Último dia

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal

 

Levantei cedo, como de costume. Por muitos anos da minha vida, o despertar de madrugada era um peso. Nunca me acostumei em acordar antes do sol. Mas agora, acordo cedo e já encontro o sol reluzente, iluminando o dia. Escuto os pássaros fazendo suas algazarras matinais e tomo um banho, iniciando oficialmente esse novo dia.

Vem-me à mente a possibilidade da finitude. Pode ser o último dia que tenho neste mundo. O que fazer? Olho para o meu rosto no espelho embaçado e penso: “Nada. Apenas viva o dia enquanto há tempo”.

À vezes, não se tem muita coisa a fazer para resolver um problema. “Orar costuma fazer bem”, já cantou Padre Zezinho, scj, e eu acredito nisso. Tenho por princípio que a vida espiritual deve ter ressonância no cotidiano. É preciso viver o que se reza. Tudo se desenha de maneira mais amena quando esperamos no Senhor. Essa espera não pode ser displicente, pesarosa, entediante. Não. É uma espera carregada de esperança e cheia de vida.

Pego o meu rosário e vou para o encontro com um grupo de homens que tem por hábito e devoção rezar o terço todos os sábados pela manhã. Vou caminhando pelas ruas da cidade, sem pressa, mesmo sabendo que, ao chegar, a oração já vai ter iniciado. Mas, para que tanta pressa? Nossa geração corre muito sem saber bem para onde está indo. Sempre à procura de algo para resolver, consertar, descobrir. Parece até que nada antes foi feito e tudo está por fazer.

“Olhai para os lírios do campo, como eles crescem”, disse um dia Jesus. “Não trabalham nem tecem; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles”. Mas como é satisfatório para a alma contemplar um versículo desse. Como acalma o coração saber que uma parte da vida você tem de cuidar, a outra, no entanto, Deus cuida para você.

Esquecemo-nos de dar espaço para Deus agir. É preciso responsabilidade com o movimento natural da vida, sabendo escolher bem as possiblidades que nos são propostas. Mas é preciso também viver as surpresas de Deus. Deixar-se cuidar como o bebê que, ao colo da mãe, fecha os olhos e deixa o seu coração bater no ritmo daquela que o embala. Respira na mesma harmonia, dando a sensação de que são um só corpo e uma só alma. Assim deve ser nossa relação com Deus: “Agir com a mesma sintonia, como se fôssemos um”.

Cheguei a casa e os homens já estavam rezando. Aliás, dava para ouvir o som das preces um quarteirão antes. Fui entrando devagarinho, cumprimentando discretamente e já me inserindo na oração com eles. Acabei ficando num lugar privilegiado, tendo a visão de todos, e eram muitos. Algumas mulheres preparavam o café, afinal, a oração era para os homens. E de maneira singela, iam rezando junto sem se descuidarem dos seus afazeres.

Marta, a irmã de Maria e Lázaro, que tinha o privilégio de receber Jesus sempre em sua casa para um descanso ou um café, não teve a mesma percepção dessas mulheres que estavam trabalhando e rezando. Ela se chateou com Maria, sua irmã, que resolveu sentar-se aos pés do Senhor apenas para escutar o que Ele tinha a falar.

Marta poderia continuar o seu trabalho, lá na cozinha, em silêncio, para também ouvir o que se passava lá na sala. Mas não. Incomodou o seu coração, dando àquele momento de eternidade um tom sombrio de raiva misturada com decepção. É realmente uma pena quando perdemos a oportunidade de continuar fazendo o nosso trabalho e, ao mesmo tempo, estar em sintonia com o Céu.

Terminada a oração do terço, foi servido o café. Delicioso, para ser bem honesto com aquelas que trabalhavam enquanto rezávamos. Aos poucos, todos foram se retirando. Fiquei um pouco mais observando a satisfação dos donos da casa por receberem aquele grupo de homens para a oração.

Voltei pelo mesmo caminho que vim. Cumprimentando a um, acenando para outro e pensando nos compromissos do dia. Mas, e se fosse o último dia da minha vida? O que precisaria mesmo fazer? Volto a me perguntar e a responder eu mesmo a essas indagações: “Nada. Não faria nada diferente daquilo que já havia programado”. Continuaria a viver o dia sem medo e sem peso no coração.

Volto a pensar no encontro de Jesus com aquelas irmãs. Queria mesmo era ser Maria, a irmã da Marta e do Lázaro, só para ficar sentado aos pés do Senhor naquela pequena casa no vilarejo de Bethânia. Como seria bom ouvir Jesus falar de maneira livre sem se preocupar com os fariseus. Ficaria à vontade em ver que Ele também estava à vontade.

Olharia para mim e veria a beleza escancarada da natureza humana. Como os lírios devem olhar para si mesmos e ver a sua beleza natural. Veria que sou muito mais do que pensam de mim. Muito mais pecador e muito mais santo. Sou quem eu deveria ser. Um construtor de mim mesmo. Lapidando lentamente o ser escondido nessa pedra bruta.

E, se realmente hoje for o último dia da minha vida, espero que amanhã, assim que o sol lançar os primeiros raios do novo dia, eu possa estar sentado aos pés do Senhor, dizendo sem medo: “Fala, Senhor, que teu servo escuta!”.