O segredo para um coração leve

Vou lhe contar um segredo: “É preciso dar atenção à Palavra de Deus, de maneira especial ao evangelho que ouvimos na missa diária”. É um exercício muito bom para nos acostumarmos com a Palavra. Afinal, aprender a linguagem do amor contida nos evangelhos não é tão fácil assim, mas a Igreja, ao longo dos séculos, tem nos ajudado a fazer essa reflexão. Estar em sintonia com Jesus, aprender a ouvi-lo e a meditar os seus ensinamentos, transforma a nossa vida. Viver tendo o Mestre como nosso orientador é espetacular, pois encontramos o sentido de tudo.

Muitas pessoas não podem participar da missa durante a semana e frequentam aos domingos, o “Dia do Senhor”. Mas, hoje em dia, com a redes sociais, encontrar a liturgia diária ficou muito fácil. Dá para acompanhar diariamente as leituras e, assim, fazer um itinerário bíblico/espiritual todos os dias.

Veja como isso é fascinante. Algumas semanas atrás, o centro da liturgia foi o “Amor” ensinado para nós com muita clareza e verdade. Segunda-feira, tivemos o evangelho de João, no final do capítulo doze. A leitura nos fala sobre o grão de trigo. “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então, produz muito fruto”. Para Jesus, o amor acontece através da doação de si mesmo. Ele mesmo nos mostrou, com sua cruz, o quanto vale a pena gastar nossos dias com uma causa nobre.

A metáfora do grão de trigo ajuda a entender que não adianta permanecer intacto, sem se misturar à terra, sem morrer para gerar vida. Talvez o amor humano que mais se aproxima dessa proposta de doação total seja o amor de mãe, que todos os dias morre um pouco de si para ver o filho obtendo vida.

Já no dia seguinte, tivemos um texto do evangelho de Mateus, capítulo 18. Os discípulos se encontravam inquietos pensando em quem é o maior no Reino dos Céus. É interessante essa discussão, pois hoje ainda temos essa preocupação, principalmente nas relações sociais, políticas e religiosas. Quem é o maior, o mais querido, o mais inteligente, o que merece mais palmas ou mais votos.

Nossos interesses passam pelo tamanho da retribuição que vamos ter. Afinal, quanto mais curtidas, likes, comentários, mais sucesso teremos. Mas Jesus não pensa assim. Sua resposta decepcionou os discípulos e, muitas vezes, decepciona a nós também. Disse: “Se não vos converterdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus”.

Ter o coração como o de criança é uma das chaves do Amor para Deus. É justamente nisto que consiste o processo de conversão: deixar-se envolver por Deus, amando sem medo e sem querer nada em troca. Simplesmente amar da mesma maneira que Jesus amou. É muito bom relembrar a nossa infância e nos perguntar: onde nos perdemos como adultos?

Já na quarta-feira, o evangelho dava continuidade ao capítulo 18 de Mateus, e Jesus tocou num assunto delicado. Falou que, se tivermos alguma coisa contra o nosso irmão, devemos tentar entrar num acordo. Isso é ser adulto com coração de criança. Não guardar rancor, ódio, mágoa e desprezo. Infelizmente carregamos todas estas coisas em nosso coração. Disse Jesus: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles”.  Mais uma vez a chave do amor vem ao nosso encontro: precisamos acertar nossas relações colocando Deus em nosso meio.

No dia seguinte, a missa nos trouxe mais uma vez a continuidade do evangelho de Mateus dezoito. Agora, de maneira muita clara: quer viver o amor de Deus em sua vida? Busque o perdão. Pedro perguntou a Jesus: “Quantas vezes devo perdoar o meu irmão? Até sete vezes?”. Aqui está um questionamento muito sério para nós. Quem nunca teve um perdão não dado ou não recebido? Você sabe o quanto isso dói ao longo dos anos.

Um coração de criança é um coração leve onde a reconciliação é o antídoto certo para uma vida tranquila e feliz. Jesus deu a resposta que ninguém esperava: “Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete”. O número sete na Bíblia significa perfeição. Então o perdão precisa ir além do corriqueiro, do pequeno esforço, da falta de vontade. O perdão precisa ser tão importante como o ar que respiramos, as batidas do coração, o sangue correndo nas veias. Pensemos juntos: Deus não é assim? Sua misericórdia não é infinita? Precisamos aprender a perdoar.

Concluindo a semana, sexta-feira o evangelho nos falou de amor incondicional. Texto de Mateus dezenove. Trazia o problema da época em despedir a esposa do casamento. Moisés já havia permitido em alguns casos assim, mas Jesus foi radical: “Moisés permitiu despedir a mulher por causa da dureza do vosso coração”. Não vou aqui julgar os casamentos desfeitos. Não, não vou julgar. Vou apenas ressaltar essa frase de Jesus: “por causa da dureza do vosso coração”.

É preciso ser leve consigo e com os outros. Amar a Deus e deixar-se ser amado por Ele. Acreditar na força do amor faz transformar todos os sinais de morte em vida. Deixemos de lado a dureza dos nossos corações.

Assim, encerro afirmando: “O evangelho refletido diariamente, pode modificar o nosso jeito de ser e de agir. Pode nos tornar pessoas melhores”.

 

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal