Encontramo-nos depois de muitos anos. Crescemos juntos, temos a mesma idade, nossas famílias já foram vizinhas de casa. A vida foi tomando o seu rumo e cada um seguiu o seu caminho. Eu, padre, trabalhando junto ao povo, celebrando, visitando, aconselhando, rezando. Ela, casou, teve filhos, especializou-se em doces e faz uns bolos deliciosos. Há poucos anos ficou viúva. O esposo não resistiu a uma doença silenciosa e agressiva.
Tempos depois foi ela, também descobriu que estava doente. Teve medo, chorou, pensou nos seus filhos que não tinham mais o pai e decidiu enfrentar. Passou por uma cirurgia, fez radioterapia e conseguiu se recuperar muito bem. Como sequela ficou sem o paladar por um bom tempo.
O dom da culinária sempre esteve presente em sua vida. Era famosa pelos doces, mas também pelos almoços e jantares que fazia. Requisitada por muitos para realizar o seu trabalho, agora, depois do tratamento, não conseguia distinguir mais se o alimento estava doce ou salgado. Mesmo assim, ela me disse que continuou a cozinhar. Chamava alguém para ir experimentando e assim garantir a comida saborosa que sempre fez. Mas, às vezes, não tinha ninguém por perto e acabava errando feio na quantidade do sal ou do açúcar.
Agora, depois de um bom tempo sem problemas, a doença voltou a dar sinais e ela começou tudo de novo. Médicos, exames, pequenas cirurgias, remédios. No início, disse que ficou triste, desanimada, mas rapidamente lembrou-se novamente dos filhos, da sua vontade de viver, e sua alegria interior a fez recomeçar com coragem e determinação.
Ontem, o meu dia foi bem corrido. A vida parece que está acelerada e o tempo se torna curto. Não conseguimos, às vezes, cumprir com todos os compromissos programados e ficamos correndo de um lado para o outro, tentando fazer o que é possível. Mas, para mim, era uma questão de honra realizar o nosso encontro à noite.
Por coincidência da vida, uma paroquiana minha tem os pais vizinhos da minha amiga, e conseguiu agendar um jantar para nos encontrarmos. Cheguei e fui muito bem acolhido pela família. Havia um clima sereno e alegre naquela casa. Fui entrando e, na cozinha, lá estava ela.
Abraçamo-nos como se os sinais do tempo não tivessem nos transformado em pessoas adultas, cheias de marcas e histórias para contar. Olhei bem para ela e vi que ainda trazia no seu semblante a pessoa alegre que sempre foi. O interessante é que parecia que as nossas vidas haviam ficado no passado e começamos a falar de coisas antigas que estavam guardadas em nossas memórias.
Rimos muito, interagindo com a família que nos acolheu. O jantar foi maravilhoso. Arroz caipira com polenta e salada de alface e tomate. O cardápio ajudou a lembrar do nosso passado e das aventuras de crianças.
Chegou o momento de falar sobre a morte do esposo e sobre a doença que voltou. E aqui, pude ver o quanto essa minha amiga é forte. Falava com firmeza, analisando toda a situação sem desespero e sem se colocar como vítima da situação. Por um tempo, todos se calaram para ouvi-la. Fiquei imaginando o que cada um estava pensando enquanto ela contava os seus desalentos com tanta fibra e vontade de viver.
Muitas vezes, ela parava de falar no sofrimento que passou e, com muito bom humor, presenteava-nos com histórias engraçadas, fazendo-nos rir e rindo junto com muito gosto. Era uma forma de não deixar o drama de sua vida tão pesado, havia também ali momentos de leveza.
A lição daquela noite, para mim, foi a certeza que é muito bom viver. Construir a nossa história sem muita murmuração e sem muito ressentimento. Ser adulto é também assumir as tragédias que a vida, por ventura, apresenta. Enfrentar, uma a uma, sem jogar a culpa em ninguém ou em alguma coisa, mas buscando sempre as motivações que nos levam adiante e nos fazem vencedores.
Ela me ensinou que vale a pena sorrir mesmo diante da tristeza. Vale a pena recomeçar sempre. Vale a pena olhar o mundo com vontade de vencer todos os obstáculos e seguir em frente. Disse que gosta de passear, de cumprimentar todas as pessoas, que continua cozinhando para ela e sua família e come tudo, mesmo que não consiga sentir completamente o sabor dos alimentos.
Quando terminou o nosso jantar e as conversas já estavam todas atualizadas, eu me despedi da família que me acolheu, agradeci por terem me proporcionado aquele momento e dei um abraço na minha amiga. Um abraço que envolveu toda a nossa história, o momento atual de nossas vidas, e a promessa de rezar por ela nesse momento de mais uma batalha, com a certeza da vitória.
Talvez ela não tenha percebido o tamanho do seu exemplo para todos os que estavam ali naquela casa. Mas, com o seu gesto de vida, conseguiu evangelizar na prática, sem teoria e sem invenção. Foi vida em abundância que ela nos apresentou. Foi fé e coragem para enfrentar todas as dificuldades da vida. Foi amor pela família, pelos amigos e por si mesma, que de maneira tão simples e sincera, apresentou-nos naquele encontro.
Saí de lá com o coração agradecido a todos e com um bolo de fubá nas mãos, que minha amiga fez para me presentear, provando que ainda continua com o dom da culinária. E o que eu posso dizer a vocês depois disso tudo? Que Deus é bom o tempo todo. Paremos de reclamar tanto. A vida sempre vale a pena.
Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz
Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal
