Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
Revirando algumas pastas à procura de um documento, encontrei uma foto antiga que me transportou a um mundo distante e cheio de saudades. É engraçado como tudo voltou rapidamente à minha memória. Consegui ouvir sons, sentir cheiros, lembrar sorrisos e conversas, experimentar novamente a brisa de um leve vento em meu rosto, que soprava naquele dia. Tudo isso estava guardado dentro de mim e aquela fotografia antiga fez com que eu revivesse aquele instante. Enchi-me de saudade.
Confesso que não tenho o hábito de revirar o passado. Não gosto muito de ficar pensando no que passou, pois a vida segue e é preciso viver intensamente o presente. Mas, foram várias coincidências que me levaram a essa experiência profunda de sentir a falta de alguém que não está mais aqui entre nós.
Começou com um doce de leite que ganhei e tinha o mesmo sabor, a mesma textura e mesma cor do doce que minha vó fazia. Era uma especialidade dela. Chamávamos de “ambrosia”. Um leite meio talhado que dava ao doce um aspecto de que algo não havia saído bem. Mas não. Era próprio dele e tinha um sabor espetacular. Minha avó ainda colocava por cima uma raspinha da casca de limão. Era de comer rezando. Agradecendo a Deus tamanha delícia.
Depois minha tia me chamou para ajudá-la a resolver um problema de um documento. E lá estava eu, mexendo mais uma vez na memória da minha avó, vendo seu nome escrito nos papéis, pegando seu atestado de óbito, e orientando minha tia a levar tudo no cartório, para informar que minha avó já havia falecido e que precisava modificar o documento antigo. Não disse nada, mas a saudade aumentou dentro de mim.
Relembrei da minha última conversa que tive com ela. Contou-me assuntos confidentes e que a marcaram profundamente. Estava feliz e em paz consigo mesma. Dona de si e de suas escolhas. Não sabia me explicar alguns caminhos que a sua vida tomou. Mas sabia que tinha vivido bem até ali e não reclamava de nada do que tinha passado. Era gratidão apenas.
E agora, dias atrás, encontrei essa foto. Seu sorriso, seus cabelos brancos, sua ternura. Tudo voltou a minha memória de maneira intensa e cheia de emoção. Como sou grato por ter ficado próximo dessa mulher tão simples e tão sábia. Um dia, um médico me disse que Deus não era justo pois no mundo havia muita gente analfabeta e ignorante e Deus não fazia nada para que essas pessoas parassem de sofrer. Eu logo me lembrei da minha vó. Analfabeta sim, ignorante, nunca!
Falei ao médico sobre a minha avó e do absurdo que ele havia dito. Nunca vi ausência de Deus em sua vida e sempre a tive como exemplo de pessoa bondosa e cheia de compaixão. Cuidou do meu avô numa cama por dez anos. Nunca vimos o seu quarto sujo, a sua cama cheirando a doença e falta de cuidados. E olha que meu avô era um homem grande e forte que parecia o dobro de tamanho da minha avó.
Ela guardava calada muitos fatos da vida que não compreendia bem. Tinha seu jeito de rezar. Era temente a Deus. Todos os dias colocava um copo de água perto da televisão para o padre abençoar, no momento da oração no final da tarde. Essa água era colocada na geladeira, numa garrafa diferente da outra água. Um dia, ela me confidenciou que, quando chegava alguém em sua casa e sentia que precisava de uma bênção, oferecia um copo daquela água especial, sem se preocupar em avisar que estava benta. Era o seu jeito de ajudar a levar um pouco de Deus na vida das pessoas.
Ríamos muito juntos. Tinha um bom humor e gostava de conversar. Contava casos antigos e sempre se recordava dos velhos tempos de dificuldade quando a família ainda estava começando.
Certo dia, ela ficou muito doente. O coração não estava mais batendo do mesmo ritmo da sua vida. Estava cansado e velho. Foi internada e os médicos pediram à família autorização ou não para uma cirurgia invasiva de altíssimo risco. Não sei bem o motivo, mas acabou em minhas mãos essa tarefa de conversar com ela sobre o que deveríamos fazer.
Sentei-me ao seu lado na cama do hospital. Ela ainda avisou à senhora que estava em tratamento ao lado de sua cama que era o seu “neto padre” que estava ali. Eu olhei bem nos seus olhos, peguei sua mão e disse tudo o que os médicos haviam nos informado. O caso era cirúrgico, não davam garantia de vida. A outra solução era ficar sem a cirurgia e voltar para casa, mas o coração poderia parar a qualquer momento.
Pedi o que achava e como deveríamos proceder. Ela me disse com voz firme: “O que você decidir estará bom para mim”. Eu respondi sem medo: “Vamos para casa”. E assim foi feito. Viveu os últimos dias de sua vida de maneira feliz e em paz. Comemorou o seu aniversário com a presença dos amigos e da família. Celebrei nesse dia uma missa no jardim da sua casa e alguns dias depois o seu coração parou.
Hoje, cheio de saudade da sua presença e das suas conversas, agradeço a Deus pela avó que tive. Sei que está no Céu ao lado de Nosso Senhor. Sempre guardo com carinho uma garrafinha de água benta na minha geladeira em sinal de amor e respeito pela minha avó.
Seu nome? Maria. Como a da Mãe de Jesus.
