O anjo e suas asas de penas

Acordei bem cedinho. Era dia do Santo Padroeiro, São João Batista. A manhã surpreendia pelo frio intenso e pela chuva fina. Era um convite quase irresistível para continuar na cama, sob as cobertas. Mas rezar é também importante. São João não dorme e nem deixa para depois a sua proteção. Ter uma paróquia cujo Santo principal é o primo de Jesus não é pouca coisa. Por isso, pulei rápido da cama e fui me preparar para celebrar com luz e alegria em pleno dia de inverno rigoroso.

Ao chegar à igreja, a equipe de liturgia já estava nos trabalhos. Coroinhas de vermelho com cara de sono e, alguns, sem acordar direito, pensando sonhar que estavam na missa. E estavam mesmo. Os acólitos de preto, já com o fogo acesso e as brasas vermelhas, preparavam o turíbulo para produzir a fumaça branca e perfumada, inundando assim toda a igreja e deixando o ambiente ainda mais sagrado.

Já os ministros da eucaristia haviam chegado bem mais cedo. Arrumaram, limparam, prepararam a credência com os vasos sagrados, deitaram as oblatas para serem transformadas em Corpo e Sangue de Cristo, durante a consagração. É realmente uma missão linda ajudar o padre a fazer o que há de mais sagrado nesse mundo: celebrar a Santa Missa.

Cheguei à sacristia, coloquei a roupa solene da missa, como manda o protocolo no dia do Padroeiro, rezei com toda a equipe, dei rápidas orientações aos músicos, leitores e acólitos, pois são todos muito competentes e realizam o seus trabalhos com maestria, e fomos todos para a porta da igreja.

A procissão, no final da missa, estava comprometida devido à chuva. Não daria para levar o andor, já preparado com flores, pelas ruas ao redor da praça da matriz. Mesmo assim, o povo começou a chegar. Vinha aos poucos, lentamente, como se pedisse licença ao frio para passar. A Igreja não ficou repleta de gente, mas compareceram

muito mais fiéis do que eu imaginava. Nosso povo é bom e generoso. Como deixaríamos o nosso Santo sem a missa e sem as homenagens? Nunca.

Nossa cidade completa, neste mesmo dia, cento e três anos de fundação. É muito tempo e muitas histórias vividas nesse chão. Um pedacinho de terra abençoado por Deus e protegido por São João Batista. O mesmo que apresentou o Cordeiro de Deus. Batizou o autor do batismo. Ainda na barriga de sua mãe Isabel, recebeu a prima Maria, já grávida de Jesus, para uma visita de cortesia.

A mãe de Jesus foi ajudar Isabel nos últimos meses de gravidez. Quando a prima, já idosa, a viu entrando em sua casa, não acreditou. Ficou tão feliz que o filho em seu ventre também saltou de alegria. Num encontro único entre o antigo e o novo, a promessa e a realização, o povo crente e o seu Deus encarnado, Isabel falou com toda a alegria do seu coração: “Como posso merecer que a Mãe do meu Senhor, venha me visitar?”.

É essa frase que hoje, em meio ao frio e à chuva, aonde bem cedinho viemos para a missa, também declaramos espantados de felicidade: “Como podemos merecer tanto amor de Deus para com o povo de nossa paróquia e de nossa cidade?”. Ao nos dar João Batista como Padroeiro, nesses cento e três anos de história, temos a oportunidade de sermos apresentados a Jesus pelo seu próprio primo.

Do primeiro encontro das primas grávidas, nasceu a missão de João Batista. “O que virá a ser este menino?”, perguntava o povo maravilhado pela certeza da manifestação de Deus na vida daquela família. Esse menino tornou-se o precursor da presença de Jesus na história da humanidade. Foi ele o primeiro a apresentar o Cordeiro de Deus que tira o pecado do Mundo. Foi ele a preparar o caminho dos corações por onde o Senhor passaria.

O final da vida de João Batista não foi muito agradável. Por ganância de uma mulher e pelo medo de um rei, ele foi decapitado e sua cabeça apresentada numa festa de aniversário sobre uma bandeja. Assim terminou nesta terra a missão do último profeta apresentado pela bíblia. É ele o elo entre o antigo povo de Deus e o novo povo, restaurado agora pelo Salvador Jesus Cristo.

Fiz um pedido nas missas anteriores para as crianças virem vestidas de anjo. “Vai ser lindo a igreja cheia de anjos de todas as cores e todos os tamanhos. E a procissão será ainda mais bonita”, pensei. E quem disse que meus anjos apareceram? Não acordaram e, com aquele frio e aquela chuvinha, ficaram na cama até mais tarde.

Confesso: eu não sabia que anjo dormia. Mas, depois desse dia, só vou convocá-los em outro horário. Cedinho assim eles não se animam para deixarem as suas nuvens quentinhas.

Apenas um anjo apareceu. Com cara de sono e meio contrariado, mas estava ali com as asas soltando as penas, auréola na cabeça e roupa branca comprida, dessas que se veem no céu em dias de Nossa Senhora. Participou da missa toda. Às vezes tirava as asas e depois colocava novamente. Mas apresentou-se em nome de todos os anjos ausentes, representando a Milícia Celeste.

E assim foi a nossa missa em honra a São João Batista, o padroeiro de nossa paróquia. Uma celebração lindíssima. Alegre, cheia de vida, flores, incensos e cantos. No final, muitas fotos e penas de anjo por todo lado. Posso garantir: O Céu se fez presente nessa manhã de frio e chuva em nossa igreja. Viva São João Batista!

 

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal