José Américo, o “Padre Bom”

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal

Terminada a missa de corpo presente, os padres se retiraram para a sacristia. Aos poucos, em silêncio, o povo aproximou-se do caixão colocado no centro do corredor, bem defronte ao presbitério. Ao lado, o Círio Pascal aceso. Uma imensa vela simbolizando a vitória da vida sobre a morte. Sua luz dissipa toda a treva e nos recorda a ressurreição de Cristo, enchendo de esperança o coração da humanidade.

Eu me aproximei. Rezei, agradecendo a Deus o dom da vida daquele que agora já está diante do Pai. Cumprimentei o seu irmão e, muito emocionado, ele me falou da missão cumprida com zelo. Agora poderia descansar em paz. Segurei-me para não deixar as lágrimas denunciarem o turbilhão de sentimentos que passavam pela minha mente. Era um misto de recordações de muitos anos vividos, tendo o Padre Zé Américo como o pastor da nossa comunidade.

Era um homem bom. O coração não resistiu aos últimos momentos de sua vida e enfartou numa manhã de sábado. Justo esse coração tão generoso e humilde. Sempre com um sorriso, uma palavra carinhosa, uma pergunta sobre como estava a família. Passos lentos e olhos atentos para não deixar ninguém sem um aperto de mão e uma palavra amiga.

Eu era ainda adolescente quanto ele assumiu a igreja da minha cidade. A missa era demorada. O padre gostava de falar bastante. Falávamos na época que ele sempre tinha três homilias em cada missa: uma no início, outra depois do evangelho e outra antes do Pai Nosso. Sua marca era visitar as famílias e partilhar a mesa. Se deixassem, poderia facilmente ficar horas conversando e comendo as comidas gostosas oferecidas pelos paroquianos.

Fui apresentado pelo Padre Zé quando ingressei no seminário. Eu precisava de uma carta falando sobre a minha pessoa e a minha presença na comunidade paroquial. Ele prontamente escreveu. Também foi ele que me visitou na missão, quando morei no Maranhão pela primeira vez. Ele esteve presente nos meus Primeiros Votos Religiosos, professados na cidade de Jaraguá do Sul-SC.

Anos depois, também foi a Taubaté-SP, para os meus Votos Perpétuos e ordenação Diaconal. Sempre presente em todas as minhas etapas de formação religiosa. Viu-me ordenar padre. E, sempre, quando nos encontrávamos, perguntava como eu estava, onde estava morando e como ia a minha família. Sempre gentil e interessado na evolução da minha vida sacerdotal.

Quando retornei para viver como padre na Diocese de Votuporanga, ele sempre me perguntava como estava a minha adaptação. Disse-me ter ficado feliz com o meu retorno e poderia contar com as orações e com a sua amizade. Sempre me convidava para celebrar uma missa, quando a sua paróquia estava em festejo do padroeiro, e, depois, oferecia um o delicioso jantar.

Dizem que a sua tristeza iniciou depois do falecimento da sua mãe. Eu não sei dizer se isso é verdade mesmo. Mas ela morou com ele muitos anos e recebeu o cuidado e o carinho do filho padre até falecer. Sua mãe o acompanhava nas missas, nas festas da paróquia e nos almoços e jantares na casa do povo.

O padre tinha os seus limites e as suas dificuldades. Mas, se olharmos bem, quem não tem limites e dificuldades na vida. Somos assim, feitos do pó da terra e do sopro de Deus. Ora, barro, frágil e sem muito valor. Ora, sopro Divino, bondoso e cheio de virtudes. Assim era o Padre José Américo, reconhecido pela sua bondade, pelo seu coração bom e por sempre ter tempo para ouvir a todos que queriam um conselho.

No velório, tarde da noite, também foi prestar as últimas homenagem ao “Padre Bom” um casal de amigos e entre as dezenas de coroas de flores que não paravam de chegar desde a notícia do seu falecimento, ela disse: “Se o padre Zé Américo não estiver no céu, ninguém estará”. E esse pensamento era um consenso entre todos os que ali passaram durante o velório.

Chegada a hora marcada, pegaram a tampa do caixão. As pessoas se aproximaram, choraram, já sentindo a saudade bater no coração. Despediram-se pela última vez. Lacraram o esquife, de madeira, ornado de dourado. Os sobrinhos e parentes pegaram nas alças e levaram até o carro fúnebre.

Uma procissão silenciosa de carros seguiu até o cemitério. Lá chegando, fomos todos até o lugar do sepultamento. Apenas os familiares, alguns amigos e eu, que queria estar ali para, mais uma vez, agradecer pela sua vida e pelo seu sacerdócio. Já era domingo, bem de tardezinha. Um dia sem sol e de muitas nuvens no céu.

Antes de lacrarem a sepultura, os presentes deram uma salva de palmas, eu convidei a todos para rezarem a última Ave-Maria e, no final, disse uma ejaculatória antiga da Igreja: “Que as almas dos fiéis defuntos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz!”.

O Padre José Américo foi sepultado junto de sua mãe, no jazigo da família. Deixei o cemitério sozinho. Todos ficaram lá mais um pouco. Eu não conseguia mais segurar as lágrimas. Não queria que me vissem chorando. No coração um sentimento de alegria, tristeza e saudade. Mas, no fundo mesmo, sentia uma imensa gratidão pela vida e pela missão desse padre bom.

Descanse em paz, Padre José Américo!