Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
Era ainda bem cedo quando cheguei para os atendimentos. Ouvir, aconselhar, abençoar, perdoar, ajudar a tomar decisões quando a vida se torna difícil. Assim é a rotina do padre quando está com o povo e promove um momento sagrado de encontro da Misericórdia com a miséria humana.
Para que isso aconteça, é necessário ter humildade e plena abertura para a graça de Deus. Humildade, porque não merecemos tamanho amor, mas Deus insiste em nos amar de maneira incondicional. Abertura para a graça, porque sem o nosso consentimento Deus não age em nós. É preciso querer e se entregar a esse amor. Temos um Deus extremamente educado que não entra se não o convidarmos.
Quando abri a porta da capela do Santíssimo, percebi que uma senhora me olhou com os olhos de socorro, como se o mundo ao seu redor estivesse em colapso. Sem dizer uma palavra ela entrou na minha sala e não conseguia falar o que estava acontecendo. Chorava e seu corpo tremia de medo. Eu não sabia o que falar e apenas pedi um abraço, na tentativa de acalmá-la, e deu certo.
Aos poucos foi voltando a si e pode me contar o que estava acontecendo em sua vida. Ouvi o seu drama com respeito e querendo muito vê-la mais calma e confiante. Falou, chorou e foi embora com uma bênção que dei, pedindo a Deus por ela.
A vida, às vezes, prega-nos algumas peças. Está tudo bem num dia e tudo desmorona no outro. Por isso, é bom ter a quem recorrer num momento como esse. Saber que temos uma igreja, amigos, família ou alguém que possa nos ouvir e sofrer conosco a nossa dor, faz o nosso sofrimento ser mais leve. Corrói menos a alma e traz de volta a esperança.
O evangelho daquele dia, tirado do livro de Mateus, por coincidência, também trazia uma mulher cananeia desesperada que, ao encontrar Jesus pelo caminho, começou a gritar com todas as suas forças: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio!”.
Uma mãe, quando pede por seu filho, passa por cima de todo o seu orgulho e, se preciso for, até se humilha. Jesus teve uma atitude diferente do que estamos acostumados a ver. Ficou em silêncio. Não disse nada para aquela mulher.
Os seus discípulos aproveitaram para sugerir que a mandasse embora, pois estava perturbando o grupo. Muitas vezes, a nossa reação diante da dor do outro é também parecida com a deles. Como se aquele pedido de socorro tirasse a nossa paz, embaralhasse a ordem das coisas e nos fizesse perder tempo. Temos muito que fazer e precisamos cuidar de nós mesmos. Não há tempo para olhar o sofrimento do mundo. Basta o meu sofrimento. Já é suficiente para me ocupar.
Esquecemos que há no mundo, neste momento, muitos gritos de socorro sem ressonância em nossas vidas. Talvez quando formos nós a pedir socorro, saberemos realmente o que é sofrer calado e ter de curar sozinho as nossas próprias dores. Aqui está a definição do que realmente é solidão: “morrer sem ter uma mão segurando a sua”.
Jesus aproximou-se daquela mulher e disse que não tinha sido enviado para o povo dela, a sua missão era outra. Todos acharam que aquelas palavras calassem os seus gritos, mas a mulher não quis ouvir aquela afirmação, afinal o seu pedido era para a sua filha e ela implorou ainda mais forte: “Senhor, socorre-me!”.
Jesus foi ainda mais incisivo: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos”. Parece que o coração do Senhor estava endurecido. Será que não teria mais o olhar de compaixão? Não estava mais sentindo a dor do outro? Não queria mais curar as feridas das almas dos pobres mortais que o procuravam?
Nesse momento a mulher, ao invés de se calar ou brigar com o Mestre, resolveu se humilhar ainda mais: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos!”, disse ela, prostrada ao chão.
O coração de Jesus, diante dessa fala, voltou a bater no mesmo ritmo das batidas do coração dela. Mesma sintonia, mesma dor, mesmo sentimento. Ele não podia mais sentir aquela dor, ouvir aqueles gritos. Elogiou a fé daquela criatura e concedeu a realização do seu pedido. Sua filha foi curada.
Há muito sofrimento ainda hoje no coração das pessoas. Há fome de comida mesmo, e muitas mães sem ter o que dar para os seus filhos. Há doenças no corpo sem médicos e sem tratamentos. Há jovens sem perspectivas e sem ensino. Há uma lacuna cada vez maior na sociedade por faltar beleza, cultura, educação, principalmente, fé.
Talvez falte humildade diante dos nossos pedidos a Deus. Há muita gente determinando a graça, exigindo o milagre, sendo arrogante no pedido. Há também carência de pessoas altruístas com vontade de ajudar, elogiar, agradecer.
Tanto a mulher do atendimento como a mulher do evangelho deixaram para mim ensinamentos profundos sobre as coisas da terra e as coisas do céu. Na terra é preciso saber pedir ajuda quando as coisas não andam bem. Partilhar as nossas dores com pessoas que possam nos ajudar a carregar o fardo pesado demais.
Já a cananeia traz a certeza da insistência da oração de intercessão. Pedir em favor do outro, sem medo de se humilhar diante de Deus.
É bom contar com a ajuda das pessoas e com a ajuda de Deus. Não andamos sós, podemos estar sozinhos, mas nunca desamparados. Sejamos atentos às dores dos que precisam e estejamos sempre prontos a ajudar a encontrarem novamente a paz. Afinal, chegará também o nosso dia de pedir socorro. “É dando que se recebe!”, já nos ensinou o Mestre.
