Sagrado Coração de Jesus

“Tenho sede!”, disse o Senhor, reunindo as últimas forças em seu corpo chagado pelas feridas e exausto pelo cansaço.  O que se passava pelo seu pensamento naquele momento? Mal conseguia abrir os olhos. Alguns espinhos, cravados bem próximos da pálpebra, dificultavam ver o cenário ao seu redor. Mesmo assim, sentia a presença amorosa de sua mãe e, no fundo da sua alma, sabia: não estava só.

O soldado, já prevendo o momento de ouvir aquele pedido, deixou próximo à cruz um jarro repleto de vinagre. Era por volta do meio da tarde. O calor era insuportável e desejando intensificar a crueldade daquela tortura, encharcou uma esponja, colocou-a na ponta da lança e levou-a até a boca de Jesus. Sem muita opção, Ele tentou engolir aquele líquido ácido, mas acabou derramando pelo seu corpo coberto de feridas, aumentando assim a dor e o sofrimento, levando-o à morte.

Morreu com sede o Senhor. Justamente aquele que tinha dado água viva para a mulher samaritana junto ao poço de Jacó. “Quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede”, disse Ele à mulher incrédula. Morreu com sede, apesar de ter transformado, numa festa de casamento, água em vinho, trazendo a alegria novamente aos convidados e deixando os noivos maravilhados. “Faça tudo o que Ele vos disser”, tinha alertado sua mãe ao garçom.

Sede de que sentiu Jesus antes de morrer na cruz? De compaixão? Mas justamente Ele que trazia consigo o olhar compassivo, sentindo em seu próprio corpo as dores dos outros? De misericórdia? Talvez esperando um pouco de reconhecimento pelo bem feito a tantas pessoas curadas pelo caminho? De amor?  Pois havia pedido: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”.

E assim parou de bater o Coração que tanto amou o mundo. Estava nu, ferido, exausto, humilhado e sedento. Doou-se e amou até o fim. Entregou-se como uma ovelha vai para o matadouro. Não condenou os seus algozes e nem reclamou a ausência dos seus amigos. Apenas pediu um pouco de água, recebendo no lugar um jarro de vinagre.

O seu Coração ainda sofreu uma agressão. Mesmo sem ter mais os batimentos, foi perfurado pela lança do soldado. “Do lado transpassado pela lança imediatamente saiu sangue e água”, testemunha João, o único discípulo presente no holocausto da cruz. “Aquele que viu dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro”, escreveu mais tarde.

A partir desse evento, ao longo dos séculos, esse Coração ferido tem sido o abrigo para muitas pessoas. Sem perceber a profundidade do seu gesto, aquele soldado abriu uma porta para o Céu. E é justamente ali, no Coração aberto de Jesus na cruz, que encontramos a oportunidade de receber o descanso e o alívio de nossas dores.

Feliz daquele que sabiamente se aproxima do Seu Sacratíssimo Coração doado a todos nós no alto do monte Calvário.  A humanidade, talvez no ato mais cruel de todos os tempos, tendo matado o Amor encarnado, acabou por revelar o lado mais humano de Deus: o seu Coração dilacerado.

O pedido de água, para acalmar a sua sede antes da morte, continua ecoando pelo tempo e chega até nós, hoje. Deus ainda tem sede e suplica um pouco de atenção e carinho de nossa parte. Justamente Aquele que andou por sobre o mar revolto pede um gesto simples de solidariedade humana. “Quem der, nem que seja um copo d’água fria a um destes pequeninos, em verdade vos digo, não perderá sua recompensa”. “Nem que seja um copo d’água”, disse.

O mais surpreendente é encontrarmos no Coração de Cristo um lugar seguro para amenizar a sede da humanidade. Nesse mundo tão marcado pelas guerras, onde a corrupção não assusta mais e a indiferença tomou conta das mentes de tantas pessoas, o Divino Coração se apresenta como modelo a ser seguido. Ele está marcado pela chaga aberta na cruz, coroado de espinhos, mas repleto de misericórdia e inflamado de paixão pela humanidade.

Um gesto tão brutal, como aquele visto na cruz, gerou um Coração acolhedor e aberto ao mundo. Como se pode pedir mais alguma coisa a esse Deus que se entregou totalmente? O que mais falta à humanidade? Um padre francês, Leão Dehon, morto há mais de cem anos, disse um dia: “Do coração de Cristo, aberto na cruz, nasce o homem de coração novo”.

Aqui está a fonte eterna de salvação. É o lugar de descanso para os corações abatidos. Ânimo para os deprimidos. Coragem para os que sentem medo. Cura para os doentes. Alegria para os tristes. Esperança para um mundo mais fraterno.

Encontrar o Coração de Jesus e fazer uma experiência profunda desse amor de Deus é ter a certeza de não mais andar sem rumo pela vida. É descobrir o sentido em cada momento e, de maneira especial, aqueles mais difíceis, onde a dor parece não acabar e a noite parece não ter fim.

O Sagrado Coração de Jesus tem sede do nosso coração humano. Quer nos ajudar a encontrar a felicidade para já experimentarmos aqui na Terra as maravilhas do Céu. Também nós temos sede de Deus, mas nunca receberemos d’Ele vinagre, mas sim água viva. “A água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água viva a jorrar para a eternidade”.

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal