Entre a dor e a esperança

Viver não é fácil. Exige uma capacidade de se reinventar todos os dias. É como se existisse uma guerra a ser vencida onde só depende do seu esforço, da sua decisão e da sua paciência. Mas, às vezes, bate um cansaço e, com ele, um desejo de desistir de tudo. É como se carregasse no peito uma sensação de estar realizando um esforço inútil. Nada muda. Tudo piora. Poucos se dispõem a fazer história com você. Não é sempre, mas o desânimo chega.

É justamente nessa hora que se deve olhar ao redor e ver o mundo como ele realmente é. Como as pessoas buscam resolver os seus problemas. E como, na maioria das vezes, as dificuldades suportadas por eles são muitos maiores que as suas.

Tenho acompanhado muitos doentes em tratamento. Junto deles está a família, cheia de esperança e correndo em busca de uma cura difícil. Há muito sofrimento nesse meio. É preciso chorar escondido para não piorar a situação. Não se pode pensar em desistir da luta diária. O amor se transforma em cuidados. Ama-se de forma muito simples, com pequenos gestos. A roupa de cama sempre limpa, a comida feita com carinho, não se fala de notícias ruins, as orações tornam-se mais fervorosas.

Quando o cansaço chega, penso nessas pessoas exaustas e sem poderem descansar. Olho para os meus problemas e fico com vergonha de achá-los grandes demais. Diante da minha vida tão sem entraves, cujos problemas são fáceis de serem resolvidos, chega a ser uma afronta colocar um peso grande demais onde não se deve.

É preciso abrir a janela e olhar para fora. Sair-se de si mesmo e dar uma volta pelas ruas, conversar mais com as pessoas, desenvolver olhos de compaixão e, assim, sentir a dor do outro dentro de você. Isso é ser cristão e ser humano de verdade.

Se não fizer o exercício de desinstalar-se, acaba ficando alheio aos reais problemas da vida. Um ditado antigo diz assim: “Eu chorei porque não tinha sapatos, então conheci um homem que não tinha os pés”. E é isso mesmo. Há muitas lamentações feitas fora de contexto. Muitas vezes, basta criar coragem, olhar firme para os problemas e resolvê-los. E quando não tiver solução, é preciso buscar novos caminhos. Sempre confiante.

Estava no meu descanso pós-almoço, quando chegou uma chamada no celular. Sabia que passavam por momentos muito complicados com a doença, já completando um mês de hospital. A vida realmente tomou um caminho muito complicado. Ela me falou sobre o esposo e uma cirurgia muito complexa, já agendada. Os médicos estavam fazendo de tudo, mas sua saúde permanecia fragilizada. A doença se espalhou pelo corpo e tinham de cuidar de uma coisa por vez.

Pedi a ela se poderia fazer uma chamada de vídeo para conversar com ele também. E assim foi feito. Quando a tela se abriu, ele me olhou e percebi os olhos se encherem de lágrimas. Não era de medo, mas sim de pedido de ajuda. “Não está sendo fácil”, disse-me com a voz embargada. Ele sabe do carinho e da amizade que construímos nos últimos tempos. Não foi fácil no início, mas, aos poucos, partilhamos a vida e a fé.

Acompanho desde o início essa via sacra causada pela doença. Passou por muitos médicos, fez muitos exames, foi internado várias vezes, até descobrir qual doença tinha, para assim iniciar o seu tratamento. Sofreu muito. As forças foram acabando, as dores aumentando, o peso diminuindo.

Mesmo assim, quando tudo parecia estar dando errado, a fé aumentava. Não perdia a missa mensal na pequena capela rural. Sempre após a celebração, conversávamos longamente. Sua esposa, atenta a tudo, nunca saiu do seu lado. Está há um mês internada com ele. Algumas vezes pode ficar lá o tempo todo, outras vezes, só pode entrar nos horários de visitas.

Na última visita feita a ele, pediu-me que eu não fosse embora sem antes falar com o médico. Fiquei esperando o médico chegar para dar o diagnóstico do dia, sentado ao lado da sua cama, junto com sua esposa. Assim que ele entrou, fui apresentado como o padre da família. Ouvimos atentamente o médico, fizemos as perguntas necessárias e, quando saiu do quarto, conversamos mais um pouco e também me despedi. Não consegui conter as lágrimas. Foi um choro silencioso e involuntário. Tentei disfarçar, mas não sei se consegui.

A partir daí, recebo notícias diariamente. Não está fácil o seu caso. Mas temos esperança da cura, da sua volta para casa e seu retorno às missas mensais na capela. Tenho pensado ultimamente nos meus problemas, tão pequenos diante da dificuldade enfrentada pelo meu amigo, e fico até com vergonha de reclamar ou maldizer a vida.

Faz quatro dias que ele está num coma induzido depois de ter passado pela cirurgia de risco. Ainda não acordou. A angústia da família é transformada em preces e eu, unido a eles, também coloco no coração de Deus as orações em favor de sua vida. “Que seja feita a Sua vontade”, sempre termino assim as minhas súplicas.

Precisamos parar de reclamar dos nossos problemas e começar a olhar mais ao nosso redor. Há muitas pessoas mergulhadas no sofrimento, esperando apenas uma palavra amiga ou uma prece sincera. Nesses momentos é preciso lembrar o salmo que diz: “Deus é o nosso refúgio e a nossa força”. Acreditemos nisso.

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal