Apesar de não pensarmos muito sobre isso, há uma ordem natural da vida. Serenamente ela vai se consumindo, gastando as forças e, quando percebemos, foi-se embora a juventude, a vida adulta, a velhice. Viver é assim. O melhor mesmo é ter o desejo de, no final desse processo, terminar a vida com os cabelos encanecidos e a alma leve. E o segredo é envelhecer bem, pois a vida vai se despedindo sem amarguras e tristezas. Assim, não nos transformamos em vítimas do tempo, pois é melhor ser intenso e encontrar sentido até nas limitações do corpo frágil.
O que realmente nos incomoda é quando essa ordem natural se corrompe e inverte o curso normal das coisas. A morte dói mais quando perdemos alguém jovem e com muitos sonhos ainda para realizar. Sentimo-nos impotentes diante dessa tragédia em sepultar quem ainda não viveu todas as etapas de uma vida. Demoramos a dar crédito ao tomarmos conhecimento de uma fatalidade assim. Quanto mais as horas passam, mais sentimos o coração se dilacerar, como lanças afiadas espetando lentamente a carne.
Uma das primeiras coisas a se sentir é revolta contra Deus. “Por que ele e não eu?”, perguntamos sem obter respostas. Depois, procuramos um culpado e, no fim, acreditamos sermos nós mesmos os grandes culpados dessa tragédia.
“Por quê?”, é a pergunta mais triste de alguém vivenciando uma experiência assim. E não sabemos responder, pois não há uma resposta suficientemente satisfatória neste momento. Não dá para consolar esse coração e, na falta das palavras, sobram lágrimas no rosto, dor na alma, um nó na garganta e um vazio no peito.
Na canção “Pedaço de mim”, Chico Buarque traduz esse sofrimento dizendo em um dos versos: “a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Como mensurar o sofrimento de um pai e de uma mãe ao sepultar um filho? Como alentá-los diante de uma dor tão profunda? Vão-se embora os sonhos, os sorrisos fáceis, a alegria simples do cotidiano e fica a difícil tarefa de continuar vivendo.
Quem vai ajudar a guardar a esperança em acreditar que tudo terminaria bem? Aonde colocar os planos das férias de janeiro? Como viver novamente uma ceia de Natal? A quem doar as roupas guardadas?
Em outra canção, Renato Russo disse: “É tão estranho, os bons morrem jovens”. Quando era mais novo, achava bonita essa música, mas não entendia o real significado dessa “estranheza” do autor. Hoje, depois de ouvir os lamentos de tantas mães desoladas, carregando um coração sepultado com o filho e um luto eterno nos olhos, compreendo melhor. Continuo não saber quais palavras usar diante disso tudo, mas rezo muitas vezes em silêncio e, depois de ouvir as suas dores, choro sozinho na sala de confissões.
Sempre carrego um pouco do peso das pessoas ouvidas nesses momentos. Afinal, há uma solidariedade entre nós e é preciso ser assim. Tenho medo de chegarmos ao ponto de ficarmos insensíveis às dores dos outros. Quando a compaixão não for mais prioridade das religiões, a humanidade estará condenada a desaparecer.
Certo dia, li um texto interessante sobre a morte, no livro da Sabedoria: “Aos olhos dos insensatos parecem morrer; sua partida foi tida como uma desgraça, sua viagem para longe de nós como um aniquilamento, quando na verdade estão em paz”. Bom, isto já vai aliviando o nosso coração.
O texto ainda traz uma frase lindíssima: “A esperança deles é portadora de imortalidade”. Sempre me lembro dessa sabedoria bíblica. Há um consolo em saber que a esperança nos torna imortais. Esperança em Deus, a nos amar profundamente. Esperança na vida terrena, dando a certeza de que a morte não existe. Esperança na Vida Eterna, herança do Céu.
No evangelho de João, encontramos uma cena de Jesus chegando à pequena vila chamada Bethânia. A razão de sua ida foi a notícia sobre a morte de Lázaro, seu amigo. Marta, irmão do defunto, quando O viu, disse: “Senhor, se estivesse aqui o meu irmão não teria morrido”. Essa mulher traz consigo um coração angustiado e tomado pela dor. Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. É como se dissesse: A morte não existe, por isso, pare de chorar apesar da dor, pare de buscar respostas para esse sofrimento, pare de sentir a impotência diante da tragédia.
Ele a olha profundamente e diz: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês nisto?”. É preciso crer nas palavras do Mestre e sermos mais solidários entre nós. Sentir a dor do outro e, quando possível, dizer com muito respeito: Deixe Jesus curar a sua dor.
Lembre-se sempre: A vida é feita de alegrias e de dores. Vivemos, muitas vezes, como num vale de lágrimas, mas não podemos esquecer que em volta há um jardim florido e cheio de esperança em dias felizes.
Rezo pelos pais desse jovem. Creio que ele continuará vivo no coração daqueles que o amaram e continuarão amando. Também continuará vivo nas pessoas que receberam os seus órgãos doados generosamente. Isso é sinal de vida em meio à dor. E, mesmo distante, rezarei uma missa de sétimo dia, agradecendo os anos vividos entre os seus e pedindo ao Senhor para acolhê-lo no Paraíso. Afinal, somos todos peregrinos neste mundo.
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
