazia, os políticos usando as retóricas e as narrativas para se tornarem os “salvadores da pátria”, continuo achando interessantes as histórias de vida contadas pelas pessoas anônimas.
Alguns estudiosos têm dito que há um “silêncio dos bons”. É o silêncio das pessoas que realmente têm alguma coisa a dizer, mas não encontram eco em sua voz. Elas trazem uma experiência maior da vida e poderiam ajudar a iluminar as estradas escuras e esburacadas que a humanidade peregrina, mas há uma comunicação cruel e poderosa que dá voz a pessoas desinteressantes e fingidas, que não possuem luz para iluminar suas vidas e insistem em querer iluminar a vida dos outros.
Esse tipo de gente está em toda a parte, inclusive na seara religiosa que vê nesse espaço um lugar fértil para usurpar a mensagem evangélica e colocar os interesses pessoais em primeiro lugar. E como é fácil cair nesse discurso vazio e perigoso. Conseguimos falar com pessoas do mundo todo através das redes sociais, mas somos incapazes de dialogar dentro da nossa própria casa. Não conhecemos os que convivem conosco, não paramos para ouvi-los, desconhecemos a sua história, não respeitamos os seus limites. Isso gera em nós uma carência de afeto e de desejo de conhecer e ser conhecido. Com isso, qualquer charlatão mais eloquente consegue nos fazer acreditar em sua fábula, rouba as nossas verdades para colocar no lugar as suas farfalhadas.
Dostoievski, um escritor russo do século XIX, afirmou que “a beleza salvará o mundo”, e eu acredito nessa ideia. O mundo será salvo pela beleza da mensagem do evangelho, a beleza da missa bem celebrada e sem nenhum enfeite, pois por si só já é bela, a beleza das pessoas simples com suas vidas simples, a beleza do amor de Deus por nós.
Tenho duas histórias simples para contar. Foram vividas agora, por esses dias, e são carregadas de humanidade e de esperança.
Uma senhora me procurou para conversar. Não tinha uma ruga no rosto e, apesar da vida sofrida, trazia traços de mulher forte e determinada, que lutou muito na vida. Sentou-se na minha frente e começou sua fala de maneira tímida, olhando para o chão, e a voz quase sem cor. Diz ter vindo, há muitos anos, com a família do interior da Bahia tentar a sorte no interior de São Paulo. Nunca se casou e ajudou a cuidar dos irmãos e dos sobrinhos. Perguntei a sua idade e não acreditei quando me disse ter oitenta e três. Não aparentava já ter vivido tantos anos.
A solidão lhe aflige. Mora só. Todos já se foram procurando a sorte em outras terras. Mas ela ficou. Cuida da casa, da sua saúde e das suas histórias do passado. Ainda carrega alguma preocupação com sobrinhos que não estão bem encaminhados. “A vida hoje é muito mais difícil. Antes não tínhamos muita coisa para comer ou para vestir, mas sabíamos enfrentar os problemas que iam aparecendo. Hoje, eles têm tudo, mas não sabem o que fazer com a vida que Deus deu”, disse a senhora num tom de tristeza de quem não tem muito estudo, mas sabe analisar a vida com sabedoria.
Quando terminou, dei-lhe a bênção, pedi o perdão pelos seus pecados e prometi uma visita em sua casa. Os olhos já não estavam mais fitos no chão. Olhavam para os meus e percebi um brilho de alegria de quem encontrou alguém que a escutasse e respeitasse a sua história. Que falta faz alguém que apenas nos escute.
Há alguns dias andei procurando o túmulo de uma benfeitora que faleceu quando eu estava no meu primeiro ano de seminário. Ela foi a primeira pessoa que me presentou com roupas quando eu decidi ser padre e estudar fora. Agora, sou padre na cidade em que ela foi sepultada e desde que cheguei tenho procurado pela sua sepultura para poder rezar mais pertinho dela.
Finalmente achei. Pedi ajuda para algumas pessoas que foram muito solícitas comigo. O coveiro, um senhor que conhece bem o campo santo da cidade, e sabe onde está cada pessoa enterrada ali, ajudou-me muito. É uma sensação estranha estar diante do túmulo de alguém que você viu há mais de vinte anos, morreu de repente, e eu não pude ir ao seu velório. Fiquei emocionado, rezei, agradeci mais uma vez pela ajuda que me deu e disse que continuaria rezando por ela nas missas que eu celebraria.
Quando estava saindo do cemitério, o coveiro me chamou e disse que já tinha mais de sessenta anos, foi batizado, crismado, casou-se na igreja, mas não comungava desde o dia da sua crisma. Isso já faz muito tempo. Pediu-me o que teria que fazer, pois gostaria de voltar a comungar.
Eu marquei a sua confissão. Na mesma semana fui novamente ao cemitério, nos encontramos rapidamente e ele se confessou. Agora, estou ansioso por vê-lo na missa dominical, comungando. Pode ser que, quando você estiver lendo essa crônica, ele já tenha participado da missa e feito novamente o seu caminho com a eucaristia.
Pessoas simples, anônimas, sofridas, mas que carregam em si a sabedoria do mundo. Sabem que aqui tudo é passageiro e chega uma hora na vida em que só Deus basta, do mais, tudo é ilusão.
Vou buscando a beleza nesses momentos profundos em que o coração humano se desvela. Posso afirmar que há esperança num mundo melhor. Eu tenho encontrado pessoas que aprenderam com os percalços da vida a fazer escolhas acertadas para si. Não se esqueça: Deus salvará o mundo. Deus é bom, mas também é belo. Busquemos as coisas simples da vida.
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
