Ele conforta os corações despedaçados

Tinha terminado mais uma missa daquele domingo. Ao sair da igreja uma senhora se aproximou, com muito respeito, e pediu, com os olhos marejados, uma bênção. Naquela semana iria passar por uma cirurgia e estava com medo. Sabia que a graça de Deus alcança os que estão aflitos e pediu a proteção. Eu ouvi, acolhi com o olhar e dei-lhe a bênção. Ela se inclinou, fechou os olhos e viveu com intensidade aqueles poucos minutos entre as orações e o gesto que eu realizava. Foi embora mais calma e eu fiquei com aqueles olhos de medo parados na minha mente.

O evangelho daquele domingo era do primeiro capítulo de Marcos, e contava um episódio interessante da vida de Jesus. Ele havia saído da sinagoga, em Cafarnaum, com João e Tiago, e foram para a casa de Pedro e André, seu irmão. Lá chegando, ficou sabendo que a sogra de Pedro estava muito doente, com uma febre que não passava. Jesus colocou-se à disposição para ir até a enferma. Aproximou-se, segurou a sua mão e ajudou-a a levantar-se. Esses três gestos de Jesus continuam acontecendo ainda hoje na humanidade.

Aprendi desde muito cedo que não temos um Deus distante do ser humano, mas tão próximo que conseguimos tocá-lo. Se você pensar um pouco, descobre que essa proximidade vai além do toque, pois Ele se torna alimento. Pão e vinho tornam-se corpo e sangue que sustentam nossos passos no caminho da vida.

É muito comum encontrar pessoas que querem um pequeno gesto de bênção no final da missa. Elas vêm buscar uma força que só a fé pode dar, principalmente quando a vida está em jogo ou quando o chão foge dos pés e não se sabe mais por onde caminhar.

Preciso lhe contar que a rotina de um padre é sempre um misto de normalidade com o extraordinário, pois todos os dias é preciso estar disposto a viver cada instante com os olhos bem abertos e os ouvidos atentos. Sempre acontece algo que não está programado na agenda, quase sempre cheia de atendimentos e celebrações. Mas é preciso se deixar levar pelas surpresas de Deus.

Neste mesmo domingo, já estava entrando no carro para voltar a casa, quando uma senhora se aproximou e disse: “Padre, o senhor pode dar uma bênção para minha irmã? Ela está perdendo a visão aos poucos”. Esse tipo de abordagem sempre mexe comigo. Há um sofrimento muito grande nas pessoas.

Às vezes ficamos tão envolvidos em nosso mundo particular, pensando nas próprias dores, que esquecemos de olhar ao redor. Há uma forma estranha de se viver a vida hoje em dia. Estamos nos afastando das coisas que realmente preenchem o coração e nos dão um sentido mais nobre para a nossa existência. Parece que estamos nos nivelando por baixo e com uma preguiça enorme de sair deste marasmo.

Assim é no campo da política hoje em dia. Uma baixaria nas palavras e nos modos que acabam influenciando as ideias e atrasando o progresso. Fico pensando como vamos cobrar dos jovens uma educação mais elevada, se não temos exemplos públicos para isso? Como vamos cobrar mais compostura e mais respeito, se as figuras públicas acabam cometendo todo o tipo de excesso de mau exemplo. É uma vergonha ouvi-los nos debates, nos discursos, nas entrevistas. Esse tipo de atitude acaba nivelando por baixo também as ideias e as propostas que deveriam dar em busca de soluções mais plausíveis para todos nós.

O problema é que essa praga da descompostura moral vai se alastrando em todas as instâncias. Dentro das famílias, das escolas, das redes sociais, das Igrejas. Vamos assistindo a um festival de horrores de doer o coração e entristecer a alma. Será que esse é mesmo o caminho que teremos que percorrer no mundo de hoje? O caminho da mediocridade, que, com tamanho desregramento, acaba se esquecendo da base da civilidade entre nós: o respeito pelo outro.

Enquanto isso, as pessoas estão sofrendo, muitas vezes caladas, sem perspectiva e sem ter com quem confidenciar suas dores. Neste momento, principalmente quando buscam uma bênção, um olhar compassivo ou uma palavra de conforto, meu coração se enche de esperança de que as coisas podem melhorar.

Acredito no amor de Deus. Tenho a convicção de que esse amor pode transbordar e tocar cada um de nós. A sogra de Pedro, depois do encontro com Jesus, a febre cessou e ainda sentindo o toque d’Ele em suas mãos, diz o evangelho, que ela levantou-se e começou a servi-los. Aqui está o segredo que o mundo ainda não percebeu. Deus se faz próximo de nós, nos toca e nos ajuda a levantar, mas nós precisamos fazer a nossa parte, depois de curados, deixar o leito vazio e servir aqueles que mais precisam.

Mas confesso a você, é muito difícil entender isso numa sociedade que está se acostumando a gritar, falar mal, ofender, esbravejar, como se isso fosse uma virtude dos fortes, mas digo, não é. Esse tipo de atitude só nos distancia mais ainda uns dos outros, só nos machuca mais e nos deixa sozinhos com nossas próprias dores. Não sobreviremos muito tempo assim. Não há vida em meio ao desequilíbrio emocional e ao egoísmo institucionalizado.

No final daquele domingo, depois da última missa, voltei para casa e o salmo 146 não saía da minha cabeça. Era como um mantra que ecoava em meio ao silêncio do meu quarto. Eu tinha pregado sobre ele nas missas, mas não sei se as pessoas ouviram atentamente aquelas palavras. Dizia assim e determinado momento: “Ele conforta os corações despedaçados, / ele enfaixa suas feridas e as cura, / fixa o número de todas as estrelas / e chama a cada uma por seu nome”.

Esse é o Deus no qual professo a minha fé e que busco levar para as pessoas que optam por encontrar um sentindo mais profundo na vida. O conforto que tanto precisamos; o remédio para as nossas dores; a intimidade d’Ele saber o nosso nome em meio à multidão. É preciso aprender com Jesus como devemos conduzir a nossa humanidade para não perdermos o rumo das coisas.

 

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz, scj

Reitor do Convento SCJ / Taubaté-SP