A fortaleza da Fé

O estandarte do Sagrado Coração de Jesus estava ao lado do seu caixão. Carregava no pescoço a fita do Apostolado da Oração e, nas mãos, um terço da cor marfim. Eu havia estado com ela dois dias antes, para ministrar o Sacramento da Unção dos Enfermos. Estava num leito de hospital e seu estado era muito crítico. A idade chegara, as forças foram se encerrando e a missão se cumpriu.

Não sei se percebeu a minha presença enquanto rezava por ela, pois não tinha sinais de que estava ouvindo e não conseguiu mais se comunicar. Apenas uma respiração ofegante denunciava a sua luta pela vida. Esse Sacramento é de cura. Cura o corpo e a alma, dá alívio e consolo. Mas, nem sempre o que entendemos por cura se aplica nesse caso. Muitas vezes, a cura não aconteceu de maneira efetiva, trazendo novamente a saúde, restituindo assim a vida normal que a pessoa tinha. A cura também pode ser o cumprimento da sua missão neste mundo.

Assim aconteceu com ela. Os médicos comunicaram que não havia muito mais a fazer, além dos cuidados paliativos. E, nesse momento, para os que têm fé, encontram o consolo na vida eterna. A possibilidade do céu enche o coração de esperança.

Assim aconteceu. Findou-se a vida na terra para dar continuidade junto do Criador. Chega uma etapa da nossa vida em que não se encontram mais remédios eficazes para as nossas dores e nem sentido e disposição nesta vida. São Francisco chamava a Morte de irmã, talvez para nos ensinar a perder o medo e acolhê-la no momento certo.

É por isso que vale a pena fazer uma experiência profunda com o Sagrado. Deus nos ajuda a entender o que não se pode explicar: “Qual o sentido da nossa vida?”. Essa pergunta eu fiz mais de uma vez para mim mesmo naquele velório. Ao ver os sinais da sua fé cristã, dos comentários sobre a sua presença atuante na vida paroquial, pareceu-me clara a proposta evangélica de se moldar a Jesus.

Ao procurarmos um coração semelhante ao Dele, não nos tornamos mais especiais que os outros e isso não nos dá privilégios. Continuamos à mercê do ocaso e das intempéries da vida. Mas nos dá dignidade. As cruzes, que vão aparecendo ao longo do caminho, tornam-se mais leves. Encontramos sentido até no sofrimento, pois Cristo também sofreu por nós e nos ensinou que renunciar a si mesmo e carregar a cruz faz parte do seu seguimento.

O cristianismo possui a capacidade de fazer o ser humano retornar ao caminho do bem. Preocupa-me a falta de seriedade com que muitas vezes falamos sobre a fé, pois ela deve nos mover para o alto, buscando aquilo que seja etéreo em nossas vidas. Mas, o que vemos, é a forma mais baixa de se referir à Palavra de Deus e aos seus ensinamentos.

Tornamo-nos fiscais e juízes dos nossos irmãos. Fechamos as portas e as possibilidades de criar relacionamentos saudáveis e respeitosos. Cobramos muito do outro, mas não nos preocupamos com nossos atos. Relativizamos quando algo errado se refere a nós, mas pesamos a mão e a língua quando se refere ao outro.

Jesus também conheceu pessoas assim. Sem medo, chamava-os de “hipócritas”, pois eram como “sepulcros caiados”, isso é, por fora muito bonito, mas por dentro, só podridão.

No velório daquele senhora, pude refletir sobre a falta que pessoas como ela farão no mundo de hoje. Ela vem de uma geração corajosa, pois enfrentaram muitas dificuldades na vida e venceram. Tinham consciência de que na vida não se pode tudo, há um esforço para se conquistar os bens materiais e os bens morais. Não se desiste fácil dos seus sonhos e não se atropelam as etapas. Tudo no seu tempo. Cuidar da família, do trabalho e da honestidade consigo e com os outros, eram pontos primordiais.

E de onde tiravam tanta força? Da fé em Deus e da prática da religião. Das missas nos domingos de manhã. Das eucaristias comungadas e das horas de adoração diante do Santíssimo Sacramento. Da fita vermelha do Apostolado da Oração, colocada no pescoço durante celebrações e procissões. Do terço rezado diariamente, prática antiga e validada pela Igreja, e que continua fazendo tanto bem a tantas pessoas, mas que aos poucos vai sendo esquecido e transformado em amuleto. Do trabalho silencioso e despretensioso dos Vicentinos, arrecadando alimentos e levando aos mais necessitados.

A força vinha também da vida mais simples. Viver sempre foi complexo, mas havia uma leveza atrelada à dureza do trabalho diário e necessário para a sobrevivência. Existiam os problemas, as maldades, as brigas, mas havia também a obediência aos pais, o respeito aos avós, a certeza de que Deus estava ao lado.

Que descanse em paz essa senhora que eu não cheguei a conhecer, pois os nossos encontros aconteceram no hospital e dois dias depois no seu velório, mas que fez pensar sobre a fragilidade da vida e a fortaleza da fé.

Que Deus a acolha no Paraíso.

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

                                                                Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal