O crime no convento

Passou quase despercebida uma triste notícia sobre a religiosa de oitenta e dois anos brutalmente assassinada dentro do convento onde morava. Foi aqui mesmo em nosso país, bem perto de nós. Que mal ela fez? Ao perceber a invasão do convento por um rapaz, começou a gritar, e ele, numa atitude insana, a sufocou. Mas o seu corpo apresentava sinais de violência, roupas rasgadas e marcas de espancamento, levando a crer em uma agressão maior. Conseguem imaginar a cena da freira idosa em luta corporal com um rapaz jovem de trinta e três anos? Eu tentei, mas desisti. É cruel demais para povoar minha mente com um pensamento tão tétrico.

Estamos, aos poucos, caminhando para um abismo sem precedentes onde vamos enterrando a dignidade humana. Não se vê mais respeito entre as pessoas. Tudo se transforma rapidamente em protesto, em gritaria, em agressões físicas e verbais. A sensatez, essa tem ficado esquecida em algum livro empoeirado da estante. Poucos leem. Poucos estudam. Poucos buscam a paz.

Houve muitos protestos, semanas atrás, por um cachorro de rua espancado e morto também com crueldade. Os adolescentes envolvidos foram julgados e condenados nas redes sociais. Passeatas, reportagens, políticos esbravejando nas tribunas do país. Jornalistas correndo para conseguir alguma foto do cachorro ou, quem sabe, alguma imagem de câmera de segurança com aquela cena.

Quanto à freira, poucas notícias, quase nada. Apenas as suas coirmãs de convento, a comunidade mais próxima de leigos, os familiares e alguns padres realizando o rito de sepultamento. Não houve comoção nacional.  Mas houve lágrimas sinceras de quem conhecia a sua dedicação à Igreja e ao povo onde realizou sua missão. Mas é muito triste esse tipo de acontecimento. Não por ser uma religiosa, e aqui já teríamos muita coisa a dizer, mas por ser uma idosa indefesa e com a vida toda dedicada a fazer o bem.

O mundo precisa muito mais de soluções do que de protestos. Há uma ausência enorme de homens e mulheres trabalhando pelo bem comum. Aliás, será que ainda existe esse tipo de pessoas? Temos sim um grande grupo falando muito, mas fazendo pouco. Criticando tudo, mas não apresentando soluções. Não sabem colocar a mão na massa, ser solidário, chorar junto, preocupar-se com o sofrimento do outro. Apenas falam, falam, falam.

Diz o antigo ditado: “Enquanto os cães ladram, a caravana passa”. E é verdade. A vida tem o seu curso natural. A irmã Nádia Gavanski nunca será esquecida. Sua missão continuará no coração de todos que a conheceram, e também na forma trágica de sua morte. Quanto ao seu assassino, sua existência será apagada com o tempo, restando apenas o ato cruel cometido por ele.

É preciso fazer um grande esforço para resgatar o significado da vida humana. Somos muito mais do que aparentamos. Muito mais fortes, apesar de frágeis. Muito mais capazes, apesar das inconstâncias. Somos criados para ir além dos nossos próprios limites. A capacidade humana é extraordinária, apesar de, às vezes, comportarmo-nos como cães que só sabem ladrar.

Enquanto isso, a vida passa. E vai embora sem pedir licença e sem esperar ninguém. Vamos nos envolvendo com a tríade do ter, poder e prazer, prejudicando profundamente as escolhas humanas e acabamos caindo nas armadilhas do diabo, conhecido como o pai da confusão.

Achamos que vociferar contra tudo e contra todos é a solução para os problemas do mundo. Não é. Mais do que falar é preciso agir. Basta de cairmos no erro de colocarmos a falta de respeito como sinônimo de liberdade ou a falta de educação semelhante a empoderamento. Até a verdade precisa de licença para ser falada. Precisa de hora certa, jeito certo, palavras certas. Caso contrário, por mais verdade que seja, torna-se grosseria, falta de delicadeza, brutalidade.

Quando não ensinamos como se comportar nas relações humanas, acabamos criando monstros, e estes acabarão devorando a nós mesmos. Assim, vemos hoje filhos destratando pais, e pais abandonando filhos. Jovens assassinando idosos, e idosos arrogantes e sem paciência para ensinar os mais novos. Encontramos o descaso com a natureza e muitas bombas caindo do céu.

O mundo está carente de beleza, poesia, espiritualidade e amor. No entanto, a fé em Cristo pode nos dar tudo isso. Pode nos ajudar a encontrar o caminho de volta a um lugar mais seguro e unido. O diálogo respeitoso e a paciência conseguem milagres maiores do que a inquietação e a gritaria. O trabalho e a capacidade de sonhar juntos são muito mais eficientes que bombas atômicas.

Encontramos no livro de Provérbios: “Afasta de mim a falsidade e a mentira; não me dês nem riqueza e nem pobreza, concede-me apenas o meu pedaço de pão”. Aí está a sabedoria tão sonhada por muitos. Cada um fazendo a sua parte, colocando o seu dom e talento a serviço do bem de todos, pouco a pouco vamos restaurando corações e estruturas.

Mas, enquanto a ganância e o interesse pessoal falarem mais alto, o mundo ainda ouvirá sobre freiras brutalmente assassinadas em conventos, guerras pelo mundo e gritarias no lugar de solução. Diante de nós há sempre escolhas a serem feitas. Qual é a sua?

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal