Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
Faz frio. Mesmo estando fechada a janela, ouço o vento soprando lá fora. Imagino o pé de araucária, que fica bem em frente ao meu quarto, balançando no meio da noite, e penso no gavião que vi na estrada quando estava quase chegando aqui. Uma ave exuberante, muito grande e altiva. “Onde se abriga esse gavião numa noite escura e gelada como essa?”, pensei, sem conseguir encontrar a solução. Mas, amanhã, com certeza o verei novamente voando, sem maldizer a noite fria, e sem pensar na próxima que irá chegar. Apenas vivendo os seus dias.
Arrumei a cama, coloquei cobertores quentes, apaguei a luz. O vento continuava o seu assobio, e minha mente não assossegava. Rapidamente fui levado à casa de retiro da semana anterior. Pude trazer à memória cada religiosa com quem convivi naqueles dias de reflexão, oração e silêncio. Digo a todos que vou dirigir um retiro espiritual, mas, na realidade, sou eu o primeiro a usufruir dos efeitos benéficos de quem se dispõe a fazê-lo de coração aberto. Sou mais um retirante em meio a tantos retirantes daquele grupo.
Às vezes, “o corpo pede um pouco mais de alma”, diz o poeta. E como é bom dar alma aos nossos dias, cobrir nossos sonhos de esperança e sentir o coração bater lento e incessantemente. É uma parada necessária para refazer rotas, olhar para as próprias escolhas feitas, tomar novas decisões e se reconciliar consigo mesmo.
Quando conseguimos silenciar o coração, as palavras também se emudecem e o pensamento fica mais seletivo. É como se um clarão iluminasse as trevas, como um comprido relâmpago, mas com tempo suficiente para observar toda a vida e nos vermos ali no meio de todo o caos em que, às vezes, encontra-se a nossa existência. O silêncio fala. Traz à tona quem realmente somos e, mesmo temerosos, vai nos enchendo de coragem a ponto de nos preparar para limpar nossas próprias feridas e, lentamente, buscar a cura tão desejada.
Silenciar é deixar falar apenas as vozes interiores. É carregar os barulhos internos sem deixá-los sair de dentro de nós mesmos. É escutar-se a si mesmo, sem interrupção e sem medo.
A razão para tamanha quietude era justamente nos levar a uma oração profunda, tendo a Palavra de Deus como base e a nossa vida como campo a ser analisado. E sempre dá certo. Uma frase se repetia constantemente nos textos que refletíamos: “Não tenhas medo!”. E questionávamos: De que medo o Senhor estava falando?
Descobrimos juntos, depois de muitos dias, que poderia ser medo de, no silêncio, ficarmos sozinhos conosco mesmos e ouvirmos a nossa própria voz. E isso é tão real que passamos a maior parte da vida falando, discutindo, apaziguando conflitos ou sendo os causadores deles, tentando convencer alguém, ouvindo outros falarem e, sem se dar conta, fugindo sempre da oportunidade de serenar os anseios e deixar-se ouvir os ecos da própria alma.
Às vezes, somos corpo de mais. Sempre com muito trabalho a executar. Meta a ser cumprida. Problemas para solucionar. Dormimos e não descansamos. Rezamos e não tocamos o Sagrado. Juntamos bens e não ficamos satisfeitos. Comemos e não nos saciamos. Choramos sem ter ninguém para enxugar nossas lágrimas. Sorrimos sem ninguém se alegrar conosco.
O calor que nos aquecia do frio e nos impulsionava sempre adiante vinha dos textos escolhidos para refletirmos e das experiências partilhadas. Havia também, durante o retiro, acompanhamentos pessoais. Uma a uma, aquelas religiosas vinham para partilhar a vida e receber a absolvição dada através do Sacramento da confissão.
Ah, se aquela sala pudesse falar tudo o que se ouviu naqueles dias. É realmente um mistério a vida. Entre um silêncio e outro, havia uma alma se derramando através da partilha. É campo sagrado a história de alguém que se sente pronto a dividir suas dores e alegrias. É preciso, com muito respeito, tirar os sapatos e caminhar com delicadeza sobre as almas consagradas.
O vento soprou mais forte, balançando a janela do quarto. Isso me fez voltar à realidade e lembrar que, agora, estou em outro lugar, em outra casa de retiros. Não sou eu quem está dirigindo esses exercícios espirituais. Sou agora mais um retirante. Ouço as palestras, faço as reflexões propostas, rezo as orações comuns, procuro silenciar-me e, ficando comigo mesmo, ouvir minhas vozes interiores.
Estou precisando também de “um pouco mais de alma”. Sentir o sopro de Deus sobre o meu corpo de barro. Renovar minhas forças. Descansar pensando n’Ele. Encher-me de coragem para procurar um sacerdote e confessar os meus males. O silêncio faz o tempo passar mais devagar. Aproveito essa oportunidade de me analisar e renovar meus propósitos. Deus é bom o tempo todo.
Penso no gavião lá fora, sozinho e com frio. Imagino a araucária balançando ao sabor do vento. Sinto a noite fria e sem estrelas esperando a aurora que, com certeza, vai chegar. Viro para o lado, rezo e espero o sono chegar. Há silêncio no lugar onde estou. Há silêncio em mim.
