Retiro na Fazenda Santa Maria

Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz

Pároco de Américo de Campos e Pontes Gestal

 

A missa acabou. Pegamos os carros e fomos até a fazenda Santa Maria passar o dia apenas com a companhia da Palavra de Deus. Éramos quase duas centenas de pessoas, e o dia, com o sol entre nuvens, trazia à natureza uma claridade suave que contrastava com a varanda vestida de terracota e ornada com grandes arandelas, dando ao nosso ambiente uma elegância rústica e agradável.

O dia foi passando numa velocidade interessante. Às vezes parecia que o Kairós, o tempo regido por Deus, comandava tudo. Ficávamos como que mergulhados na Palavra e não percebíamos as nuvens andarem lentamente no céu. Quando dávamos por conta, o tempo havia passado sem que sentíssemos. A outra velocidade era o tempo do Cronos, que, como o deus da mitologia grega que leva também esse nome, devorava os seus filhos para não tomarem o seu trono. Mas, hoje, como não se tem mais filhos e nem trono, o que realmente é devorado é o tempo do relógio. De maneira impaciente e ansiosa, não dava trégua na velocidade das horas.

Assim, ao longo do dia, tivemos tempo de eternidade e tempo de finitude, que se entrelaçavam como num grande balé celestial. No meio dessa coreografia estávamos nós, maravilhados, com a bíblia nas mãos e o coração saltitando de alegria por descobrirmos juntos o que já sabíamos, mas precisávamos relembrar: Deus é realmente muito generoso.

Passamos pela base comum, onde tudo começa a se esclarecer e a se sustentar no reconhecimento de quem somos, de onde viemos e para onde precisamos ir. Tocamos a nossa formação humana e refletimos que somos criados à imagem e semelhança de Deus. Percebemos a graça plena de carregarmos as características divinas em nossa humanidade.

Somos todos “imagem” desse Deus que é Amor. E isso é dom, graça, pura delicadeza do Criador para com a sua criatura. Daí advém toda a compreensão sobre a necessidade do respeito humano, da solidariedade, do compromisso com a fraternidade entre nós. Cada ser humano que viveu nesse mundo, do princípio até os dias de hoje, e também os que virão depois de nós, possui o dom de ser a Imagem de Deus. É o nosso DNA divino. A certeza de que somos todos criados na mesma forma, da mesma Palavra, do mesmo amor.

Mas, e os seres humanos que não chegaram a nascer? Os que foram gerados nos ventres, mas que não tiveram a chance de nascer, também carregam essa graça Divina? E vimos que sim. Todos nascidos ou não, crentes ou ateus, saudáveis ou doentes, russos ou ucranianos, israelitas ou palestinos, enfim, todos os humanos carregam consigo a imagem do Deus da Vida.

No entanto, “semelhança” já é tarefa, esforço pessoal. É a capacidade de fazer escolhas acertadas na vida, tendo como base os ensinamentos de Jesus. É colocar em prática a benquerença para com todos. É gostar de gente e ter vontade de ajudar quem precisa. É amar e deixar ser amado. É seguir Jesus, inclusive na subida do monte do calvário, onde todas as dores são duplicadas, pois leva as suas e as dos outros. É querer ser bom a exemplo do Senhor que sempre foi bom.

Pausa para um cafezinho. São muitas informações simples que precisam de um tempo para que a nossa inteligência consiga assimilar. Não é fácil refletir sobre a simplicidade de Deus. Buscamos algo sempre muito complexo e nos deparamos com a essência da prática do cristianismo que se resume em um único ensinamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo”.

Quando voltamos do intervalo, na varanda adornada de verde natureza por todos os lados, encontramos no meio das pessoas, com as bíblias em mãos e olhos atentos, dois personagens do Antigo Testamento: Gedeão e Davi. Sempre atentos ao relógio que não parava de trabalhar acelerado, buscamos algumas características humanas em confronto com a missão que Deus sempre nos dá.

Gedeão não se enxergava um guerreiro. De sua boca saía o que seu coração transbordava: reclamações contra Deus, contra o povo inimigo, contra a sua condição familiar. “Ai, meu Senhor”, reclamava sempre o pobre jovem. Mas, Deus disse: “Vai com a força que te anima, valente guerreiro”. Depois de refletirmos sobre esse diálogo de Deus com Gedeão, tomamos a certeza de que também há em nós uma força que nos anima.

A alma humana transborda de possibilidades positivas em favor da vida. Há uma força existencial que carregamos, dada por Deus e na medida certa. É preciso retomar essa força, reavivar essa anima para rever nosso caminho. Se Deus diz, quem somos nós para desdizer ou duvidar?

O outro texto bíblico trouxe para nós Davi ainda adolescente e cheio de energia. Ele queria vencer o gigante filisteu. Foi falar com o rei que tentou tirar de sua cabeça essa ideia suicida. Mas não conseguiu. Deu-lhe de bom grado suas roupas reais de ir à guerra, mas Davi preferiu levar um cajado, cinco pedrinhas pegas no riacho e um estilingue. A verdadeira arma era sua fé no Deus de Israel.

O menino Davi venceu o gigante Golias. A força da fé venceu a força do mal. “Vai com a força que te anima”, utilizamos a frase dada a Gedeão na figura do pequeno Davi. E pegamos emprestado para a nossa vida esses dois relatos bíblicos. Quem sabe nos ajudam a discernir em nossas escolhas.

Pausa para o almoço, preparado com tanto carinho pela equipe da cozinha. Tivemos tempo para um passeio pela natureza da fazenda Santa Maria para ouvir os pássaros e apreciar a beleza da criação. Que esse momento de Kairós fique para sempre em nossas memórias.