Jesus é o seu nome

Há dias em que tudo transcorre de maneira tranquila e serena, mas há outros nos quais a presença do Sagrado é tão perceptível a ponto de a alma explodir de felicidade e sentir o Céu tocando a Terra. Deus continua se comunicando, apesar de alguns pensarem que Ele emudeceu e só falou nos tempos bíblicos. Ele nos toca com carinho, sua voz chega aos nossos ouvidos. E, para os mais atentos, ressoa dentro do coração no mesmo compasso do nosso batimento.

Era um dia comum de atendimento. Cheguei um pouco mais cedo e já havia pessoas me aguardando. Iniciei as conversas, bênçãos, confissões. Em determinado momento ela entrou pela sala, colocou seus pertences no chão e sentou-se à minha frente. Achei interessante a disposição de colocar no chão as suas coisas. Parecia não querer nada lhe atrapalhando aquele momento.

Olhou para mim e disse: “Hoje eu não vim para me confessar. Quero apenas dar um testemunho”. São raros os momentos em que procuram o padre para dar testemunho ou falar sobre as graças alcançadas. A maioria vem para falar das suas dores e angústias. E não há problema algum ser assim. O sacerdote precisa ser um elo entre o humano e o sagrado. E, quase sempre, é preciso saber escutar, direcionar, abençoar, aliviar o sofrimento do outro.

Disse-me estar trabalhando em um lugar onde foi muito bem acolhida. Mas até chegar nesse trabalho passou por momentos de aflição. A doença foi chegando de mansinho e não a encontrou preparada. Foi preciso tempo, paciência e muita observação sobre o seu corpo e as novas possibilidades apresentadas para poder conviver com os sintomas da enfermidade. Ficou desempregada e precisou adaptar sua vida às novas realidades apresentadas.

Como resposta a tudo isso, tomou a decisão de mergulhar a alma na religião. Apresentou-se diante de Deus. Tornou-se catequista. Escolheu o primeiro banco da igreja para participar das missas dominicais. Os filhos tornaram-se coroinhas. E eu sempre a observo nas missas, atenta à escuta da Palavra e da homilia.

O tempo foi passando e a doença foi se incorporando a sua rotina. Adaptou-se, apesar de não ser fácil essa nova realidade. Passou em alguns concursos públicos, na sua área, e foi chamada para trabalhar na cidade vizinha. Um misto de alegria e preocupação. Passava pela sua mente e pelas suas orações: “Como será a minha recepção? Darei conta dessa jornada? Irei me adaptar?”.

Chegou o dia de se apresentar ao trabalho. Acordou cedo, preparou-se e saiu bem mais cedo que deveria. Ao passar pelo monumento dedicado ao Cristo Redentor, na entrada da cidade, observou o céu apinhado de nuvens e era como se houvesse se abaixado e tocasse a grande imagem. Fez mais uma vez as suas orações e dedicou esse momento ao Senhor Jesus.

Quando chegou em frente ao local de trabalho, estacionou o carro, atravessou a rua e observou algumas crianças chegando e sendo recebidas no portão. De repente um menino a avistou e veio correndo em sua direção. Deu-lhe um imenso abraço e não desgrudou mais dela. Os pais vieram preocupados, pensando que ele iria derrubá-la, afinal ela se apoiava em uma bengala para caminhar. Mas o carinho era tanto que deixaram a criança ao lado dela, recepcionando aquela ilustre desconhecida.

Entrou no prédio escolar, os outros funcionários foram se aproximando, fazendo festa com a sua chegada, e a acolhendo com alegria. Foi percebendo que Deus havia preparado aquele momento, seu coração foi serenando e uma paz tomou conta da sua alma.

Quanto ao menino, continuava ali ao seu lado. Mas ela percebeu um detalhe, ele não falava nada. Por mais que pedisse o seu nome, ele olhava, abraçava e ficava em silêncio. Uma professora, vendo aquela situação, aproximou-se e falou que ele não é de ficar calado. Do nada, olhou para a criança e disse: “Jesus, fala o seu nome para ela”.

O tempo parou. Um silêncio profundo invadiu a sua alma. “Será mesmo que o nome dele era Jesus?”, pensou incrédula.

Olhou para a professora e ela confirmou: “Jesus é o seu nome”. Aí ela entendeu tudo. A saída da cidade com a imagem do Cristo sob as nuvens do céu, abençoando o dia. A chegada à escola com aquele abraço apertado do menino. O tempo todo ele ao seu lado. Como não agradecer ao Senhor por tamanho carinho. Jesus estava ali em forma de criança. Não falou nada, apenas a acolheu e permaneceu ao seu lado como se dissesse: “Não se preocupe, eu estou contigo”.

Contou-me que Jesus permaneceu sendo o seu melhor amigo na escola. Essa criança neurodivergente a escolheu para ser o seu porto seguro e, sem saber, trouxe a certeza de ser tocada por Deus.

Terminado o seu testemunho, eu fiquei comovido com as maravilhas de Deus ainda hoje em nossas vidas. Ele fala de diversos modos. Basta estar atento e abrir-se à espiritualidade. Lançar-se na missão e trazer a Palavra de Deus como bússola a orientar os nossos dias.

Outro dia a encontrei na missa, sentada no primeiro banco. No final, fui pedir se me autorizava a escrever o seu testemunho. Afinal, como guardar isso só para mim? Uma manifestação tão profunda de Deus em sua vida? Ela me autorizou e agora você também sabe: Jesus existe e é um menininho com autismo, cumprindo a sua missão de trazer a ternura do Céu aqui na Terra. Deus continua sendo bom.

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal