Uma coincidência me colocou diante do Príncipe Liev Míchkin, aquele protagonista russo que Dostoiévski construiu como uma espécie de santo desorientado, puro demais para o mundo, compassivo demais para ser levado a sério. A partir daí, dois outros textos entraram na conversa quase por força própria: o texto de Walter Benjamin “O Capitalismo como Religião” e o estudo do Dr. William C. C. Pereira “A Ideologia da Vergonha no Clero Brasileiro”. O que parecia disperso foi se revelando, aos poucos, como três olhares sobre um mesmo problema.
Há uma frase que Dostoiévski colocou na boca do Príncipe Míchkin, em O Idiota, que nunca me saiu da cabeça e de muitas pessoas que conheço e olham para o mundo com esperança: “a beleza salvará o mundo”. Ao longo da minha formação filosófica e teológica, ouvi essa sentença repetida como uma espécie de adorno literário do querido professor de Estética Guilhermo de La Cruz Coronado. Demorei para perceber que Dostoiévski não estava falando apenas de estética. Ele estava fazendo uma afirmação de natureza salvífica, quase sacramental. E que essa afirmação, hoje, tem tudo a ver com a crise que atravessa o clero, especialmente o brasileiro.
Walter Benjamin escreveu algo perturbador: o capitalismo de mercado funciona como uma religião. Não uma religião que oferece redenção, mas uma que produz culpa sem possibilidade de expiação. Pois, o mercado exige devoção, consome tempo, molda desejos, hierarquiza pessoas e institui seus próprios rituais de pertencimento. O que percebemos décadas depois é que essa lógica pode não ficar do lado de fora da Igreja. Ela pode entrar. Seduzir. Reconfigurar, silenciosamente, o modo como, por exemplo o sacerdote entende a si mesmo e ao seu ministério.
William Cesar Castilho Pereira, em A Ideologia da Vergonha e o Clero do Brasil, diagnostica com precisão clínica o que essa infiltração produz: um clero envergonhado. Não de pecados pessoais, mas da própria condição. Envergonhado de ser padre num mundo que não respeita mais o simbólico gratuito. Envergonhado de uma identidade que o mercado não sabe como precificar. A vergonha de que Castilho Pereira fala não é moral no sentido estreito. É existencial. É a vergonha de quem internalizou os critérios do mercado e passou a se julgar por eles.
E o mercado tem critérios muito claros. O padre que enche a igreja é valioso. O que celebra a missa das seis da manhã para oito aposentados não é. O que aparece na televisão tem peso, e falo isso com “lugar de fala”. O que visita doentes em casas sem câmera não tem. O que administra bem o dinheiro da paróquia é elogiado. O que dedica horas ao confessionário não aparece em nenhum relatório. A lógica é sempre a mesma: o que não produz retorno mensurável é invisível. E o que é invisível, numa cultura que confunde existência com visibilidade, simplesmente não existe.
Aqui é onde Dostoiévski entra de volta com força. Míchkin é um personagem que fracassa segundo todos os critérios da sociedade russa do século XIX. Ele não acumula, não domina, não seduz no sentido mundano. Ele escuta. Ele perdoa antes de ser pedido. Ele reconhece a dignidade nas pessoas que todos descartaram. E justamente por isso ele é perturbador. Não porque seja fraco, mas porque encarna uma categoria que o mundo burguês não sabe o que fazer com ela: a gratuidade. A beleza de que Dostoiévski fala é isso. É a presença que não pede retorno. É o gesto que não precisa de audiência para ter valor.
Essa beleza é a vocação sacerdotal em sua forma mais pura. E é exatamente o que o capitalismo de mercado como religião corrói primeiro. Porque a gratuidade é incompatível com a lógica do mercado. Um padre que celebra com alegria genuína, que prega com profundidade, que acompanha com presença real, que ora com fidelidade obscura, está fazendo algo que o mercado não consegue classificar nem remunerar. E numa cultura que só valoriza o que pode ser mensurado, isso produz vergonha. A vergonha de quem age bem mas não sabe como justificar esse bem diante das métricas dominantes.
A saída não é ignorar o mercado como se ele não existisse. Essa ingenuidade já custou caro ao clero brasileiro. A saída é recuperar a consciência de que a vocação sacerdotal pertence a outra ordem de realidade. Não oposta ao mundo, mas capaz de habitá-lo sem ser assimilada por ele. Dostoiévski sabia disso. Seus santos ingênuos não fogem da sociedade: eles a perturbam de dentro, pela simples presença do que é genuíno.
O que Benjamin nos ajuda a ver é que esse projeto de assimilação é sistemático, não acidental. O mercado como religião não convida o padre a abandonar o altar, ele o convida a transformar o altar numa plataforma. Não pede que ele deixe de crer, pede que ele acredite também na eficiência, na visibilidade, na performance. E aí a fé começa a ter concorrentes internos, não declarados. O padre não se torna ateu; ele se torna funcionário que deve apresentar eficiência diante das métricas pastorais e das plataformas digitais.
Dr. Willian aponta que essa divisão produz um tipo particular de sofrimento, silencioso e mal nomeado. O padre que sofre por não ser suficientemente relevante segundo os padrões do mercado raramente consegue verbalizar isso sem culpa. Porque verbalizar seria admitir que internalizou critérios que teoricamente rejeita. Então o sofrimento fica camuflado. Vira cinismo ou hiperatividade compulsiva. As duas saídas são formas de não encarar o problema.
A proposta de pensar a beleza como resposta a essa crise não é uma proposta estética no sentido decorativo. É uma proposta ontológica. Recuperar a consciência de que o ministério sacerdotal possui uma beleza própria, irredutível, que não precisa de validação externa para ser real. A missa é bela mesmo quando celebrada para poucos. A absolvição é real mesmo quando ninguém sabe que aconteceu. A presença ao enfermo tem um peso que nenhuma câmera consegue capturar e que nenhuma falta de engajamento e likes diminuem.
Dostoiévski não prometeu que Míchkin venceria. Ele prometeu que Míchkin seria verdadeiro. E há nisso uma distinção que o clero precisa aprender a fazer de novo: entre vencer e ser verdadeiro. O mercado promete ao padre que, se ele for suficientemente eficiente, ele vencerá. O Evangelho não faz essa promessa. O Evangelho propõe outra coisa: que vale a pena ser verdadeiro mesmo quando isso custa. E que essa verdade, quando vivida com integridade, tem uma forma. Tem uma beleza. E que essa Beleza, em algum sentido que a teologia não esgota, mas que a literatura pressente, é capaz de salvar.
Padre Marcio Tadeu de Camargo – Sacerdote na Diocese de Votuporanga(SP)
Pároco, Professor, Pós-graduado em Bioética pela Cátedra da UNESCO
e Apresentador na Rede Vida.
