Por minha tão grande culpa

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal

 

Ainda faz o friozinho das manhãs de julho. O dia está demorando a despertar e, apesar da hora adiantada, ainda é escuro. O sol parece preguiçoso hoje, não deu ainda o ar da graça. Por outro lado, os pássaros, sempre dispostos, estão nas suas algazarras matinais, brincando como se nunca tivessem visto uma manhã na vida. Cantam, voam, agitando-se freneticamente.

Tento relembrar o sonho que tive. Estava para tomar banho e esqueci a toalha; iria para uma missa e depois não queria mais; caminhei numa longa estrada e no fim não conseguia respirar. Foram esses três momentos que consegui lembrar. “Que bom que acordei”, pensei aliviado.

Ah, como seria bom se pudéssemos também acordar de algumas situações em que nos colocamos na vida. Carregamos, por vezes, um sentimento de culpa por alguns fatos que vivemos, e, diferente de um sonho, não dá para acordar e ver que não era real. Levamos alguns pesos que são nossos, legítimos, e fazem parte da nossa história.

Por outro lado, sentir-se culpado é também possuir o senso de responsabilidade. Só carrega culpa aquele que se sente responsável pelo que fez. Sem essa certeza de saber-se dono de suas próprias escolhas, nunca vai se dar conta de uma verdade: nem tudo o que fazemos é realmente o melhor que se deveria ter feito.

Há no mundo, hoje em dia, um estranho consenso de fazer o que quisermos e ninguém tem nada com isso. Assim, deixamos de observar a realidade do outro para nos colocarmos no centro de todas as questões. Não respeitamos o esforço de ninguém e não reconhecemos que, diante de cada situação, há sempre dois lados, ou quem sabe, até mais de dois.

Estamos nos tornando cada vez mais egoístas e, assim, injustos em nossas decisões. Não existe diálogo. Não se quer ouvir ninguém e, na maioria das vezes, coloca-se no lugar de vítima. Deixa de ser racional e passa a agir como criança mimada e sem educação. É muito difícil lidar com pessoas assim. Pois pisam sobre os outros, gritam, mentem para ajustar as suas verdades, enganando a si mesmas e àqueles que se colocam ao seu lado.

Talvez seja a falta do senso de responsabilidade que leva a essa atitude. Sem se sentir responsável não há culpa, e sem culpa, não há perdão. Esse tipo de atitude torna a pessoa insuportável, pois estará sempre reclamando de alguém ou implorando apoio e reconhecimento. Há uma carência de afeto e, quem sabe, um sofrimento que gera solidão, desgaste emocional e um sentimento de inferioridade.

Há séculos a Igreja tem se colocado como ouvidora das culpas dos seus fiéis. Sentar-se à frente de um padre e falar de si e daquilo que de menos honroso fez, é um sinal de maturidade e de responsabilidade pelos seus próprios atos. Só assim pode haver arrependimento e receber a misericórdia de Deus com a absolvição de seus erros.

Escuto muita gente. Tenho observado um movimento estranho de pessoas que me procuram para falar de seus pecados, mas sem a real noção do mal que elas causaram. Não há uma consciência clara do que se fez e muito menos o desejo sincero de não cometê-los mais. Classifico como penitentes de internet, que recorrem às listas encontradas nas redes sociais, extensas e pesadas de pecados, mas não sabem direito o que eles significam. Repetem essa lista, talvez até com piedade, mas sem uma análise profunda da sua própria vida. E, muitas vezes, nem são os seus principais erros.

Perdemos a noção de pecado assim que nos distanciamos do sentimento de culpa. Muitos pensam que é errado falar de culpa. “Isso é coisa de padre e da Igreja Católica”, vão dizer alguns. Mas, para mim, isso é coisa de maturidade humana. Vamos a um exemplo bem comum hoje: Será que não se sentem culpados aqueles que jogam bombas em guerras, matando crianças, idosos e trazendo fome e desespero para aquelas pessoas?

Busquemos mais perto de nós, a realidade política brasileira na qual, em muitos casos, vemos o descaso com o povo e a busca pelo interesse particular, legislando em causa própria. Será que a consciência não pesa em lesar aposentados, roubando dinheiro do remédio e da subsistência de muitos?

Assim é também para as nossas escolhas. É preciso ter uma consciência atenta para não cometermos pequenos delitos sem que eles realmente não nos incomodem. Cuidar com as palavras ditas de maneira má, com a ingratidão com aqueles que nos são próximos, com a difamação, tão comum nas redes sociais de hoje.

É necessário refletirmos mais sobre os nossos próprios atos. Não cair no conto cantado em verso e prosa: “Deixa a vida me levar. Vida, leva eu”. Não podemos deixar a vida nos levar. Nós é que devemos levar a vida e, com responsabilidade, assumir os erros, pedir perdão e recomeçar. E por falar em recomeçar, o sol resolveu aparecer. O dia clareou e os passarinhos amainaram o canto e foram cuidar dos seus afazeres. Também vou cuidar dos meus compromissos do dia e pensar melhor sobre as minhas próprias escolhas.